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Durante muito tempo vivemos a realidade de uma sociedade conduzida pela média, os tratamentos médicos eram definidos pela média de pacientes no qual o tratamento funcionava, os medicamentos eram definidos pela sua capacidade média de causar mais efeitos positivos no combate de uma enfermidade do que em causar outra pior com efeitos colaterais, um aluno na escola era considerado apto ao próximo ano letivo com base na média de aprendizado, a idade para se aposentar era definida com base na expectativa de vida média da população, dentre tantos outros exemplos.

Embora eu tenha apontado esses exemplos todos no passado, o fiz porque hoje é possível encontrar tratamentos médicos, medicamentos, sistemas de ensino e planos de aposentaria mais flexíveis e personalizáveis, mas a condução pela média ainda é uma realidade para a maior parte da população. Contudo, se você observar a sua volta, perceberá que essa realidade está mudando um pouco a cada ano. 

Se outrora, na primeira metade dos anos de 1900, o engenhoso Henry Ford fez história ao desenvolver um sistema de produção em linha que tornou possível a fabricação em massa de seus carros, foi nessa mesma época em que ele cunhou a frase que se tornou símbolo da produção em massa.

“O cliente pode ter o carro da cor que quiser, contanto que seja preto.”

Henry Ford

Havia vários motivos para Ford afirmar isso na época, desde o preço da tinha preta que era mais barata, passando pela rapidez de secagem, até o alto custo de recurso e de tempo necessários para mudar o processo de fabricação e pintar os carros de outra cor. 

Hoje, a nossa experiência personalizada vai muito além de cores, são modelos, tamanhos, estilos, cheiros, sabores etc. o tempo de pensar no produto passou, hoje estamos buscando experiências, lembranças, momentos. Todo esse conforto é muito bom, não há dúvidas disso, não precisamos mais escolher o menos ruim para assistir na televisão, podemos escolher exatamente o quê desejamos ver e quando.

Tanta facilidade está nos deixando moles, dizem alguns, mas eu vou um pouco além, tantas facilidades, quando mau absorvidas, estão nos deixando mimados. Estamos construindo uma sociedade incapaz de lidar com frustrações, em esperar o tempo correto das coisas, em saber distinguir o certo do errado. A final, parece que não precisamos, porque se outrora tínhamos referências claras, nas ciências e na religião, hoje cada um pode selecionar a pequena parte da verdade que deseja acreditar e se não encontrar uma pequena grande verdade que lhe agrade, simplesmente ele pode criar uma para si. 

Assim nasce para nós a cristandade personalizada, sim aponto a cristandade em si, porque não haveria nenhuma incoerência para a fé judaico-cristã se amanhã eu acordasse e decidisse criar a minha própria religião, fundamentada no sistema de leis e crenças que eu escolhesse. Mas quando eu decido que desejo continuar cristão e apenas personalizo a moral judaico-cristã para aquilo que me convém, sim neste momento estou criando um problema e este raciocínio pode ser aplicado a qualquer crença conhecida, como a mulçumana, a hindu, a budista e tantas outras. 

Embora a fé cristã historicamente já tenha se dividido, a exemplo do Grande Cisma em 1054 que causou a ruptura da Igreja Cristã, separando-a em duas: Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja Católica Apostólica Ortodoxa. E na Reforma Protestante em 1517, que deu origem as primeiras igrejas protestantes na Europa. O quê estamos vendo hoje não é uma interpretação diferente das Sagradas Escrituras ou uma percepção nascente de como igreja e sociedade devem estar organizadas. Estamos falando da criação de novas verdades, moldadas e personalizadas especificamente para atender os anseios de grupos ou de indivíduos.

Talvez você tenha considerado isso um exagero, mas observe com cuidado a sua volta, talvez você precise ler um pouco mais a bíblia, documentos da Igreja e até estudar um pouco mais de história para perceber. Mas muito do comportamento cristão de hoje, não tem base em Jesus, não se nutri da moral judaico-cristã, não pode ser encontrado na história do judaísmo ou do cristianismo, não pode ser interpretado a luz das Sagradas Escrituras, nem sequer dos livros apócrifos porque simplesmente não está escrito lá, nem mesmo o moderno e muitas vezes fantasiado “Jesus histórico” é capaz de justificar as escolhas, ações e estilos de vida que os cristãos modernos estão vivendo e promovendo hoje. 

Trocamos a luta de viver a verdade relevada que foi travada pelos santos que viveram antes de nós, por uma verdade flácida e personalizável, digna de uma sociedade mimada que não consegue lidar com um “não” e precisa que tudo se ajuste sob medida em seus desejos. Talvez ainda não seja possível que todos tenham um atendimento médico personalizado ou uma educação sob medida, mas nossa sociedade já se tornou especializada em fabricar verdades falsas sob medida para cada um, o maior problema dessa fabricação em massa de verdades personalizáveis, é que assim como o carro que um dia foi um bem de consumo difícil de possuir e desejado por muitos, com o passar do tempo se tornou algo que muitas pessoas preferem não ter um, para não precisarem se preocupar com seguro, manutenção, combustível, estacionamento e tantas coisas que vem juntas com a posse do carro. 

Ou seja, diante de tantas verdades disponível, não é atoa que cada vez mais pessoas não se importam em ter uma verdade, se existem tantas, não faz sentido se preocupar em ter uma. Mas se nos esforçarmos, ainda seremos capazes de discernir qual é a verdade verdadeira, apenas precisamos, perceber Deus nos pequenos detalhes. 

Graça, Paz e Misericórdia.