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“Obrigado Senhor por este alimento, eu sei que se tenho é porque o Senhor permitiu, permite na mesa dos que menos tem e nos ensina a partilhar. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.”

Aqueles que já tiveram a oportunidade de dividir uma refeição comigo em algum momento, já sabem que diante da comida, seja ela qual for, eu ponho uma pequena porção na boca, pode ser um grão de arroz, um pequeno pedaço de alguma verdura ou legume, ou qualquer outra coisa que seja de mais fácil captura do prato. Faço para sentir o sabor da comida, em seguida faço essa breve prece em silêncio, depois faço o sinal da cruz e começo a comer normalmente. 

Algumas pessoas já me perguntaram o porquê de eu provar algo da comida antes de agradecer, já que o habitual é fazer isso antes de comer alguma coisa. Bom, agradecer diante de uma refeição não é exatamente um desafio quando se está olhando para uma bela lasanha, um bife suculento e assim por diante. Mas as vezes precisamos do sabor amargo da comida não tão boa em nossa boca, daquela comida que sequer gostaríamos de comer para fazer um agradecimento mais profundo e como faço muitas refeições na rua, muitas vezes é uma loteria divertida agradecer a Deus por algo que eu claramente já sei que não gostei, pois até no que eu não gostei Ele pode me ensinar algo e me aproximar dele. Ao mesmo tempo, pedir a Deus a oportunidade de partilhar algo que você sabe que é muito bom e que instintivamente deseja só para você é um exercício de partilha igualmente interessante.

Não é difícil encontrar pregadores, livros, palestras e afins que nos falem sobre a maneira como direcionamos as nossas orações a Deus e todo bom cristão sabe que Deus não é um empregado nosso disponível para realizar nossas vontades. Nossa oração para Deus pode muito bem ser sobre aquilo que desejamos, mas não pode ser sobre como Deus deve agir sobre o que desejamos, precisamos permitir que Deus haja, a final, Ele sabe de tudo e nós não sabemos com certeza nem o que vamos comer a noite, pois por mais que planejemos, tudo ainda pode acontecer.

Mas e quando nós recebemos aquilo que pedimos a Deus em nossas orações e não percebemos? Será que estamos realmente atentos as respostas de nossas preces? Não podemos esperar que Deus nos mande um ofício respondendo, Ele faz bem mais do que isso. 

Mês passado estava viajando com uma amiga, após algumas escalas no aeroporto, fomos pegar um ônibus na rodoviária. Enquanto esperávamos o ônibus, resolvemos comer alguma coisa na rodoviária, depois que pegamos o lanche e sentamos um homem se aproximou de nós. 

Eu tenho por hábito não dar esmolas na rua, venho de uma região onde as pessoas têm como hábito pedir esmola para manter o vício nas drogas e eu escolhi viver no automático de sempre dizer não. Mau ouvir o que o homem falou e disse não, ele insistiu junto a minha amiga que levantou, foi até a lanchonete e comprou para ele um pedaço de bolo, o homem agradeceu e seguiu em frente. Quando ela voltou eu comentei com ela o porquê de eu sempre dizer não e ela respondeu, 

“Eu também não dou dinheiro, mas ele pediu comida, comida eu dou, reconheço quando uma pessoa está com fome, eu sei o que é isso”. 

Eu ouvi a resposta dela e não falei mais nada sobre, acabamos mudando de assunto e seguimos em frente. Três dias de viagem se passaram e nós já estávamos em outra cidade procurando um lugar para almoçar, paramos em um restaurante a beira da praia e pedimos almoço, como de costume eu fiz minha oração, quando fiz o sinal da cruz a maître sorriu para mim e disse, 

“Esse almoço é dos bons, entregue ao Senhor e tudo.”

Estávamos comendo quando ele apareceu, estava fazendo artesanato com palha e perguntou se gostaríamos de ver, mas eu disse não. Ele olhou em volta como se criasse coragem e pediu, 

“Arruma um pouco desse almoço aí?”

Ele pediu, mas aparentemente não esperava conseguir, começou a se afastar antes de ouvir a resposta, aí eu fiz um sinal com a mão para que ele sentasse conosco, o sorriso em seu rosto foi imediato, ele correu na nossa direção e aproximando-se da mesa ficou parado. Pedi que ele se senta e pedir mais um prato para que ele pudesse comer conosco.

O que me falta em habilidade para puxar conversa com as pessoas, sobrava para a amiga que estava comigo, enquanto almoçávamos ela descobriu uma boa parte da vida do garoto. Seu nome é Gustavo, tem 15 anos e faz 16 em dezembro, está na escola, 1º ano do ensino médio, mas está com medo de reprovar esse ano, pois não conseguia acompanhar as aulas on-line. Tenta vender arte na praia para ajudar a família em casa, os pais estavam desempregados, mas quase não estava fazendo dinheiro, por causa do comercio fechado o movimento de turistas era quase nenhum. Naquele dia era a primeira refeição dele, a última tinha sido o café da manhã do dia anterior. 

Durante a refeição eu levantei o olhar, vi a maître nos olhando, mas era um olhar diferente, um olhar de aprovação, eu olhei novamente para o garoto e lembrei do que havia acontecido três dias atrás na rodoviária, olhei para a minha amiga que estava compenetrada em seus storys no Instagram e voltei o olhar para a maître e pensei “o Senhor sabe ensinar de uma forma que aprendemos para a vida toda”. 

Enquanto estava almoçando conosco, Gustavo falou de seus sonhos, de seus medos, de suas alegrias e de suas privações como qualquer adolescente de sua idade, sempre muito educado não tocava em nada que estava na mesa sem pedir permissão antes. 

Quando terminou de comer, Gustavo agradeceu e antes de se sair minha amiga agradeceu sua companhia e o aconselhou a não desistir da escola. Eu disse a ele que um dia nos encontraremos novamente e iria querer ouvir boas notícias, ele sorriu e saiu dobrando suas palhas, fazendo sua arte, tocando sua vida. 

Já eu, só posso repetir, Deus ouve nossas preces atentamente e nos oferece continuamente a oportunidade de torná-las realidade, mas precisamos está vigilante para perceber essas oportunidades.

Para perceber Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.