,

No domingo, tome a decisão de seguir

Written by

·

“Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,25-33).

O Evangelho deste domingo é duro e exigente. Jesus está rodeado por uma grande multidão, mas conhecendo os seus corações não se deixa enganar pelo entusiasmo passageiro. Ele não procura números, mas corações decididos. E por isso fala sem suavizar: seguir a Cristo exige colocar tudo em segundo lugar, os bens, os projetos pessoais e até mesmo os laços mais sagrados da vida, a família.

À primeira vista, as palavras soam radicais. Como entender esse chamado a desapegar de pai, mãe, esposa, filhos e até a própria vida? Santo Agostinho explica que não se trata de desprezar os afetos legítimos, mas de ordenar o amor, amar a Deus em primeiro lugar para, a partir d’Ele, amar de modo verdadeiro todos os demais. O que é absoluto não pode ser colocado no mesmo plano do que é passageiro.

O coração dividido não se sustenta na caminhada e por isso, São Gregório Magno recorda que quem deseja a Deus, mas permanece preso ao mundo, acaba sendo como alguém que caminha em duas direções ao mesmo tempo e por isso não chega a lugar nenhum. É preciso escolher. O discípulo é chamado a viver no mundo, mas sem ser escravo dele.

Jesus, então, apresenta duas pequenas parábolas, a do homem que constrói uma torre e a do rei que parte para a guerra. Ambas mostram que o seguimento não pode ser um impulso superficial. É preciso calcular, discernir, decidir. Bento XVI comentava que a fé não é entusiasmo vago, mas adesão racional e livre a Cristo, com todas as consequências. Em tempos em que emoções externas são supervalorizadas, esse evangelho nos recorda que chorar, gritar, arrepiar-se, emocionar-se com músicas e ter impulsos intimistas até são coisas validas, mas ainda é o básico, porque o discipulado não se mede pela emoção de um instante, mas pela perseverança de toda uma vida.

No centro do Evangelho está a cruz, “quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27) e é por isso que Santo Tomás de Aquino, o doutor angélico, ensina que a cruz não é buscada por si mesma, mas abraçada como participação no amor redentor de Cristo. É na cruz que o discípulo aprende o amor que não calcula, que não busca retorno, que se entrega totalmente. Santa Teresa d’Ávila dizia com simplicidade, quem começa a seguir a Cristo precisa estar decidido a sofrer, porque Ele mesmo andou nesse caminho.

É assim que aprendemos a ser discípulos, compreendendo que quanto mais livre dos pesos do mundo, mais leve se torna para seguir o Senhor, tal qual nos ensina o grande mestre da vida espiritual, São Bernardo de Claraval, “ninguém chega ao cume da caridade sem passar pela disciplina da renúncia”, porque renunciar não significa destruir-se, mas ordenar os afetos e desprender-se do que prende o coração. 

São João Paulo II lembrava que não há cristianismo sem cruz, mas também não há cruz sem esperança. A renúncia que Jesus pede não é destruição da vida, mas abertura para recebê-la em plenitude. Ao desapegar-se, o discípulo descobre que nada perde, pelo contrário, tudo encontra no amor de Cristo.

O Evangelho nos provoca hoje com uma pergunta, estamos apenas acompanhando a multidão que segue Jesus de longe, ou já decidimos segui-Lo de verdade, com tudo o que isso implica? A cruz não é peso inútil, é caminho de vida. A renúncia não é perda, é libertação. Só quem solta as amarras consegue caminhar.

No fim, as palavras de Jesus não são convite ao medo, mas à coragem. O discipulado não se mede pelo que deixamos, mas por Quem escolhemos. E quando escolhemos Cristo, mesmo com cruzes, sabemos que Ele caminha à nossa frente.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.