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No Domingo, levanta-te e santifica a tua família 

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“Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise!” (Mt 2,13-15.19-23) 
4º Dia na Oitava de Natal | Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José | Ano A

A Festa da Sagrada Família nos afasta de qualquer idealização romântica da vida familiar e nos introduz no realismo do Evangelho. São Mateus nos apresenta uma família perseguida, deslocada, obrigada a fugir para preservar a vida do Santo Menino. A Sagrada Família não nasce envolta em segurança humana, mas sustentada unicamente pela obediência à vontade de Deus. Nela contemplamos o mistério de uma família que vive da fé, atravessa a prova e permanece unida pela confiança no Senhor.

O anjo ordena a José, Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o 
Egito! Fica lá até que eu te avise!”
 (Mt 2, 13b). Não há explicações longas, apenas uma ordem clara. José obedece imediatamente, por isso São João Crisóstomo, arcebispo e o doutor “boca de outro” da Igreja, observa que a prontidão de José manifesta uma fé madura, que não exige garantias antes de agir. Ele não pergunta quanto tempo durará o exílio, nem como sobreviverão, simplesmente confia. Sua obediência silenciosa protege o Redentor do mundo e sustenta a missão confiada à família.

A fuga para o Egito revela que o Filho de Deus entra plenamente na história humana, assumindo desde o início a condição dos perseguidos e deslocados. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, ensina que Cristo não foge por medo, mas para ensinar humildade e para santificar o sofrimento dos inocentes. O Emanuel não se impõe pela força, Ele se deixa conduzir pelos caminhos da fragilidade humana. A Sagrada Família torna-se, assim, refúgio de todos aqueles que experimentam a insegurança, a ameaça e a exclusão.

Em contraponto a isso Herodes representa o poder que teme perder o controle diante da presença de Deus. Para São Gregório Magno, papa e doutor “servo dos servos de Deus” da Igreja, o tirano simboliza todo coração que rejeita a soberania divina e prefere eliminar a verdade a converter-se. Diante desse poder violento, a resposta de Deus não é o confronto, mas a retirada obediente. O Reino cresce no silêncio, na fidelidade e na confiança. A história da salvação avança não pelo espetáculo, ele avança na docilidade dos pequenos.

O retorno do Egito, após a morte de Herodes, confirma que Deus conduz a história mesmo quando ela parece dominada pelo caos. José, novamente advertido em sonho, obedece mais uma vez. São Bernardo de Claraval, abade e doutor “melífluo” da Igreja, destaca que José vive numa escuta contínua, sempre atento à voz de Deus. Ele não conduz a família segundo seus próprios projetos, mas segundo a Palavra recebida. Nazaré, lugar simples e escondido, torna-se o espaço onde o Verbo cresce em sabedoria, estatura e graça (Lc 2,52).

Os Padres da Igreja veem em Nazaré a escola do Evangelho vivido no cotidiano, por isso que Santo Tomás de Aquino, o doutor angélico, ensina que a vida oculta de Cristo santifica o trabalho, a convivência familiar e a obediência diária. Enquanto Maria guarda tudo no coração e José sustenta no silêncio, Jesus aprende a humanidade no seio de uma família concreta. É assim que a Sagrada Família revela que a santidade não está reservada a momentos extraordinários, mas se constrói na fidelidade cotidiana.

O papa São João Paulo II, na Familiaris Consortio, recorda que a família é chamada a ser “igreja doméstica”, lugar onde a fé é transmitida, protegida e vivida. A Sagrada Família não é modelo por ausência de dificuldades, mas por sua capacidade de atravessá-las unida. Papa Bento XVI insistia que a família fundada em Deus se torna espaço de esperança para o mundo, mesmo quando enfrenta provações externas e internas.

Celebrar a Festa da Sagrada Família é reconhecer que Deus escolheu salvar o mundo dentro de uma família, sujeita às leis da história, à dor da perseguição e à insegurança do futuro. Contemplando a Sagrada Família encontramos um pai que ensina a obediência fiel, uma mãe que ensina a termos confiança plena, e um filho que ensina a viver uma submissão amorosa. Que nossas famílias aprendam com a família de Nazaré a escutar Deus, a proteger a vida e a caminhar na fé, mesmo quando os caminhos são incertos. Porque onde Deus é acolhido, mesmo o exílio se transforma em lugar de salvação.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.