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No Domingo, ajoelhe-se e O adore

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“Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande” (Mt 2,1-12).
0ª Semana do Natal | Solenidade da Epifania do Senhor | Ano A

Aquilo que o Natal inaugurou no escondimento a Epifania manifesta publicamente, o Filho de Deus veio para todos. Se em Belém Deus se revela na pobreza de um presépio, na Epifania Ele se dá a conhecer às nações, representadas pelos magos que vêm do Oriente. O Evangelho deste domingo (Mt 2,1-12) não nos apresenta homens piedosos de Israel, mas estrangeiros, buscadores, homens em caminho. A salvação outrora vista como privilégio de poucos, agora é dom oferecido a todos os que se deixam conduzir pela luz.

“Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,2), os magos veem a estrela e partem, por isso São Gregório Magno, papa e doutor “servo dos servos de Deus” da Igreja, afirma que a estrela é o sinal exterior que corresponde a um movimento interior da graça. Porque Deus atrai primeiro o coração e, depois, orienta os passos. A fé nasce sempre de um chamado que inquieta e põe o homem a caminho. Assim a Epifania nos recorda que Deus se deixa encontrar por aqueles que O procuram com sinceridade, mesmo quando não O conhecem plenamente.

O contraste entre os magos e Herodes é decisivo, enquanto uns caminham para adorar, o outro se fecha no medo de perder o poder mundano. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, observa que Herodes teme um rei terreno, quando diante dele está o Rei que veio libertar os corações. E ao fazer isso, demonstrar sua própria fragilidade por se sentir ameaçado por Deus, mas a reação de Herodes não é surpresa, ela é esperada, porque a luz da Epifania não é neutra, ela ilumina, mas também desmascara, assim o é até os dias de hoje, onde alguns se alegram com a presença de Deus e outros se perturbam.

A estrela conduz os magos nobre figuras da realeza, mas não os conduz até um palácio, mas a uma casa simples. Aqui se manifesta o escândalo da encarnação como nos ensina São João Crisóstomo, arcebispo e o doutor “boca de outro”da Igreja, destaca que Deus poderia ter atraído os magos por prodígios grandiosos, mas preferiu conduzi-los à humildade, para ensinar que a verdadeira grandeza se encontra onde Ele está. Desta forma a Epifania corrige nossas expectativas, sim Deus se revela, mas não segundo os critérios do mundo.

Depois da longa jornada, os magos puderam alcançar um ápice da fé católica, pois “quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram” (Mt 2,11a), nesse momento, como nos recorda São Bernardo de Claraval, abade e doutor “melífluo” da Igreja,  a adoração é o ápice do caminho da fé, quem verdadeiramente encontra Cristo não permanece de pé, mas se ajoelha. 

E é por isso que antes de oferecer dons, os magos oferecem a si mesmos, e apenas “depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11b). Estes presentes que são simbólicas profissões de fé, o ouro para o Rei, o incenso para Deus e a mirra para aquele que assumirá a morte. Símbolos que demonstram como já na Epifania, a cruz se projeta sobre o presépio.

Santo Tomás de Aquino, o doutor angélico, observa que os magos reconhecem, num Menino pobre, aquilo que muitos não reconhecem em meio aos sinais evidentes, a presença de Deus, isso revela que a fé não depende da evidência exterior, mas da docilidade interior. A Epifania é, portanto, uma escola de discernimento espiritual que nos ensina a reconhecer Deus onde Ele escolhe se manifestar, e não onde gostaríamos que Ele estivesse.

Depois de tudo, “avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” (Mt 2,12), esse retorno dos magos por outro caminho não é mero detalhe narrativo. O Papa Bento XVI afirma que quem encontra Cristo não pode voltar pelo mesmo caminho, porque o encontro com Deus transforma a rota da vida. A Epifania não termina na contemplação, ela exige conversão, porque ver a luz de Cristo implica caminhar segundo os seus desígnios. Aquele que adora o Senhor é chamado a reorganizar sua existência a partir desse encontro.

São João Paulo II, o papa peregrino, recorda que a Epifania revela a vocação missionária da Igreja, pois Cristo manifesta-se para que seja anunciado. E é por isso que a estrela continua a brilhar hoje na vida dos que testemunham a fé com coerência, humildade e coragem. Cada cristão é chamado a ser sinal que aponta para Cristo, não para si mesmo, fazendo o próximo encontrá-Lo e se retirar do caminho, assim como a estrela desaparece quando o Menino é encontrado.

Celebrar a Epifania é reconhecer que Deus se deixa encontrar, mas exige movimento, se revela, mas pede adoração, ilumina, mas convoca à mudança de vida. Como os magos, somos convidados a sair de nossas seguranças, seguir a luz que Deus acende no coração e oferecer ao Senhor não apenas dons, mas a própria vida. Porque aquele que se manifesta às nações continua a chamar todos os homens a adorá-Lo em espírito e verdade.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.