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No Domingo, renove a sua consciência batismal

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Este é o meu Filho amado (Mt 3,13-17).
0ª Semana do Natal | Festa do Batismo do Senhor | Ano A

A Festa do Batismo do Senhor encerra o ciclo do Natal revelando, de modo solene, quem é Jesus e qual é a lógica do seu agir. Às margens do rio Jordão, Aquele que não tem pecado se coloca na fila dos pecadores, O Filho eterno entra nas águas como quem desce até a condição humana para redimi-la por dentro. Não é um gesto periférico, mas uma chave de leitura de toda a missão de Cristo, Ele salva não à distância, mas pela proximidade.

O diálogo entre Jesus e João Batista revela o escândalo da humildade divina, “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” Jesus, porém, respondeu-lhe: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça! E João concordou” (Mt 3, 14b-15).

Para São Hilário de Poitiers, bispo e doutor “Defensor da Fé” da Igreja, essa justiça não é cumprimento legal, mas plena adesão ao desígnio do Pai. Cristo não entra nas águas para ser purificado, mas para purificá-las, pois Ele não recebe algo, mas consagra aquilo que Ele mesmo institui. No rio Jordão, a criação começa a ser reordenada a partir da obediência do Filho.

São Máximo de Turim, bispo e um dos Padres da Igreja, afirma que o Senhor quis ser batizado para que o povo aprendesse que ninguém chega à glória sem passar pela humildade. Por isso o rio Jordão torna-se figura do sepulcro e do nascimento novo, descer com Cristo para ressurgir com Ele, o que mostra como a Festa do Batismo do Senhor já aponta para a cruz, mas também para a ressurreição.

“Então o céu se abriu” (Mt 3, 16), o céu que se abre é sinal de reconciliação, aquilo que o pecado havia fechado, Cristo reabre pela obediência, por isso São Efrém da Síria, diácono e doutor “Doutor Universal” da Igreja, com sua linguagem poética e teológica, afirma que o céu se abre porque o Filho se abaixa. O movimento da salvação é sempre assimétrico, Deus desce para que o homem possa subir e este é o ensinamento central do Batismo do Senhor, a vida cristã começa quando aceitamos esse rebaixamento que nos eleva.

“Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele” (Mt 3, 16b), o autor sagrado não descreve o Espírito Santo descendo em forma de pomba apenas como um detalhe simbólico, mas como uma revelação trinitária. O Pai fala, o Filho está nas águas, o Espírito paira. São Leão Magno, papa e Magno doutor da Igreja, ensina que neste momento a fé da Igreja recebe sua forma plena, não cremos em um Deus solitário, mas em um Deus comunhão. O Batismo de Jesus é, assim, uma epifania do Deus trinitário que se doa ao mundo.

A voz do Pai, “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt 3, 17b), não apenas revela a identidade de Jesus, mas também ilumina a nossa. Pelo Batismo, essa mesma palavra é dirigida a cada cristão. O papa Francisco recorda que o Batismo não é um evento social do passado, mas um acontecimento atual que define quem somos, filhos no Filho. Antes de qualquer mérito, desempenho ou função, a identidade cristã nasce dessa filiação recebida gratuitamente.

Jesus sai das águas sem mudar de aparência, mas o mundo já não é o mesmo, a partir dali, toda água batismal carrega a força santificadora do Espírito Santo. E assim a Festa do Batismo do Senhor nos recorda que a vida cristã não começa com uma conquista moral, mas com um dom. Somos chamados a viver como quem já ouviu a voz do Pai e decidiu caminhar segundo ela.

Ao concluir o tempo do Natal, a Santa Mãe Igreja nos conduz do presépio ao rio Jordão para que compreendamos que o Deus que se fez pequeno também se faz solidário. O Batismo do Senhor nos convida a renovar nossa consciência batismal, descer com Cristo, viver como filhos e caminhar na docilidade ao Espírito Santo. Porque a verdadeira vida cristã começa quando permitimos que Deus nos chame, com verdade e amor, de filhos muito amados.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.