“O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz””(Mt 4,12-23).
3º Domingo do Tempo Comum | Domingo | Ano A

O Evangelho deste Terceiro Domingo do Tempo Comum apresenta-nos um momento decisivo no ministério público de Nosso Senhor. Após a prisão de João Batista, Jesus retira-se para a Galileia e fixa-se em Cafarnaum, à beira do lago, cumprindo a antiga profecia de Isaías, “o povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz” (Is 9,1). Não se trata apenas de uma mudança geográfica, mas de uma revelação teológica, Deus escolhe os lugares esquecidos, para fazer resplandecer a luz da salvação.
A Galileia dos gentios, marcada pela mistura de povos e pela fragilidade da fé, torna-se o primeiro grande palco da pregação da Boa Nova. Como ensina São Jerônimo, doutor “eminente na interpretação das Escrituras” da Igreja, Cristo não começa sua missão em Jerusalém, centro religioso e político, mas entre os simples, para que ficasse claro que o Evangelho não nasce do poder humano, mas da iniciativa gratuita de Deus. A luz que ali brilha não é reflexo de méritos humanos, mas irradiação da misericórdia divina que vai ao encontro de quem vive nas sombras.
O núcleo da pregação de Jesus é direto e exigente, “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17b). A conversão, recorda Santo Agostinho, bispo e doutor “da Graça” da Igreja, não é apenas mudança de comportamento exterior, mas uma reorientação total do coração, um retorno da alma a Deus, de quem se afastou pelo pecado e pela autossuficiência. Converter-se é deixar-se alcançar pela luz, permitindo que ela revele tanto as feridas quanto as possibilidades de uma vida nova.
Essa chamada à conversão manifesta-se imediatamente em gestos concretos. Jesus vê dois pares de irmãos, Simão e André, Tiago e João, homens simples, pescadores que estavam imersos na rotina do trabalho. O olhar de Cristo não é distraído nem superficial, ele revela uma vocação escondida. O Papa São Gregório Magno, doutor “servo dos servos de Deus” da Igreja, observa que o Senhor escolhe pescadores para fazer deles pescadores de homens, para mostrar que a força da missão não está na eloquência, mas na obediência e na graça.
A resposta dos discípulos é instantânea, “eles, imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram” (Mt 4,22). Não há negociações, nem adiamentos e por isso que São Beda, o Venerável, doutor “mestre-escola” da Igreja, destaca que as redes simbolizam tudo aquilo que nos prende ao mundo como projetos, seguranças, até mesmo afetos legítimos quando absolutizados. Seguir a Jesus exige liberdade interior, disposição para deixar o que é conhecido em troca da promessa, ainda inexplicável, de um Reino que se aproxima.
O Evangelho conclui mostrando Jesus percorrendo toda a Galileia, ensinando, proclamando o Evangelho do Reino e curando toda sorte de doenças. Palavra e ação caminham juntas. Como ensina o Papa e doutor da Igreja São Leão Magno, Cristo cura os corpos para que os homens compreendam que Ele veio, sobretudo, para curar as almas. Cada cura é um sinal visível de uma realidade invisível, o Reino já está em ação, restaurando aquilo que o pecado fragmentou.
Este Evangelho interpela diretamente a vida cristã, porque a luz já brilhou, o chamado já foi feito, o Reino já se aproxima. Resta saber se estamos dispostos a sair das nossas trevas habituais, a deixar as redes que nos imobilizam e a seguir o Senhor com inteireza de coração. Como ensinou São João Paulo II, o papa peregrino, o cristianismo não é antes de tudo uma ética filosófica, mas o encontro com uma Pessoa viva que muda o rumo da existência.
Neste domingo, somos convidados a reconhecer onde Cristo passa, a escutar sua voz e a responder com prontidão. A Galileia continua sendo o lugar onde Deus inicia sua obra, no tempo comum vivendo as pequenas coisas da vida, nas margens da história ordinária de cada um de nós. Por isso quem aceita a conversão e segue o Senhor torna-se, também sinal dessa grande luz que continua a brilhar nas trevas.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.



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