“Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,1-12a).
4º Domingo do Tempo Comum | Domingo | Ano A

O Evangelho deste Quarto Domingo do Tempo Comum conduz-nos a uma das pregações mais conhecidas de Jesus, o Sermão da Montanha. Ao subir ao monte, sentar-se e começar a ensinar, Cristo assume deliberadamente a postura do novo Legislador. Não revoga a Lei antiga, mas a leva à sua plenitude, revelando que o Reino dos Céus não se constrói a partir da força, do prestígio ou do êxito humano, mas a partir de um coração configurado à lógica de Deus.
As bem-aventuranças não são promessas vagas nem consolos fáceis, são, como ensina Santo Agostinho, bispo e doutor “da Graça” da Igreja, o retrato do próprio Cristo e ao mesmo tempo, o caminho de quem deseja segui-Lo de verdade. Ao proclamar “bem-aventurados os” (Mt 5,3a), Ele confunde todos os que só conseguem enxergar a vida com um olhar mundano, pois fala apenas daqueles que parecem ter sido derrotados como os pobres, os mansos, os que choram, os perseguidos. Trata-se de uma inversão da logica com a qual o mundo está habituado a conviver, na qual o critério não é o sucesso imediato, mas a comunhão com Deus.
“Bem-aventurados os pobres em espírito” (Mt 5,3a), abre a lista não por acaso. São Gregório de Nissa, bispo e doutor “coluna da ortodoxia” da Igreja, explica que essa pobreza não se reduz à carência material, mas designa a liberdade interior de quem não faz de si mesmo o centro da existência. O pobre em espírito reconhece que tudo é dom e que a vida só encontra sentido quando se apoia em Deus. É esta pobreza que torna possível acolher o Reino, pois onde não há espaço para Deus, o Reino não pode habitar.
Os que choram são declarados felizes não porque a dor seja boa em si, mas porque suas lágrimas não são estéreis. São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “Boca de Ouro” da Igreja, recorda que o choro evangélico nasce da consciência do pecado, da compaixão pelo sofrimento do outro e da saudade de Deus. É um choro que purifica e prepara a consolação verdadeira, aquela que não vem do mundo, mas do próprio Senhor.
A mansidão, frequentemente confundida com fraqueza, é apresentada por Jesus como força espiritual. Para São Leão Magno, papa e “Magno” doutor da Igreja, o manso não é o que se omite diante do mal, mas aquele que domina a si mesmo e responde à violência com a firmeza da caridade. Essa mansidão torna o coração apto a “possuir a terra”, isto é, a viver reconciliado com a criação e com os irmãos.
A bem-aventurança dos que têm fome e sede de justiça revela que a fé cristã não é indiferença diante do mundo. São Basílio Magno, bispo e doutor “Pai dos Pobres” da Igreja, ensina que desejar a justiça é desejar que a vontade de Deus se realize na própria vida e na história. Essa fome não se satisfaz com soluções parciais; ela aponta para o Reino definitivo, onde Deus será tudo em todos.
As bem-aventuranças da misericórdia, da pureza de coração e da promoção da paz mostram que o Reino começa a se tornar visível na medida em que o coração humano se deixa transformar. O misericordioso participa da própria misericórdia divina, o puro de coração aprende a ver Deus já nesta vida, o pacificador torna-se verdadeiro filho de Deus, porque reflete algo da obra reconciliadora de Cristo.
Por fim, Jesus proclama felizes os perseguidos por causa da justiça, como ensinou São João Paulo II, o papa peregrino, esta bem-aventurança é o selo da autenticidade cristã, onde o Evangelho é vivido com seriedade, ele inevitavelmente provoca resistência. A alegria prometida não nasce do sofrimento em si, mas da certeza de pertencer ao Reino que já começou e que se consumará plenamente.
Neste domingo, o Senhor nos convida a subir com Ele ao monte e a escutar, não como espectadores, mas como discípulos. As bem-aventuranças não são um ideal inalcançável, mas um caminho concreto de configuração a Cristo. Quem as acolhe descobre que a verdadeira felicidade não está em possuir, dominar ou vencer, mas em viver já, no meio do mundo, segundo a lógica do Reino dos Céus.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.





Você precisa fazer login para comentar.