“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-16).
5º Domingo do Tempo Comum | Domingo | Ano A

Depois de proclamar as bem-aventuranças, Jesus dirige-se diretamente aos discípulos e revela-lhes a identidade e a missão que brotam do seguimento. Não se trata de um acréscimo moral, mas de uma consequência ontológica, quem acolhe o Reino torna-se, no mundo, sinal visível da ação de Deus. “Vós sois o sal da terra… vós sois a luz do mundo”. Ele não diz “devereis ser”, Ele é categórico em dizer “sois”. Porque a verdadeira missão nasce do ser, não de um esforço artificial de quem apenas deseja parecer ser.
O sal, no mundo antigo, era indispensável, para conservava os alimentos, dar sabor, impedir a corrupção. Santo Hilário de Poitiers, bispo e doutor “Martelo dos Arianos” da Igreja, ensina que o discípulo é chamado a preservar o mundo da decomposição moral, não por imposição, mas pela presença transformadora de uma vida enraizada em Deus. Quando o sal perde o sabor ele torna-se inútil, do mesmo modo a fé que se dilui em concessões e acomodações perde sua força evangelizadora.
Essa advertência não é uma ameaça, mas um chamado à vigilância espiritual. São Gregório Magno, papa e “magno” doutor da Igreja, recorda que o cristão perde o “sabor” quando anuncia com os lábios aquilo que nega com a vida. O Evangelho não convence pela eloquência isolada, mas pela coerência silenciosa de uma existência moldada pela caridade, pela verdade e pela humildade.
A imagem da luz aprofunda ainda mais essa responsabilidade, porque a luz não existe para si mesma, mas para iluminar. Cristo, a Luz verdadeira, comunica aos seus discípulos algo de sua própria claridade, para que o mundo não permaneça nas trevas. São João Crisóstomo, arcebispo e doutro “boca de ouro” da Igreja, observa que Jesus não diz apenas que os discípulos possuem luz, mas que são luz, indicando que a proximidade com Ele transforma a própria identidade do cristão.
Quando Jesus usa a cidade colocada sobre o monte Ele nos apresenta a realidade inevitável da vida do cristão, uma vida que não pode ficar escondida. Trata-se de uma visibilidade inevitável, embora a fé cristã não seja espetáculo, tampouco é algo a ser vivido de modo envergonhado ou clandestino. São Beda, o Venerável, explica que esconder a luz equivale a sufocar o dom recebido, privando os outros da possibilidade de glorificar a Deus ao verem suas obras.
No entanto, Jesus é claro quanto à finalidade dessa visibilidade, “para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16b). Não se trata de exaltação pessoal. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça”da Igreja adverte que a boa obra perde seu valor quando busca a própria glória, por isso o discípulo autêntico não se coloca no centro, sua vida aponta para o Pai, fonte de todo bem.
Como belamente nos ensinou o para São Paulo VI, ao afirmar que o mundo escuta com mais facilidade as testemunhas do que os mestres, e, quando escuta os mestres, é porque eles são testemunhas. Por que a Santa Mãe Igreja ilumina o mundo, não quando se adapta às suas sombras, mas quando com mansidão e firmeza reflete a luz de Cristo.
Por isso neste Quinto Domingo do Tempo Comum, o Evangelho nos interpela com sobriedade e profundidade a sermos sal e ser luz, não para usufruir de um privilégio, mas para viver a responsabilidade do evangelho. É permitir que a graça recebida no encontro com Cristo se traduza em gestos concretos, em escolhas diárias, em uma presença que dá sabor à vida e clareia os caminhos escurecidos.
Que, ao contemplarmos esta Palavra, peçamos a graça de não perder o sabor nem esconder a luz. Que das grandes ações aos pequenos detalhes das nossas obras não falem de nós, mas revelem no meio do mundo a bondade do Pai que continua a agir através daqueles que se deixam iluminar por seu Filho.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.



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