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No domingo, diga sim ou não

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“Não vim abolir, mas dar pleno cumprimento” (Mt 5,17-37).

6º Domingo do Tempo Comum | Domingo | Ano A

O Evangelho deste Sexto Domingo do Tempo Comum situa-nos no interior do Sermão da Montanha, onde Cristo aprofunda o sentido da Lei e revela sua plenitude. “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim abolir, mas dar pleno cumprimento” (Mt 5,17). Estas palavras dissipam qualquer equívoco, o cristianismo não é ruptura arbitrária com a antiga Aliança, mas sua realização definitiva na Pessoa do próprio Filho.

Santo Irineu de Lião, “Doctor Unitatis” da Igreja ensina que, em Cristo, a Lei atinge sua maturidade, pois o que antes estava anunciado em figuras e preceitos encontra sua forma perfeita. A Lei antiga educava o povo e a graça conduz à filiação. Não se trata de substituir normas por permissividade, mas de elevar o homem a uma justiça mais profunda, aquela que brota de um coração transformado.

E Jesus é muito claro quanto a isso, ao afirmar “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20), Ele não condena a Lei, mas denuncia uma observância meramente exterior, sem real conversando do coração, Como nos ensina São Tomás de Aquino, o doutor angélico,  que a justiça evangélica é interior, porque a graça age na raiz das ações humanas, purificando a intenção e ordenando o desejo, por isso o discípulo não se contenta em evitar o mal visível, ele busca a retidão do coração.

Por isso, Cristo leva o viver dos mandamentos ao seu significado mais profundo, não basta não matar, é preciso vencer a ira. Não basta evitar o adultério externo, é necessário purificar o olhar e o pensamento. São João Crisóstomo, arcebispo e doutro “boca de ouro” da Igreja, esclarece que o Senhor não acrescenta novos pesos, mas revela a verdadeira profundidade da Lei, mostrando que o pecado nasce no interior antes de se manifestar nos atos. Assim, nos revela o caminho de santidade na vida prática onde não pecar é o mínimo para ser salvo, mas ser santo requer não pensar em pecar. 

Ao tratar da reconciliação, Jesus desloca o nosso agir para a caridade concreta, “portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta” (Mt 5,23-24). São Cipriano de Cartago, bispo mártir e doutor da Igreja, recorda que Deus não acolhe a oferta de quem guarda rancor. A verdadeira adoração passa pelo perdão, pela restauração das relações, pela disposição sincera de buscar a paz.

Ao falar sobre o matrimônio Jesus nos lembra e nos reafirma a seriedade do vínculo e a dignidade do compromisso assumido. São João Paulo II, o papa peregrino, ao refletir sobre as palavras de Cristo, destacou que o chamado à fidelidade não é mera norma jurídica, mas expressão da verdade do amor humano, criado para ser dom total e definitivo. A Boa Nova anunciada por Cristo não endurece o coração, ao contrário, purifica-o para que o amor seja autêntico.

Ao fim Jesus orienta sobre a veracidade das palavras, “seja o vosso ‘sim’, sim; e o vosso ‘não’, não” (Mt 5,37). São Basílio Magno, bispo e doutor “Pai dos Pobres” da Igreja, ensina que a simplicidade no falar é sinal de uma alma ordenada. Quem vive na verdade não precisa de artifícios, porque sua palavra reflete a integridade do coração.

Neste domingo, a Santa Mãe Igreja nos conduz a sair da superficialidade, ela nos convida a abandonar uma fé reduzida a formalidades e a acolher a radicalidade da graça. Em um mundo onde se espera facilidades, a Igreja de Cristo não diminui as exigências, seguindo a palavra de Jesus, ela as eleva, porque testemunha através da vida dos santos que o homem sustentado pela graça é capaz de mais, porque a santidade não consiste em cumprir mínimos, mas em deixar que a Lei seja escrita no íntimo da alma.

Assim a Sagrada Liturgia nos chama a examinar não apenas nossos atos, mas nossas intenções. A justiça do Reino começa no interior e se manifesta em escolhas concretas, em reconciliações buscadas, em fidelidades mantidas, em palavras verdadeiras. Que o Senhor nos conceda a graça de viver não apenas segundo a letra da lei, mas segundo o Espírito, para que a Lei encontre em nós seu pleno cumprimento.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.