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No domingo, que a Palavra seja nossa resposta

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“Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mt 4,1-11).

1º Domingo da Quaresma | Domingo | Ano A

O itinerário quaresmal inicia-se no deserto. O Espírito conduz Jesus ao deserto, e ali, no silêncio abrasador e na solidão radical, o Filho enfrenta a tentação (Mt 4,1). Não se trata de um acaso aleatório, mas de um momento estrutural da economia da salvação. Antes de iniciar sua vida pública, Cristo atravessa o combate. Antes da pregação, a provação. Antes dos milagres, o jejum.

O deserto, na tradição bíblica, é lugar de prova e de purificação. Foi no deserto que Israel revelou sua fragilidade e sua infidelidade. Agora, é no deserto que o novo Adão manifesta fidelidade absoluta ao Pai. Como ensina Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, Cristo foi tentado para nos ensinar a vencer, permitiu o combate para nos fortalecer na luta. Ele não precisava vencer por si, mas venceu por nós.

As três tentações que o Evangelho apresenta não são episódicas, são paradigmáticas. Elas revelam as matrizes fundamentais do desvio humano, o apetite desordenado, a instrumentalização de Deus e a sede de poder.

A primeira tentação, “manda que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4,4b), toca a dimensão do desejo imediato. O demônio sugere que a fome legitima qualquer atalho. Jesus responde com a Sagrada Escritura, “não só de pão vive o homem” (Dt 8,3). A resposta não nega a necessidade do pão, mas estabelece uma hierarquia, o homem vive da Palavra de Deus. São Jerônimo, doutor “eminente na interpretação das Escrituras” da Igreja, recorda que a ignorância da Palavra é ignorância de Cristo. A Quaresma, portanto, não é apenas abstinência alimentar, é realinhamento ontológico, é recolocar a Palavra como princípio estruturante da vida.

A segunda tentação “lança-te daqui abaixo!” (Mt 4,6), introduz uma forma mais sutil de desordem, manipular Deus em favor de si mesmo. O tentador cita a Escritura, mas a instrumentaliza. Trata-se de uma espiritualidade performática, que busca sinais espetaculares para legitimar a própria existência. Jesus responde, “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Dt 6,16). Aqui aprendemos que a fé autêntica não exige provas teatrais. Como ensina São João da Cruz, monge e “Doutor Místico” da Igreja, a maturidade espiritual passa pela purificação dos sentidos e pelo abandono das consolações sensíveis. A fé que exige espetáculo ainda não amadureceu.

A terceira tentação “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar” (Mt 4,9), revela o núcleo da idolatria, substituir Deus pelo poder. A promessa de domínio universal é sedutora porque oferece resultados sem cruz. Mas Cristo responde com contundência, “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás” (Dt 6,13). O combate espiritual é, em última instância, um combate de adoração. Ou Deus ocupa o centro, ou algo ocupará.

Papa Bento XVI, afirmou que a tentação fundamental é afastar Deus do horizonte e organizar o mundo como se Ele não existisse. O deserto de Jesus desmascara essa lógica. A verdadeira liberdade não está na autonomia absoluta, mas na obediência filial.

Há ainda um elemento decisivo, Jesus responde a todas as tentações com a Palavra de Deus. Ele não dialoga longamente com o tentador, Ele afirma a verdade revelada. Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, ensina que a tentação não é pecado, torna-se pecado quando há consentimento deliberado. Cristo experimenta a proposta, mas não a acolhe. Sua vontade permanece perfeitamente ordenada ao Pai.

Portanto a quaresma não é um tempo de moralismo superficial, mas sim um tempo de combate espiritual consciente. O jejum disciplina o corpo, a oração fortalece o espírito e                 a esmola purifica o coração do apego. Essas práticas não são acessórios devocionais, mas estratégias ascéticas contra as três grandes tentações o prazer desordenado, a manipulação do sagrado e a idolatria do poder.

No início deste caminho quaresmal, somos conduzidos ao deserto não para a derrota, mas para a purificação. O deserto não é ausência de Deus, é o lugar onde as falsas seguranças são desmontadas. Ali se revela quem verdadeiramente adoramos. Ali se decide a hierarquia dos nossos amores.

O Evangelho conclui afirmando que o diabo se afastou e os anjos se aproximaram para servir Jesus. A fidelidade não elimina o combate, mas inaugura a consolação. A vitória não é barulhenta, ela é silenciosa e firme.

Neste Primeiro Domingo da Quaresma, a Santa mãe Igreja nos recorda que o caminho para a Páscoa passa inevitavelmente pelo deserto. Porque não há ressurreição sem enfrentamento interior, nem glória sem purificação.

Que este tempo santo nos encontre vigilantes, que a Palavra seja nossa resposta, que a adoração seja nosso eixo e que, vencendo com Cristo no deserto, possamos celebrar com Ele a vitória da Páscoa.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.