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No domingo, suba, ouça e se deixe tocar

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“Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!” (Mt 17,1-9).

2º Domingo da Quaresma | Domingo | Ano A

Se no primeiro domingo da quaresma fomos levados ao deserto para um combate espiritual, no segundo domingo da quaresma a Sagrada Liturgia nos conduz ao alto do monte, à montanha da contemplação. Isto acontece porque o itinerário espiritual não é linear, ele alterna luta e luz, prova e revelação. Quando São Mateus narra a Transfiguração do Senhor, ele não apresenta um espetáculo isolado, mas uma ação da pedagogia divina.

Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e os leva a um lugar à parte (Mt 17,1), porque a revelação da glória exige separação, silêncio, ascensão interior. Como observa Orígenes, o “pai da teologia sistemática”, ninguém contempla a glória do Verbo permanecendo nas planícies da dispersão, é preciso subir, afastar-se da superficialidade, permitir que a alma seja elevada.

No alto do monte, “seu rosto brilhou como o sol e suas vestes tornaram-se brancas como a luz” (Mt 17,2b), nesse momento a humanidade de Cristo não é anulada, ela é atravessada pela glória. A Transfiguração manifesta aquilo que sempre esteve presente, mas velado, a identidade divina do Filho. Santo Atanásio de Alexandria, doutor da Igreja e “pai da ortodoxia”, defende insistentemente que o Verbo assumiu a carne sem perder sua divindade, na Transfiguração, não há mudança ontológica em Cristo, mas revelação aos discípulos daquilo que Ele é por natureza.

Quando Moisés e Elias aparecem conversando com Jesus (Mt 17,3), Deus nos ensina que a Lei e os Profetas convergem para Jesus. A antiga economia encontra sua plenitude, por isso Santo Irineu de Lião, o Doctor Unitatis da Igreja, ensina que toda a história da salvação é um processo de recapitulação em Cristo, aquilo que foi anunciado fragmentariamente se unifica na Pessoa do Filho, tornando o monte da Transfiguração o ponto de convergência da revelação.

Pedro, que mais uma vez assumi a liderança dos apóstolos, propõe construir três tendas (Mt 17,4), o desejo de fixa-se naquele local e permanecer naquela experiência é compreensível, porque quando se experimenta a consolação espiritual, surge a tentação de permanência. Contudo, a vida cristã não é fuga da realidade. São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, observa que Cristo permite a visão da glória para fortalecer os discípulos diante do escândalo da cruz. Assim a Transfiguração não substitui o calvário, mas prepara para ele.

Enquanto Pedro ainda fala, uma nuvem luminosa os envolve e uma voz declara, “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!” (Mt 17,5b), assim revelação atinge seu ápice na escuta. Não se trata apenas de ver a glória, mas de obedecer à Palavra de Deus. Santo Ambrósio, bispo e um dos quatro grandes doutores latinos da Igreja, ensina que a verdadeira transformação do discípulo ocorre quando ele aprende a ouvir o Filho, porque a fé amadurece na docilidade.

Mas quando os discípulos ouvem a voz de Deus Pai caem com o rosto por terra, tomados de temor (Mt 17,6), porque a experiência do sagrado não é trivial, não é mero sentimentalismo, ela desestabiliza a criatura que se percebe diante de seu Criador. Mas Jesus se aproxima, toca-os e diz, “Levantai-vos, e não tenhais medo” (Mt 17,7b), fazendo-os levantar-se com seu toque, pois a mesma mão que resplandecia em glória é a mão que toca com ternura. A transcendência divina não anula a proximidade. São Gregório de Nissa, bispo e um dos “Padres Capadócios” doutor da Igreja, ensina que o caminho espiritual é um movimento contínuo de subida, mas sempre sustentado pela graça que nos ergue.

Ao descerem do monte, Jesus ordena que “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos” (Mt 17,9b), Ele faz esse pedido pois a glória só pode ser plenamente compreendida à luz da Páscoa. A Quaresma, portanto, não é apenas tempo de penitência é também tempo de iluminação progressiva, onde o deserto purifica, o monte revela, a cruz coroa.

Há aqui a pedagogia divina para nós, os discípulos contemporâneos. Não basta combater as tentações, é preciso também buscar momentos autênticos de contemplação. Porque a vida cristã exige ascese e escuta, silêncio e obediência, a transfiguração recorda que o sofrimento não é a palavra final, devemos sempre lembrar que cruz será real, mas não definitiva.

O rosto transfigurado de Cristo antecipa o destino do homem redimido. A glória que resplandece n’Ele não é estranha à nossa vocação, como nos ensina a Sagrada Tradição da Santa Mãe Igreja, a salvação não é mera absolvição jurídica, é participação na vida divina. Somos chamados à transformação interior, à conformação progressiva ao Filho.

Neste Segundo Domingo da Quaresma, a Igreja nos conduz ao monte para que não percamos o horizonte da glória enquanto atravessamos o vale da purificação. O católico que contempla corretamente aprende a sofrer corretamente, quem ouviu a voz do Pai não se desespera na noite.

Subamos o monte com Cristo, escutemos sua Palavra, deixemo-nos tocar por sua mão, para fortalecidos pela visão da glória descermos novamente ao cotidiano, prontos para atravessar com Ele o caminho que conduz à Páscoa.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.