Sobre os vários carismas na Quaresma

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Desde a Quarta-Feira de Cinzas, com o início da Quaresma, é natural percebermos um movimento mais intenso no povo católico voltado a penitência, jejum, oração, caridade e recolhimento. Isto acontece porque a Santa Mãe Igreja nos conduz, ano após ano, a esse tempo forte de conversão, preparando-nos para o Tríduo Pascal e, finalmente, para a Páscoa do Senhor.

Entretanto, também é perceptível uma divisão silenciosa entre nós. De um lado, católicos mais reservados, que preferem viver a Quaresma de modo discreto, quase oculto, evitando qualquer exposição de suas práticas espirituais. Inspiram-se na palavra de Nosso Senhor, “quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto” (Mt 6,17), buscando uma vivência interior, silenciosa e recolhida. A final como nos ensina São João da Cruz, “Deus fala no silêncio do coração”e muitos encontram nesse silêncio o terreno fértil para a conversão.

Do outro lado, há aqueles que inseridos na dinâmica do mundo digitalizado, compartilham nas redes sociais suas orações, seus jejuns, suas obras de caridade e seus momentos de adoração. Não o fazem, necessariamente, por vaidade, mas muitas vezes com a intenção de edificar, de convidar e de despertar outros para a vida espiritual. São João Paulo II já afirmava que os meios de comunicação podem tornar-se “novos areópagos” para a evangelização. E São Francisco de Sales ensinava que a devoção deve ser vivida “segundo o estado e a vocação de cada um”, adaptando-se às circunstâncias da vida.

Curiosamente, ambos os grupos estão certos na intenção, buscam a própria conversão e, de algum modo, a conversão do próximo. Mas ambos também podem errar quando transformam diferenças legítimas de espiritualidade em motivo de crítica ou julgamento. A Sagrada Escritura é clara, “todo reino dividido contra si mesmo será destruído”(Mt 12,25), por isso não faz sentido que, em pleno tempo de penitência, estejamos mais preocupados em vigiar a Quaresma do outro do que em viver a nossa.

Santo Agostinho que nos exorta ao dizer, “ama e faze o que quiseres”, logo se a minha escolha, seja o recolhimento silencioso, seja o testemunho público, nasce do amor a Cristo, ela encontra sua retidão na caridade. O problema começa quando a crítica ocupa o lugar da conversão, quando deixamos de examinar nossa própria alma para examinar a do irmão.

Se você se sente chamado a uma Quaresma mais recolhida, viva-a com fidelidade e paz. Se sente que compartilhar sua caminhada pode ajudar alguém a rezar, a jejuar e a se aproximar de Deus, faça-o com humildade. O que não podemos viver é uma fé marcada pela competição de carismas ou pela suspeita constante.

São Bento nos lembra que “nada se anteponha ao amor de Cristo”. Eis o critério. Não é o número de postagens, nem o silêncio absoluto. É o amor que orienta cada gesto, é o desejo sincero de conversão, é a preparação autêntica para a Ressurreição.

Que nesta jornada quaresmal possamos examinar menos o modo como o outro vive sua espiritualidade e aprofundar mais a nossa. Que nossas práticas públicas ou discretas passem pelo crivo do amor, da humildade e da unidade. Afinal, o convite da Santa Mãe Igreja é ao Sagrado e ao Eterno, não à disputa.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.