“Ele me disse tudo o que eu fiz” (Jo 4,5-42).
3º Domingo da Quaresma | Domingo | Ano A

A sagrada liturgia do Terceiro Domingo da Quaresma nos conduz a um encontro. Depois do deserto do combate e do monte da revelação, o Evangelho apresenta um cenário repleto de elementos do cotidiano, um poço, uma cidade samaritana, uma mulher que vai buscar água. É nesse espaço aparentemente ordinário que o autor sagrado apresenta um encontro profundo entre Jesus e a Samaritana.
Jesus chega ao poço de Jacó, cansado da viagem, e pede, “Dá-me de beber” (Jo 4,7b), a cena é simples, mas carregada de significado. O Filho de Deus se apresenta na condição de quem pede. Como observa Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, aquele que pede água é o mesmo que deseja dar a graça, Ele pede de beber porque deseja que a mulher creia.
A sede de Cristo não é apenas física, a Sagrada Tradição frequentemente interpreta essa sede como expressão do desejo divino pela salvação do homem. Deus toma a iniciativa, atravessa fronteiras culturais e religiosas, e inicia o diálogo. A mulher samaritana, por sua vez, representa a humanidade marcada por rupturas, ambiguidades e sede espiritual.
A resposta inicial da mulher revela surpresa, porque judeus e samaritanos não se relacionavam, mas Cristo rompe as barreiras históricas e religiosas. O encontro com Deus não acontece apenas nos lugares considerados “puros” ou institucionalmente legitimados, ele acontece onde há sede. São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, destaca que Jesus inicia o diálogo de modo gradual, conduzindo a mulher da realidade material à compreensão espiritual.
Quando Jesus fala da “água viva” (Jo 4,10), a conversa se eleva. A mulher pensa ainda na água que sacia a sede física, mas Cristo aponta para algo mais profundo, uma fonte interior que brota para a vida eterna. São Cirilo de Jerusalém, bispo e doutor “Príncipe dos Catequistas” da Igreja, identifica nessa água viva uma referência direta à graça do Espírito Santo, dom que transforma interiormente o homem e o torna participante da vida divina.
Mas Jesus não para e a revelação continua avançando, Ele toca a história pessoal da mulher, “pois tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade” (Jo 4,18). Não se trata de uma exposição humilhante, mas de um gesto de verdade. O encontro com Cristo sempre passa pela verdade sobre a própria vida. Orígenes, o “pai da teologia sistemática”, interpreta essa passagem lembrando que a alma humana frequentemente busca saciar sua sede em múltiplas fontes, mas permanece insatisfeita até encontrar a verdadeira água que é Cristo.
Percebendo que está diante de um profeta, a mulher levanta uma questão religiosa, onde se deve adorar? No monte Garizim ou em Jerusalém? Jesus responde com uma afirmação decisiva, “está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade” (Jo 4,23). A adoração autêntica não está limitada a um espaço geográfico, ela nasce de um coração convertido.
Santo Atanásio de Alexandria, doutor da Igreja e “pai da ortodoxia”, recorda que a verdadeira adoração acontece quando o homem é reconciliado com Deus e participa da vida do Espírito. Não se trata apenas de ritos externos, mas de uma transformação interior que permite ao homem viver na verdade.
O ponto elevado daquele momento ocorre quando Jesus revela explicitamente sua identidade, “sou eu, que estou falando contigo” (Jo 4,26). No evangelho segundo São João, essa expressão possui uma densidade teológica profunda, evocando o nome divino revelado a Moisés. A mulher samaritana torna-se uma das primeiras pessoas a ouvir de modo tão direto essa revelação.
O efeito desse encontro é imediato, a mulher deixa seu cântaro e corre para anunciar à cidade, “vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?” (Jo 4,29). O cântaro abandonado simboliza a mudança de prioridade, pois quem encontrou a fonte verdadeira já não vive mais apenas para as necessidades imediatas. São Gregório Nazianzeno, doutor “O Teólogo” da Igreja, observa que o encontro com Cristo transforma o discípulo em missionário, quem foi alcançado pela graça torna-se testemunha.
Os samaritanos, ao ouvir o testemunho da mulher foram até Jesus e depois de escutar o próprio Cristo, fazem uma afirmação que é uma verdadeira profissão de fé, “já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos, que este é verdadeiramente o salvador do mundo” (Jo 4,42). E é assim que a revelação ultrapassa as fronteiras de Israel, pois a Boa Nova aponta para a universalidade da salvação.
Neste Terceiro Domingo da Quaresma, a Santa Mãe Igreja vem nos ensinar por meio da sagrada liturgia que o caminho de conversão passa necessariamente pelo encontro pessoal com Cristo. A penitência e o combate espiritual são importantes, mas a transformação verdadeira acontece quando o homem encontra a fonte da vida.
Cada coração humano carrega uma sede profunda, muitas vezes tentamos saciá-la nas águas passageiras do reconhecimento, poder, prazer, segurança. Contudo, como ensina Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, “nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa em Deus”.
A Quaresma é o tempo de voltar ao poço. É o tempo de reconhecer a própria sede e permitir que Cristo fale à nossa história com verdade e misericórdia. Ele continua a pedir, “Dá-me de beber” (Jo 4,7b), porque deseja oferecer a água que não se esgota.
Quem bebe dessa água descobre que a vida nova não nasce apenas do esforço humano, mas da graça que brota de Cristo. E quem encontra essa fonte torna-se, como a mulher samaritana, testemunha de que a verdadeira sede do homem só encontra descanso em Deus.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.



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