Como se livrar de um “pecado de estimação”?
How to get rid of a “pet sin”?
Sem Nome Responde

Durante a Quaresma, todos nós, católicos, somos convidados a intensificar nossa busca pela santidade. A Santa Mãe Igreja sempre nos recorda que este tempo é particularmente propício para a conversão, reforçando três caminhos espirituais muito claros, oração, jejum e caridade (cf. Mt 6,1-18). Dentro desse processo de conversão, surge uma pergunta que muitos cristãos fazem em algum momento da vida espiritual, como se livrar de um “pecado de estimação”?
De forma popular, chamamos de “pecado de estimação” aquele pecado recorrente. É aquele no qual caímos, nos arrependemos, confessamos, voltamos ao estado de graça, mas que, de algum modo, insiste em reaparecer em nossa caminhada espiritual. Ele retorna na nossa rotina, na nossa fragilidade, nas nossas ocasiões de descuido, e por isso muitas vezes causa desânimo na vida espiritual.
Mas como se libertar dele?
O Sem Nome Responde tenta responder essa pergunta com alguns princípios simples da vida espiritual, sempre lembrando algo muito importante, cada pessoa possui uma caminhada espiritual própria. Cada um de nós carrega sua história, suas fragilidades, suas inclinações e suas lutas. Por isso, não existe uma fórmula única para abandonar os pecados recorrentes, mas existem caminhos espirituais seguros que a Santa Mãe Igreja sempre ensinou.
O primeiro passo é reconhecer nossa própria fraqueza. Se você está se perguntando como se livrar de um pecado recorrente, isso já significa que sua consciência está viva e que existe em você o desejo de conversão. A Sagrada Escritura nos lembra que mesmo o justo experimenta quedas, “o justo cai sete vezes e se levanta” (Pr 24,16).
A santidade não começa na perfeição, mas no reconhecimento humilde de que somos pecadores. Como ensinava Santo Agostinho, Deus nos criou sem nós, mas não nos salvará sem nós, por isso reconhecer o pecado é o primeiro passo para combatê-lo.
O Catecismo da Igreja Católica ensina uma verdade fundamental da vida espiritual, “se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos” (CIC 1847). Ou seja, antes de sermos santos, precisamos admitir que somos pecadores que precisam da graça de Deus.
Outro ponto importante é compreender que cair não significa ser abandonado por Deus. Muitas pessoas se desanimam justamente porque percebem que continuam caindo nas mesmas faltas. No entanto, a misericórdia de Deus é sempre maior que nossa fraqueza.
O apostolo Paulo escreve, “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20).
Como nos ensinou São João Paulo II “santo não é aquele que nunca cai, mas aquele que nunca desiste de se levantar”. É por isso que quando Pedro perguntou a Jesus quantas vezes deveria perdoar seu irmão, Jesus respondeu, “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22).
Essa resposta revela algo profundo sobre o coração de Deus. Não se trata de um número literal, mas de uma misericórdia que não se esgota. Como ensina Santa Faustina, “quanto maior o pecador, maior direito tem à minha misericórdia”.
Mas compreender a misericórdia de Deus não significa se acomodar ao pecado. Pelo contrário, significa confiar que podemos lutar contra ele porque Deus está sempre disposto a nos levantar.
Diante dessa visão espiritual de como o católico deve compreender a luta contra o pecado, passemos agora a ordem prática, existe um princípio muito antigo da vida espiritual, não se desafia o pecado, foge-se dele.
São Paulo ensina com muita clareza, “fujam da imoralidade” (ICor 6,18).
A tradição espiritual insiste nisso, São Filipe Néri dizia que, na luta contra certas tentações, vencem aqueles que fogem. Ou seja, a vitória muitas vezes não está em enfrentar diretamente a tentação, mas em evitar as ocasiões que nos conduzem a ela.
Se determinado pecado acontece quando você está sozinho, evite determinadas situações de solidão. Se está ligado a certos ambientes, evite esses ambientes. Se está ligado a determinados conteúdos, afaste-se deles.
Pois o próprio Jesus ensina esse princípio quando diz, “se teu olho te leva ao pecado, arranca-o” (Mt 5,29). Não se trata de uma mutilação literal, mas de uma decisão espiritual clara, afastar da vida aquilo que nos conduz ao pecado.
Outro aspecto importante é compreender que o pecado quase nunca começa no ato. Ele geralmente começa muito antes, naquilo que alimentamos na nossa mente. Jesus ensina que “todo aquele que olha para uma mulher com desejo já cometeu adultério em seu coração” (Mt 5,28).
Ou seja, o pecado começa quando passamos a alimentar interiormente aquilo que sabemos que nos conduz ao erro. O que vemos, o que ouvimos e o que consumimos diariamente influencia profundamente nossa vida espiritual.
Por isso dizia São João Bosco, “cuidado com as pequenas faltas, porque elas preparam o caminho para as grandes”.
Nossa alma é alimentada por aquilo que permitimos entrar em nossa mente. Se alimentamos a mente com coisas desordenadas, naturalmente nossa vida espiritual enfraquece. Mas se alimentamos o espírito com coisas boas, ele se fortalece.
Assim como um hábito ruim se constrói aos poucos, a virtude também se constrói gradualmente. São Paulo nos recorda que “não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12,21).
Isso significa substituir aquilo que enfraquece o espírito por aquilo que o fortalece. Mais oração, mais contato com a Palavra de Deus, mais leitura espiritual, mais proximidade com a vida da Igreja. Como dizia São Jerônimo “ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”. Quanto mais fortalecemos o espírito, mais clareza temos para fugir das ocasiões de pecado.
Nesse caminho espiritual existem duas virtudes absolutamente fundamentais, a humildade e a obediência.
A humildade nos faz reconhecer que, mesmo depois de muito tempo vivendo em estado de graça, ainda podemos cair. São Paulo alerta que “aquele que pensa estar de pé, cuide para não cair” (ICor 10,12).
Já a obediência nos lembra que não somos nós que definimos o que é pecado. A Santa Mãe Igreja iluminada pelo Sagrado Magistério, pela Sagrada Tradição e pela Sagrada Escritura, sendo guiada pelo Espírito Santo, nos transmite esse ensinamento.
O Catecismo da Igreja Católica ensina que “o pecado é uma falta contra a razão, a verdade e a consciência reta”(CIC 1849).
Por isso, na vida espiritual, não cabe negociar com o pecado. O que a Santa Mãe Igreja ensina como pecado precisa ser reconhecido como tal, ainda que muitas vezes nossa sensibilidade pessoal não perceba imediatamente sua gravidade.
Nesse processo de conversão, os sacramentos têm um papel absolutamente central. Entre eles, destaca-se o sacramento da confissão.
O Catecismo ensina que “aqueles que se aproximam do sacramento da Penitência recebem da misericórdia de Deus o perdão das ofensas feitas a Ele” (CIC 1422).
Caiu? Confesse novamente, quantas vezes forem necessárias. São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, dizia que Deus nunca se cansa de perdoar; somos nós que nos cansamos de pedir perdão.
Outra prática muito útil na vida espiritual é o exame diário de consciência. Essa prática, recomendada por muitos santos, ajuda a perceber algo importante, muitas vezes o pecado que enxergamos é apenas a consequência de outros comportamentos menores que o alimentam.
Os grandes pecados quase sempre nascem de pequenas faltas. Pequenos descuidos, pequenas permissões, pequenas concessões que vão abrindo espaço dentro da alma. Por isso, acompanhar a própria vida espiritual com um diário espiritual pode ser muito útil. Ele ajuda a identificar padrões, perceber fragilidades e compreender melhor as próprias lutas.
Por fim, vale lembrar que muitas batalhas espirituais não devem ser enfrentadas sozinhos. Buscar um diretor espiritual pode ajudar muito nesse processo. Um bom diretor espiritual não resolve magicamente os problemas, mas ajuda a enxergar aquilo que muitas vezes não conseguimos perceber sozinhos.
Mas é importante lembrar que confissão e direção espiritual são coisas diferentes. A confissão é breve e sacramental, a direção espiritual exige tempo e acompanhamento.
Por isso, diante da pergunta, como se livrar de um “pecado de estimação”? Eu respondo, não existe uma fórmula pronta para abandonar um pecado de estimação. Mas existe um caminho muito claro: humildade, obediência, vigilância, oração, sacramentos e perseverança.
Cada pequeno passo na direção da santidade já é um passo para longe do pecado. Como ensina São Francisco de Sales, “tenha paciência com todas as coisas, mas principalmente consigo mesmo”. A santidade não é construída de um dia para o outro, ela nasce da fidelidade diária, da luta constante e da confiança na misericórdia de Deus.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.
Sem Nome Responde é uma sessão onde buscamos responder perguntas que são enviadas a nossa redação, nos envie suas perguntas ou contribuições para as respostas por nossos canais de comunicação, ficaremos muito felizes em nos conectar com vocês.
Não temos aqui a intenção de dar respostas definitivas para nenhuma pergunta, apenas buscamos, a luz da sabedoria da Santa Mãe Igreja, dar um passo na direção da verdade. Correções nas respostas podem ser realizadas a qualquer tempo, sempre que a luz dos ensinamentos da Santa Mãe Igreja nos permitir.




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