“Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,1-45).
5º Domingo da Quaresma | Ano A

O itinerário quaresmal se aproxima do seu ápice. Depois do deserto, do monte, do poço e da iluminação, a liturgia nos conduz agora ao limiar mais radical da experiência humana: a morte. O autor sagrado nos mostra que ao contemplar o túmulo de Lázaro, não estamos apenas diante de um milagre extraordinário, mas de uma revelação decisiva sobre quem é Cristo e sobre o destino do homem.
As irmãs de Lázaro enviam um recado a Jesus, “Senhor, aquele que amas está doente” (Jo 11,3b), essa linguagem direta e confiante, e podemos dizer íntima é de quem espera uma resposta imediata. Mas a resposta de Cristo não é a esperada, Ele não vai imediatamente. Permanece ainda dois dias no lugar onde estava. Há aqui uma pedagogia divina que escapa à lógica da urgência humana.
Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, observa que Cristo permite a morte de Lázaro não por indiferença, mas para manifestar uma glória maior. Deus não está submetido ao nosso tempo, Ele atua segundo um desígnio que muitas vezes só se revela depois.
Quando Jesus chega, Lázaro já está no túmulo há quatro dias. A morte não é aparente, é definitiva segundo os critérios humanos. Assim Marta vai ao encontro de Jesus e expressa uma fé ainda em construção, “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11,21b).
Jesus responde com uma forte revelação sobre Ele mesmo, “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25a). Não se trata apenas de prometer algo futuro, Cristo se apresenta como a própria fonte da vida. São Cirilo de Alexandria doutor “Selo dos Padres” da Igreja, ensina que Cristo não apenas concede a vida, mas é a vida por essência. Quem se une a Ele participa dessa realidade que não pode ser vencida pela morte.
Marta afirma sua fé na ressurreição no último dia, mas Jesus a conduz além, a fé cristã não é apenas escatológica, é pessoal. Não se trata apenas de acreditar em um evento futuro, mas de aderir a uma Pessoa presente, a pessoa de Jesus Cristo.
Maria, ao chegar, repete a mesma frase da irmã, mas com lágrimas. O Evangelho registra algo profundamente humano,“E Jesus chorou” (Jo 11,35). O Verbo encarnado não é indiferente ao sofrimento, Ele entra na dor humana como nos ensina São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, Cristo chora não por impotência diante da morte, mas para revelar a autenticidade de sua humanidade e sua compaixão.
Ao chegar ao túmulo, Jesus ordena, “Tirai a pedra!”. A objeção de Marta é prática, “Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias” (Jo 11,39). A morte já produziu seus efeitos, mas Cristo insiste. Antes da ação divina, há uma colaboração humana, remover a pedra. Orígenes, o “pai da teologia sistemática”, interpreta esse gesto como símbolo das resistências interiores que precisam ser removidas para que a graça atue plenamente.
Depois de agradecer ao Pai, Jesus clama com voz forte, “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11,43b). A palavra de Cristo atravessa a morte. Aquele que estava morto sai do túmulo, ainda envolto em faixas, a vida retorna, mas ainda há um processo a ser concluído, “Desatai-o e deixai-o caminhar” (Jo 11,44b).
Santo Irineu de Lião, “Doctor Unitatis” da Igreja, vê nesse episódio uma antecipação da vitória definitiva de Cristo sobre a morte. A ressurreição de Lázaro não é ainda a ressurreição gloriosa da Páscoa, mas é um sinal da ruptura da lógica da morte.
O detalhe das faixas é significativo, Lázaro está vivo, mas ainda preso. A tradição patrística frequentemente interpreta isso como imagem do homem que recebeu a graça, mas ainda precisa ser libertado progressivamente das consequências do pecado. A conversão não é apenas um evento, é um processo.
O Quinto Domingo da Quaresma nos coloca diante de uma verdade inevitável, todos nós, em algum nível, experimentamos a morte seja espiritual ou existencial. Há áreas da vida onde a esperança parece enterrada, onde o tempo passou, onde diante de Deus dizemos “já cheira mal” (Jo 11,39). Mas é exatamente ali que Cristo se apresenta como ressurreição e vida.
A Quaresma não é apenas um caminho de purificação moral, mas também um itinerário que nos prepara para experimentar a vitória de Cristo sobre tudo aquilo que em nós está morto. O Senhor não ignora a morte, Ele a enfrenta.
A pergunta que ecoa neste Evangelho é direta, “Crês isto?” (Jo 11,26b).
Não se trata de uma fé genérica, mas de uma adesão concreta. Crer que Cristo pode chamar à vida aquilo que em nós parece definitivamente perdido. Crer que sua palavra tem autoridade sobre a morte. Crer que nenhuma situação está fora do alcance da graça.
Neste ponto da Quaresma, a Santa Mãe Igreja nos prepara para o escândalo da cruz e para a glória da ressurreição. O túmulo de Lázaro antecipa o túmulo vazio de Cristo.
Que também nós escutemos a voz que chama. Que tenhamos coragem de remover as pedras que impedem a ação de Deus. E que, ao sair das nossas próprias formas de morte, permitamos que Cristo nos liberte plenamente.
Porque, diante d’Ele, até aquilo que parecia definitivamente encerrado pode voltar a viver.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.



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