“Ele era mesmo Filho de Deus!” (26,11-54).
Domingo de Ramos da Paixão do Senhor | Ano A

Com o relato da Paixão o evangelista São Mateus nos coloca diante do mistério cristão na forma do julgamento, sofrimento e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não se trata apenas de uma narrativa histórica, mas da revelação mais profunda do amor de Deus, que se manifesta não no triunfo segundo os critérios humanos, mas na entrega total de si. Aqui, toda ilusão sobre um Messias ajustado às expectativas mundanas se desfaz. O Cristo que entrou em Jerusalém aclamado como Rei agora está diante de Pilatos, silencioso, humilhado e rejeitado.
“Tu és o rei dos judeus?” (Mt 27,11), a pergunta de Pilatos ecoa com ironia, mas revela uma verdade que ultrapassa o entendimento daquele momento. Jesus é, de fato, Rei, mas seu reinado não se impõe pela força, e sim pelo sacrifício. Como afirma São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, “Ele é acusado como rei, mas reina precisamente porque se deixa julgar” (Homiliae in Matthaeum). O paradoxo do Reino de Deus se explicita, é na aparente derrota que se realiza a vitória definitiva.
O silêncio de Cristo diante das acusações é particularmente eloquente. “Mas Jesus não respondeu uma só palavra”(Mt 27,14). Esse silêncio não é fraqueza, mas domínio. Ele não se defende porque sua missão não é escapar da cruz, mas abraçá-la. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, observa que “Ele calava-se exteriormente, mas falava interiormente ao cumprir a vontade do Pai” (Sermones). Há aqui uma lição importante, nem toda verdade precisa ser defendida com palavras, sobretudo quando a fidelidade exige testemunho até o sofrimento.
A escolha do povo por Barrabás é outro momento que merece reflexão. Diante da possibilidade de libertar o inocente ou o culpado, optam por aquele que representa a violência. “Solta-nos Barrabás!” (Mt 27,21). Esse episódio revela a desordem do coração humano quando afastado da verdade. Orígenes, o “pai da teologia sistemática”, interpreta esse gesto como símbolo da humanidade que, dominada pelo pecado, prefere aquilo que a escraviza em vez daquele que a liberta (cf. Commentarium in Matthaeum). Barrabás, cujo nome significa “filho do pai”, é libertado, enquanto o verdadeiro Filho do Pai é condenado. A inversão é total e profundamente reveladora.
A flagelação, a coroação de espinhos e a zombaria dos soldados expõem a radicalidade da humilhação de Cristo. Vestem-no com um manto escarlate, colocam-lhe uma coroa de espinhos e, ajoelhando-se diante dele, escarnecem, “Salve, rei dos judeus!” (Mt 27,29). Aquilo que é feito como deboche se torna, paradoxalmente, uma proclamação involuntária da verdade. São Leão Magno, papa e “Magno” doutor da Igreja, afirma que “a paixão de Cristo é o trono de onde Ele reina” (Sermones). O trono não é de ouro, mas de madeira; a coroa não é de pedras preciosas, mas de espinhos. Ainda assim, é ali que se manifesta a realeza divina.
Ao carregar a cruz e ser conduzido ao Gólgota, Jesus assume plenamente a condição humana marcada pelo sofrimento. A ajuda forçada de Simão de Cirene (Mt 27,32) recorda que ninguém está excluído do mistério da cruz. São Gregório Magno, papa e “magno” doutor da Igreja, ensina que “aquele que não toma a sua cruz e não segue Cristo, ainda não começou verdadeiramente a caminhar com Ele” (Homiliae in Evangelia). A cruz não é um acidente no caminho do discípulo, é verdadeiramente parte constitutiva dele.
No alto da cruz, Jesus experimenta a profundidade do abandono, “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”(Mt 27,46). Longe de ser um grito de desespero, essas palavras remetem ao Salmo 21(22), que começa com o abandono, mas culmina na confiança e na vitória de Deus. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, explica que “Cristo fala em nome do seu corpo, que é a Igreja, assumindo o clamor de todos os que sofrem”(Enarrationes in Psalmos). Ele entra até o mais profundo da experiência humana, inclusive na sensação de ausência de Deus, para redimir tudo a partir de dentro.
A morte de Jesus não é o fim, mas parte de sua missão, “Jesus deu um forte grito e entregou o espírito” (Mt 27,50). Não lhe tiram a vida, Ele a entrega. Não é um mero detalhe, a cruz não é apenas sofrimento imposto, mas oferta livre. Como afirma Orígenes, o “pai da teologia sistemática”, “Ele não foi vencido pela morte, mas venceu a morte ao aceitá-la voluntariamente” (Commentarium in Matthaeum).
Os sinais que acompanham sua morte, o véu do Templo rasgado, a terra tremendo, os túmulos se abrindo, indicam que algo definitivo aconteceu. A separação entre Deus e a humanidade é rompida, um novo acesso ao Pai é inaugurado. São Leão Magno, papa e “Magno” doutor da Igreja, afirma que “o véu rasgado revela que os mistérios antigos encontram seu cumprimento na paixão de Cristo” (Sermones).
Com tudo consumado, a confissão do centurião, “Ele era mesmo Filho de Deus!” (Mt 27,54), é a resposta que o próprio Evangelho espera suscitar em cada um de nós. Curiosamente, essa profissão de fé não vem dos discípulos, mas de um pagão, alguém que, ao contemplar a cruz, reconhece aquilo que muitos não foram capazes de ver. A cruz revela quem é Jesus.
Diante desse mistério, o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor nos confronta com uma decisão. Não podemos permanecer espectadores porque a cruz exige uma resposta. Ou a rejeitamos, como fizeram muitos, ou nos deixamos transformar por ela. Pois é na cruz que aprendemos o que é amar até o fim, o que é obedecer até a morte, o que é confiar mesmo na noite.
Se no início da liturgia agitamos ramos e proclamamos Cristo como Rei, agora somos conduzidos ao lugar onde essa realeza se manifesta plenamente, no Calvário. E ali compreendemos que seguir Cristo não é apenas aclamá-lo, mas unir-se a Ele. Não apenas reconhecê-lo como Senhor, mas conformar a própria vida à lógica da cruz.
Que esta Semana Santa não passe por nós como mais um ciclo litúrgico, mas como um verdadeiro tempo de conversão. Que, ao contemplarmos o Cristo crucificado, possamos também dizer, com fé renovada e coração transformado, “Ele era mesmo Filho de Deus!” (Mt 27,54) e é por Ele que vale a pena viver, sofrer e, se necessário, morrer.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.



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