“Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!” (Mt 21,1-11).
Domingo de Ramos da Paixão do Senhor | Ano A

O Domingo de Ramos inaugura a Semana Santa com uma tensão que atravessa toda a economia da salvação, a aclamação jubilosa e a rejeição iminente, a glória visível e o sofrimento oculto, a entrada triunfal e a via da cruz. O evangelista São Mateus nos apresenta Jesus entrando em Jerusalém não como um conquistador terreno, mas como o Rei messiânico que subverte as expectativas humanas. Ele não vem montado em um cavalo de guerra, mas em um jumento, cumprindo a profecia de Zacarias (Zc 9,9), revelando que seu reinado não se estabelece pela força, mas pela mansidão.
A multidão que o acompanha estende mantos pelo caminho e agita ramos, proclamando: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor!” (Mt 21,9). Há aqui um reconhecimento verdadeiro, ainda que imperfeito. Reconhecem-no como Filho de Davi, título messiânico, mas ainda não compreendem a profundidade de sua missão. Como observa Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, “eles o proclamavam Rei, mas não compreendiam o Reino que Ele vinha instaurar” (cf. In Ioannis Evangelium Tractatus). Há, portanto, um descompasso entre a expectativa humana e o desígnio divino, o povo espera um libertador político, enquanto Deus oferece um Redentor que liberta do pecado.
Esse descompasso não é apenas histórico, ele se atualiza em cada um de nós. Também nós, muitas vezes, queremos um Cristo que corresponda aos nossos projetos, que resolva nossas urgências imediatas, que confirme nossas expectativas. Mas o Cristo que entra em Jerusalém é aquele que caminha deliberadamente para a cruz. Como ensina São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, “Ele entra humildemente para ensinar que não é pela ostentação que se alcança a vitória, mas pela entrega” (Homiliae in Matthaeum).
A escolha do jumento é profundamente simbólica. Na tradição bíblica, ele é animal de paz, em contraste com o cavalo, associado à guerra. Jesus revela, assim, a natureza do seu reinado, um reinado de reconciliação. Orígenes, o “pai da teologia sistemática”, interpreta esse gesto afirmando que Cristo monta o jumento para significar que veio dominar não pela violência, mas pela submissão voluntária dos corações (cf. Commentarium in Matthaeum). Ele não impõe; Ele convida. Não subjuga; Ele atrai.
Entretanto, a mesma multidão que hoje grita “Hosana” será capaz, poucos dias depois, de clamar “Crucifica-o!”. Essa oscilação revela a fragilidade de uma fé que não está enraizada na verdade, mas nas circunstâncias. São Leão Magno, papa e “Magno” doutor da Igreja, adverte que “a aclamação que não brota da fé verdadeira é facilmente substituída pela rejeição” (Sermones). O Domingo de Ramos nos obriga, portanto, a confrontar a autenticidade da nossa adesão a Cristo, seguimos o Senhor por quem Ele é, ou apenas pelo que esperamos receber?
A cidade de Jerusalém, ao ver Jesus, pergunta, “Quem é este?” (Mt 21,10). Essa pergunta ecoa ao longo dos séculos e ressoa hoje em nossa própria vida. A resposta da multidão, “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia”, é verdadeira, mas incompleta. Ele é mais que um profeta, Ele é o Filho de Deus, o Verbo encarnado, aquele que veio para oferecer a própria vida em resgate por muitos (cf. Mt 20,28). Reconhecê-lo plenamente exige mais que entusiasmo momentâneo, exige conversão.
O Domingo de Ramos, portanto, não é apenas uma celebração litúrgica, é um convite existencial. Somos chamados a decidir que tipo de discípulos seremos ao longo desta Semana Santa. Aqueles que acompanham Jesus apenas enquanto há ramos e aclamações, ou aqueles que permanecem com Ele até o Calvário? A liturgia nos conduz progressivamente da entrada triunfal à narrativa da Paixão, justamente para nos mostrar que não há verdadeira participação na glória sem participação na cruz.
São Gregório Magno, papa e “magno” doutor da Igreja, sintetiza essa dinâmica ao afirmar que “a palma significa vitória, mas só a alcança quem não foge do combate” (Homiliae in Evangelia). Os ramos que hoje carregamos são sinal de vitória, mas apontam para a vitória que se realiza na cruz. Não há cristianismo sem cruz, não há discipulado sem renúncia, não há ressurreição sem paixão.
Neste início da Semana Santa, a Santa Mãe Igreja não nos permite permanecer na superficialidade da aclamação. Ela nos conduz ao essencial, a contemplação do mistério pascal. O Cristo que entra em Jerusalém é o mesmo que será entregue, humilhado e crucificado. E é precisamente nesse abaixamento que se revela a plenitude do seu amor.
Por isso, a pergunta decisiva que o Domingo de Ramos nos dirige não é apenas “quem é este?”, mas “quem é Ele para mim?”. Se Ele é apenas um profeta admirável, nossa fé será volátil como a multidão. Mas se Ele é o Senhor, o Filho de Deus, então nossa vida deve ser configurada à sua, uma vida de entrega, de obediência e de amor até o fim.
Que ao agitarmos nossos ramos, não façamos apenas um gesto exterior, mas uma profissão interior de fé. Que reconheçamos no Cristo humilde o verdadeiro Rei, e que tenhamos a coragem de segui-lo não apenas nas estradas festivas de Jerusalém, mas também no caminho exigente do Calvário. Pois é somente passando pela cruz que se chega, com Ele, à verdadeira vitória.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.



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