Sexta-Feira Santa: A morte de Cristo

Revisitar a reflexão de Santo Tomás de Aquino para a Sexta-feira Santa é colocar-se diante do núcleo mais exigente da fé cristã, a morte de Cristo. Não como um episódio trágico a ser apenas contemplado, mas como o acontecimento central do qual depende a redenção, o crescimento das virtudes e o próprio caminho de salvação das almas. Em um mundo que evita a dor, relativiza o pecado e obscurece o sentido da cruz, o Doutor Angélico nos reconduz à lógica objetiva da redenção ao afirmar que foi conveniente que Cristo morresse.
A primeira razão apresentada por Santo Tomás é que a morte de Cristo consuma a nossa redenção. Ainda que toda a Paixão possua “virtude infinita por causa da união da divindade”, não foi em qualquer momento do sofrimento que a obra redentora se completou, mas precisamente na morte. A redenção não é apenas sofrimento suportado, mas entrega consumada. Como está escrito, “convém que morra um homem pelo povo” (Jo 11,50).
Essa afirmação confronta profundamente a mentalidade moderna, que busca redenção sem sacrifício, transformação sem ruptura, salvação sem morte. Mas Santo Tomás é claro, a passagem decisiva se dá na morte. É ali que se realiza a transição radical que Santo Agostinho contempla com admiração, “pela morte de nosso redentor, fomos chamados das trevas à luz, da morte à vida, do exílio à pátria, do luto à alegria”. Não há passagem sem morte. Não há vida nova sem a ruptura definitiva com o que é antigo.
A segunda razão diz respeito ao crescimento das virtudes teologais, fé, esperança e caridade. A morte de Cristo não apenas nos redime, ela nos transforma interiormente, elevando nossa capacidade de crer, esperar e amar.
Quanto à fé, Santo Tomás retoma a imagem evangélica do grão de trigo, “se o grão de trigo que cai na terra não morre, permanece só”, assim a morte de Cristo não é esterilidade, mas fecundidade, porque é a partir dela que a fé se multiplica. Em termos espirituais, isso significa que a fé não amadurece na ausência de cruz, mas precisamente na sua aceitação. O homem moderno, ao evitar qualquer forma de morte, seja ela renúncia, sacrifício ou desapego, acaba por limitar o crescimento da própria fé.
Quanto à esperança, o argumento é mais contundente, “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas por nós todos o entregou, como não nos dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8,32). A lógica é simples e irrefutável, se Deus já nos deu o máximo (o próprio Filho), nada nos será negado do que for necessário para a salvação. São Bernardo expressa essa verdade de forma concreta ao contemplar o corpo crucificado, “sua cabeça inclinada, para dar-nos o ósculo da paz; seus braços estendidos, para nos abraçar; suas mãos traspassadas, para nos cumular de bens; seu coração aberto, para nos amar”.
Aqui se encontra um antídoto direto contra a ansiedade e a insegurança que marcam o nosso tempo. A esperança cristã não se fundamenta em probabilidades, mas em um fato consumado: Cristo foi entregue. E, nas suas chagas, a Santa Mãe Igreja “estabeleceu e fez seu ninho”, colocando ali a segurança da sua salvação. Trata-se de uma imagem forte, a alma que se refugia nas feridas de Cristo encontra proteção contra as investidas do mal.
Quanto à caridade, Santo Tomás afirma que a Paixão inflama o amor. “Ao meio dia queima a terra” (Ecle 43,3), ou seja, no auge do sofrimento de Cristo, os corações são chamados a arder. São Bernardo sintetiza a ideia ao afirmar que, “o cálice que bebestes, ó bom Jesus, mais que tudo, vos fez amável”. A cruz revela o amor em sua forma mais pura, e, ao revelá-lo, exige resposta. Não se pode contemplar a Paixão e permanecer indiferente, caridade autêntica nasce dessa contemplação.
A terceira razão apresentada por Santo Tomás introduz uma dimensão ainda mais exigente, a morte de Cristo como modelo da nossa própria morte para o mundo, “para que, pelo exemplo de sua morte, morrêssemos para este mundo”. Aqui, a reflexão deixa de ser apenas contemplativa e se torna diretamente prática, a cruz não é apenas algo que Cristo sofreu, é algo que deve ser reproduzido, de modo analógico, na nossa vida.
Santo Tomás recorre à interpretação de São Gregório Magno para aprofundar essa realidade, “a alma é a intenção do espírito, os ossos são a força da carne”. Quando a alma se eleva às coisas eternas, a força da vida exterior começa a perder seu domínio. Trata-se de uma inversão de prioridades, o interior se fortalece, o exterior se relativiza.
Essa morte para o mundo não significa desprezo pela criação, mas ruptura com a lógica do apego desordenado. Significa que aquilo que antes dominava como a busca por reconhecimento, prazer, segurança absoluta, agora perde sua centralidade. Por isso, São Gregório afirma que “o mar retém os corpos viventes, mas rejeita os cadáveres”. O mundo retém aqueles que ainda estão vivos para ele, isto é, apegados, dependentes, identificados com suas dinâmicas. Mas rejeita aqueles que já morreram para essa lógica.
E aqui se encontra um dos maiores desafios da busca pela santidade no mundo moderno, poucos querem morrer. Quer-se Deus, mas sem ruptura. Quer-se salvação, mas sem renúncia. Quer-se vida eterna, mas sem morrer para o que é passageiro. A Sexta-feira Santa, à luz de Santo Tomás, desfaz essa ilusão. Não há santidade sem morte. Não há salvação sem cruz.
Revisitar essa meditação é, portanto, aceitar um chamado radical. A morte de Cristo não é apenas um evento a ser recordado, mas um princípio a ser vivido. Ela consuma a redenção, fortalece as virtudes e estabelece o modelo da vida cristã.
Diante disso, a pergunta não é apenas o que Cristo fez por nós, mas o que estamos dispostos a fazer por Ele? Se Ele morreu por nós, estamos dispostos a morrer com Ele? Se Ele se entregou totalmente, estamos dispostos a abandonar aquilo que ainda nos prende?
A Sexta-feira Santa não permite neutralidade, ela exige uma resposta. E somente aquele que aceita passar pela morte (não necessariamente física, mas espiritual, concreta, real) poderá, com Cristo, participar da vida que não passa.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.
De humanit. Christi
(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)



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