“Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20,19-31).
Domingo na Oitava da Páscoa | Domingo da Divina Misericórdia | Ano A

A liturgia deste domingo nos coloca novamente no cenáculo, mas já não é a noite da traição, e sim o primeiro dia da nova criação. As portas estão fechadas, o medo ainda é real, e os discípulos carregam consigo as marcas do fracasso recente. É nesse ambiente que Cristo ressuscitado se faz presente, “a paz esteja convosco” (Jo 20,19b).
Isto acontece porque a Ressurreição não elimina imediatamente as fragilidades humanas. O medo continua e com ele as portas permanecem trancadas, a compreensão ainda é parcial, até que o Cristo entra. Não por arrombamento, mas por presença, como observa Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, aquele que entrou no mundo sem romper o seio virginal de Maria entra agora no cenáculo sem violar as portas fechadas. A sua presença não está submetida às limitações da matéria.
A primeira palavra do Ressuscitado é “paz”. Não uma paz de espírito como nos quer vender o mundo moderno, psicológica ou superficial, mas a reconciliação objetiva entre Deus e o homem. A cruz não foi apenas um evento de sofrimento, foi o ato pelo qual a inimizade foi vencida. A paz que Cristo oferece é fruto direto da sua entrega.
Em seguida, Ele mostra as mãos e o lado (Jo 20,20), é importante notar que a Ressurreição não apaga as marcas da cruz, mas as transfigura. O corpo glorioso conserva as chagas, não como sinal de derrota, mas como memória permanente da redenção. São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, destaca que Cristo conserva as chagas para que nunca se esqueça o preço da salvação e para que os discípulos reconheçam a identidade daquele que está diante deles.
Logo depois, Jesus sopra sobre os discípulos e diz, “a quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23), estabelecendo a sua misericórdia como uma realidade sacramental, confiando a sua Santa Igreja o perdão dos pecados.
Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, ensina que os sacramentos são instrumentos da graça, pelos quais Cristo continua a agir na história. O poder de perdoar não é humano, é participação na autoridade divina. A misericórdia, portanto, não é apenas sentimento é ato eficaz que restaura o homem em sua relação com Deus.
No entanto, Tomé não estava presente. Quando os outros discípulos lhe anunciam a Ressurreição, ele responde com exigência “se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei” (Jo 20,25b), é uma busca por evidência concreta. São Gregório Magno, papa e “magno” doutor da Igreja, interpreta a dúvida de Tomé como benéfica, já que ao comprovar as chagas de Cristo, Tomé se torna testemunha para aqueles que não verão.
Oito dias depois, Cristo volta, novamente com as portas estão fechadas. Novamente, a paz é proclamada. Mas agora o foco é Tomé. Jesus não rejeita sua exigência e responde a ela, “põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel” (Jo 20,27). A misericórdia divina não se limita a perdoar pecados, ela alcança também a fragilidade da fé.
Tomé responde com a mais alta profissão de fé do Evangelho de João, “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). Aquele que exigia provas agora reconhece plenamente a identidade de Cristo. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, observa que Tomé vê o homem e confessa Deus, toca a carne e reconhece a divindade.
Jesus então pronúncia uma bem-aventurança, “bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20,29b) para nos ensinar que a fé católica não se fundamenta na ausência de sinais, mas na confiança no testemunho e na ação da graça. Porque não ver não é uma desvantagem, é o espaço próprio da fé.
O Evangelho conclui afirmando que esses sinais foram escritos para que se creia que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, se tenha a vida em seu nome. A fé não é um fim em si mesma, ela conduz à vida.
O Domingo da Divina Misericórdia ilumina esse texto de forma particular, porque a Ressurreição não apenas confirma a vitória sobre a morte, ela inaugura um tempo de misericórdia. A cruz abriu a fonte e a Ressurreição a torna acessível e assim as chagas permanecem abertas não como feridas, mas como fontes.
A lógica divina é revelada, onde houve pecado, superabunda a graça. Onde houve negação, há reconciliação. Onde houve dúvida, há encontro. A misericórdia não ignora o passado, ela o redime.
Também nós nos encontramos, muitas vezes, com as portas fechadas, seja por medo, por culpa ou por insegurança. Também nós, em certos momentos, nos aproximamos de Tomé, desejando certezas tangíveis antes de crer. O Evangelho deste domingo não condena essa condição, responde a ela.
Cristo continua a entrar, continua a oferecer a paz, continua a mostrar as chagas e continua a conceder o perdão. Neste Domingo da Divina Misericórdia, a Igreja nos convida a dar um passo decisivo, passar da dúvida à fé, não porque tudo esteja resolvido, mas porque Cristo está presente.
Que também nós possamos fazer nossa a profissão de Tomé. Não apenas como fórmula, mas como adesão existencial, “meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28).
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.
Graças a Deus, aleluia, aleluia!



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