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Segundo domingo de Páscoa, 28 de abril de 2019, quantas vezes até hoje não lhe disseram, frases já consolidadas da cultura popular como “épreciso ver para crer” e a famosa expressão “eu sou como São Tomé, só acredito vendo”.

O evangelho segundo João nos convida a viver essa visita de Jesus Ressuscitado aos seus discípulos e nós deixa com muito mais perguntas do que respostas. Onde estava Tomé quando Jesus chegou já que os outros apóstolos estavam reunidos? Porquê Jesus não esperou Tomé voltar? Porquê Jesus foi até lá sabendo que um dos apóstolos não estava presente? O quê Tomé estava fazendo?

Pensemos um pouco sobre isso.

Durante essa semana eu comecei a assistir uma série humorística em um serviço de streaming, a série com uma pegada um pouco mais reflexiva traz algumas situações da vida moderna que trás reflexões interessantes para o nosso dia a dia, mas o que despertou minha atenção foi um detalhe que servia apenas de pano de fundo para o tema que estava sendo tratado.

Quatro amigos jogando basquete, um desses quatro amigos na cena era paraplégico e por isso o jogo de basquete foi em cadeiras de rodas, os outros três amigos que não possuía paraplegia também estavam em cadeiras de rodas para que jogassem juntos. A cena não era sobre inclusão, não era sobre empatia, tão pouco sobre amizade ou qualquer outra coisa assim, eram apenas amigos jogando basquete, que conversavam sobre um tema, a cena fluiu naturalmente de tal maneira que é possível que muitos assistam e nem se deem conta do quão comum uma cena como aquele deveria ser no nosso dia a dia.

Alguns de vocês irão pensar que isso é normal e que eu estou sendo exagerado ao comentar dessa forma, mas o meu próximo pensamento após assistir aquela cena foi.

“Eu já joguei basquete, mas nunca assim, onde estão esses jogadores? Onde estão esses possíveis amigos?”

Em uma pesquisa superficial e rápida no Google, o IBGE informa que em 2018, 13,3 milhões de pessoas no Brasil possui algum tipo de deficiência motora. Mais de 13 milhões de pessoas e eu ainda não joguei basquete numa cadeira de rodas ao lado de nenhum desses meus potenciais amigos de jogo. Se ampliarmos o espectro para outras deficiência o IBGE estima cerca de 45 milhões de pessoas. 45 milhões de pessoas, fico envergonhado e sinto-me culpado, num mundo conectado, onde a moda pop da vez é conhecer muitas pessoas, porque eu não tenho nenhum amigo cego no club de leitura? Ou um cadeirante no basquete? Ou um surdo nos grupos de viagem para fotografia? Tantas opções para pensar e nenhuma dessas 45 milhões de pessoas está na lista de contatos para convidar para nada disso.

Então as perguntas voltaram, onde eles estão? O que estão fazendo? Porque não esperamos que eles apareçam?

Nossos sentidos não são isolados, o modo como percebemos e interagimos com o mundo é uma combinação de cheiros, cores, toques e muitas outras experiências. O quê Tomé fazia naquele exato dia e horário em que Jesus aparece aos discípulos talvez só descobriremos na próxima vida, mas uma coisa é certa, Tomé não tinha medo, ele não estava escondido, ele estava lá fora enquanto os outros discípulos estavam trancados com medo (Jo 20, 19), Tomé não temeu a reprovação de seus irmãos ao duvidar e desafio Jesus.

“Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei” (Jo 20, 25b).

Tomé está falando em ver, em tocar, aquela era a maneira dele de expressar o mais profundo desejo de seu ser, ele queria interagir com Jesus. Nesse desejo de interagir assim como os outros ele dúvida de seus irmãos de apostolado. Uma semana depois, Jesus volta a interagir com os discípulos, desta vez, Tomé estava com eles e é aí onde Jesus revela aos apóstolos que estava a cumprir em plenitude mais uma de suas promessas.

“Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18,20).

Ninguém vai até Jesus correndo contar que Tomé duvidou que Ele apareceu, ninguém chamou Jesus em um canto para falar sobre como Tomé reagiu. Jesus apenas apresentou-se dizendo que estava ali “A paz esteja convosco”.

E releva como vem cumprindo a sua promessa no meio dos apóstolos

“Depois disse a Tomé: ‘Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel’” (Jo 20 ,27).

A narrativa do evangelho diz que Tomé reconheceu Jesus como o seu Senhor e Deus, mas não chegou a tocar nele, ele acreditou, naquele instante percebeu que ele não estava vendo, tocando ou ouvindo Jesus, mas Jesus estava ali no meio deles todo o tempo, Jesus não deixa os seus discípulos sozinhos, ele estava lá e sabia de todos os pedidos de Tomé, que naquele momento pedia por aquele experiência para acreditar.

Quantos dos meus potenciais amigos ainda estão esperando por essa experiência, nossa obrigação como cristãos é perder o medo, ir com Jesus a eles, assim como permitir que eles venham a nós. Tomé não acreditou, mas não foi mandando embora por isso, ainda mais importante Tomé não acreditou no que disseram, mas também não foi embora, ele permaneceu lá, até que chegasse sua hora de ter aquela experiência com o Ressuscitado.

Tomé ouviu a voz de Jesus e teve uma experiência completa, não sentiu a necessidade de tocar Nele para reconhecê-Lo, não é a ausência de um sentido ou a limitação de uma capacidade que deve impedir 45 milhões de irmãos de serem parte das nossas vidas, da nossa caminhada coletiva de conversão para vida eterna com Aquele que nos ama. Pensem nisso, e se você conhece alguma destas 45 milhões de pessoas, convide-a para tornar um sorvete hoje, conta para ela que hoje é o segundo domingo da Páscoa, o domingo da Misericórdia. E se puder marca um basquete e convida-me que eu também quero ir.

Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Feliz Páscoa!

Graça, Paz e Misericórdia.

Encontremos Deus nas pequenas coisas.