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“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda.” (Jo 15, 1 – 2).

As chances de você que lê isso já ter chamado. um carro por aplicativo ou de conhecer alguém que já tenha feito isto são grandes. E sabemos que os motoristas são dos mais variados, tem aqueles fazendo uma grana extra nos dias de folga, tem os que têm ali a sua única fonte de renda, alguns estão por ali porque deixaram o táxi de lado, outros são táxi mas também são Uber, hipóteses são o que não falta.

Entre as variadas motivações para ser motorista por aplicativo, tem também as variadas possibilidades de como você será atendido, alguns bem falantes, outros em completo silêncio, alguns muito educados e atenciosos, outros nem tão educados e atenciosos assim. O passageiro que está pagando por aquela corrida, sempre sente-se no direito de reclamar se algo não está dentro do esperado para aquela prestação de serviço, e está certo em exigir seu direito. Mas e se você for surpreendido com algo que vai além da falta de balas no carro ou do ar condicionado desligado?


Um amigo próximo está internado e eu fui visita-lo no hospital depois do trabalho, a visita correu bem e apesar do estado dele eu sair do hospital confiante de que ele estava se recuperando. Como ele está internado em outra cidade, eu estava saindo do hospital para ir à rodoviária pegar um outro transporte para voltar para casa. Chamei um Uber e fiquei aguardando na entrada do hospital.

É de meu hábito sempre que solicito o carro, mandar mensagem para o motorista, neste fim de tarde em questão não foi diferente.

“Boa tarde, estou aguardando na entrada do hospital da Unimed”

Ele prontamente respondeu

“Boa tarde. Ok.”

Parado na entrada com uma sacola na mão, com três livros que havia comprado mais cedo e o celular na outra, olhei em volta e não vi o carro, quando olhei para a tela do celular vi no mapa que o carro estava bem ali à frente. Mas quando levantei o rosto um carro bateu em mim. Não foi uma pancada forte pois o carro já vinha parando, mas foi o suficiente para que eu caísse de lado, meus livros fossem parar debaixo do carro e meu celular alguns metros à frente.

Eu levantei do tombo, percebi algumas pessoas em volta, caminhei peguei meu celular e fiquei procurando meus livros. Olhei para o motorista e disse,

“O senhor poderia por favor por o carro mais para frente, meus livros então aí em baixo.”

O motorista ficou olhando para mim e sem dizer nada entrou no carro e colocou mais para frente, enquanto eu me abaixava para pegar os livros eu percebi pela placa do carro que aquele era o veículo que eu estava esperando. Cômico se não fosse trágico, o Uber que eu mesmo pedi tinha quase me atropelado na frente do hospital. Eu mesmo assim entrei no carro e então o motorista se deu conta que eu era o passageiro.

Ele muito preocupado se eu estava bem, se havia me machucado, se gostaria de cancelar a corrida, eram tantos “se” e para todos eles a resposta era a mesma.

“Está tudo bem, acidentes acontecem.”

Ele cancelou porque não quis que eu pagasse a corrida, mas me levou até a rodoviária. No caminho preocupado ele revelou que havia se distraído, porquê dois anos antes, naquele mesmo lugar sua mãe vinha a falecer e que as lembranças quando se aproximou do hospital foram fortes.

Conversamos sobre boas lembranças e sobre saudade, até que começamos a falar sobre vida após a morte e surgiu a pergunta.

“Qual a sua igreja?”

Aquela pergunta foi curiosa para mim, não havíamos falado sobre Deus ainda, sobre fé ou sobre igreja, mas ele veio diretamente a esse ponto. Questionei o motivo da pergunta e ele continuou.

“Aqui atrás desse volante se vê de tudo moço, tem gente apressada e gente relaxada. Gente mal educada tem até demais, gente que não sai do celular nem para responder um boa tarde, mas quando entra com Deus no carro dá para sentir na hora. Seu moço, você estava no seu direito até de chamar a polícia pra mim e você me pediu que por favor tirasse o carro para você pegar suas coisas”

Ele falou aquilo e eu continuei calado, já estávamos bem próximos da rodoviária, pedi que ele encostasse logo na entrada e antes de descer do carro eu agradeci, não. por me trazer a rodoviária, mas por me trazer de volta para mim. Trabalho, estudo, problemas, família, tantas coisas ao mesmo tempo, você se depara com situações que vão lhe deixando disperso de si mesmo, a vida cotidiana chamada de moderna vai nos distanciando de nós e de Deus. Até que Ele encontra uma forma de esbarrar em nós.

Foi no meio de todo o meu agradecer que o motorista respondeu

“Até mesmo a árvore boa quando está pronta para dar frutos precisa ser sacudida as vezes.”

Eu achei genial a analogia dele, fiquei me olhando por uns instantes e respondi, “pelo menos não fui podado”, mostrando que ainda estava inteiro e ele me surpreendeu, mais uma vez agradecendo

“Eu sim, me podou uma lembrança triste e deixou a de hoje no lugar, o dia em que atropelei o passageiro e ele me agradeceu.”

Eu entrei para comprar passagem e ele foi embora, três dias depois o evangelho segundo João me provocou na liturgia diária.

“Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.” (Jo 15, 8).

Que consigamos glorifica-Lo vivendo Nele, para Ele e por Ele, dando os frutos que Ele nos demandar. Mas Senhor se for possível, sem que alguém ponha o carro por cima de mim. Deus já obrigado.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Feliz Páscoa! E Que Páscoa meu Senhor! Mas que Páscoa!

Graça, Paz e Misericórdia.