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Crê que Deus criou o céu e a Terra não requer muito esforço, mesmo aqueles que se consideram mais intelectuais quando confrontados precisam reconhecer que teorias como o big-bang podem explicar o surgimento e a expansão do universo, mas não podem afirmar que tal surgimento e expansão iniciou por acaso, a final, o padre que desenvolveu essa teoria não defendia o acaso como parte central de sua ideia. 

Ao passo disso, crê que Jesus é filho de Deus requer bem mais do que lógica básica, embora em muitas culturas pensar que um deus engravidou uma mulher seja algo comum e que para os ateus praticantes dos tempos atuais isso possa até ser considerado uma premissa cômica bizarra. Um grande desafio intelectual e de fé desde a encarnação do Verbo até os dias atuais está em crê que “o verbo se fez carne e habitou no meio de nós” (Jo 1, 14). 

Se para antigos judeus era motivo de escândalo pensar que Deus tivesse de fato se humilhado assumindo a condição humana e habitando em meio a eles. O quê poderia nos escandalizar atualmente visto que Ele não convive entre nós da mesma maneira que conviveu com eles? A resposta para essa pergunta é simples, o motivo. O motivo pelo qual Jesus Cristo se encarnou, o que O levou a assumir a nossa humanidade. 

Como afirmamos no Credo Niceno-Constantinopolitano, foi “Por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus; e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e Se fez homem”. A nossa fé está alicerçada no fato de quê “foi Deus que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados” (1 Jo 4, 10).

Mas por mais maravilhosa que seja essa verdade, existe um grande impasse entre o imensurável amor de Deus por nós e a maneira como conduzimos as nossas vidas, pois mesmo sabendo que “Ele veio para tirar os pecados” (1 Jo 3, 5) por muitas vezes escolhemos nos apegar aos nossos pecados em detrimento de abraçar a graça do amor de Deus por nós. 

Mesmo com o catecismo da Igreja Católica nos ensinando que Jesus Cristo foi concebido pelo poder do Espírito Santo e nasceu da Virgem Mariapara que assim conhecêssemos o amor de Deus: “Assim se manifestou o amor de Deus para conosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele”(I Jo 4, 9). O Verbo fez-Se carne, para ser o nosso modelo de santidade: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim […]” (Mt 11, 29). “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim” (Jo 14, 6). 

E sendo inegável o fato de que Ele é o modelo das bem-aventuranças e a norma da Lei nova: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15, 12). Este amor implica a oferta efetiva de nós mesmos, no seu seguimento. Não foi uma ação oportuna ou casual, Deus se fez homem para nos tornar participantes da natureza divina (2 Pe 1, 4).

Mas porque o grandioso motivo de amor da encarnação do Verbo escandaliza a todos nós então? A resposta para esse questionamento é pessoal, mas não é difícil encontrar alguns exemplos recorrentes na internet. 

“Eu sou assim mesmo”

“É que eu sou do signo de (complete a frase com o signo que desejar)”

“É o meu jeito, não vou mudar só porque você não gosta”

“Aceita que dói menos”

“É sobre isso”

“Sou uma pessoa de gênio forte”

“Não quero ser aquele cara, mas…”

“Todo mundo faz isso, é normal”

“Só se vive uma vez”

São muitos os sinais comuns que podemos encontrar em nós mesmos e a nossa volta que podem explicar de maneira rápida e fácil porque nos escandalizamos e por tantas vezes rejeitamos que “Ele manifestou-Se na carne” (1 Tm3, 16), o fato de que ele foi “semelhante a nós em tudo, menos no pecado” (Cf. Heb4, 15).

Porque isso implica dizer que podemos mudar e sermos melhores, implica admitir que é possível viver uma vida fora dos exageros e desordens que vivemos, crê que Jesus Cristo é o Verbo encarnado, verdadeiro Deus e verdadeiro homem é colocar-se diante da Trindade e ouvir a voz de Deus ordenar como fez na montanha da transfiguração, “Escutai-O” (Mc9, 7). É olhar para a Santíssima Virgem Maria Mãe de Deus e nossa, assim como fizeram os servos em Caná na Galiléia e seguir suas palavras “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5b). 

Crê que Jesus Cristo foi concebido pelo poder do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria é renunciar a nós mesmos, as nossas insignificantes certezas, desejos e vontades  para ouvi-Lo, obedecê-Lo e permitir que Ele nos mude, confiantes de que essa mudança é sempre para melhor. 

Percebem Deus nos pequenos detalhes. 

Graça, Paz e Misericórdia.