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Um dos mais habituais erros cometidos pelas pessoas é querer provas para depois acreditarem e isso não é necessariamente um erro novo, os evangelistas já nos apresentam os fariseus e saduceus pedindo a Jesus um sinal para que eles pudessem crê (Mc 8, 11; Lc 12, 54), não por acaso Jesus na ocasião não lhe oferece nenhum novo sinal. 

A negativa de Jesus não chega a ser surpreendente, pois os sinais dados por Jesus de sua divindade não foram dados precedendo a fé, foram oferecidos depois do primeiro sinal de fé daqueles que o procuraram. Do seu primeiro milagre em Caná na Galileia, onde antes que Ele transformasse água em vinho, foi preciso por parte daqueles que Dele precisavam um sinal de fé e obediência em sua autoridade, pois a fala da Virgem Maria foi muito clara neste sentido,  

Sua mãe disse aos empregados: Fazei tudo quanto Ele vos disser”.

(Jo 1, 5)

Até seu último sinal antes da morte, quando do alto da cruz promete ao ladrão crucificado ao Teu lado que com Ele estaria naquele mesmo dia no paraíso. Antes de tal promessa, houve por parte do ladrão, uma confissão de culpa e uma súplica de fé,

“´Nós, na verdade, estamos sendo executados com justiça, pois que recebemos a pena que nossos atos merecem. Porém, este homem não cometeu mal algum!´ Então, dirigindo-se a Jesus, rogou-lhe: ´Jesus! Lembra-te de mim quando entrardes no teu Reino´”.

(Lc 23, 41-42)

Mesmo após a revelação onde Deus se fé homem e habitou no meio de nós (Mt 1, 23), muitos continuam a cometer este mesmo erro, tanto dentro como fora da Igreja, por vezes buscando provas de Deus para poder a acreditar Nele, ignorando muitas vezes seus instintos mais básicos e sua própria natureza religiosa, pois o ser humano através dos tempos sempre buscou a Deus e demonstrou religiosidade por meio de orações, sacrifícios, cultos, meditações e outros meios pelos quais o ser humano sempre buscou alcançar a plenitude de sua humanidade tendo livremente uma relação com Deus. 

Mas infelizmente o comportamento do próprio ser humano o motiva a afastar-se de Deus, buscando ignorar sua existência, rejeitá-la ou esquecê-la, repetindo o mesmo pecado de Adão (Gn 3, 12) tentando culpar a Deus pelas consequências de seus próprios pecados. Justificam a descrença em Deus com a revolta contra o mal existente no mundo, a ignorância ou a indiferença religiosa, as preocupações do mundo e das riquezas, o mau exemplo dos crentes, as correntes de pensamento hostis à religião, tudo os fazem agir como pecadores que por medo, se esconde de Deus e foge quando Ele o chama.

No entanto, para sustentar a inexistência de Deus e a rejeição a Ele, é preciso que o ser humano faça um grande esforço que hoje é sustentando em conceitos muitas vezes deturpados de relatividade e aleatoriedade, pois sem eles todos fatalmente se voltariam para dentro de si mesmo e fariam perguntas como, 

“Quem criou tudo isso?”

Pergunta essa respondida de imediato pela Igreja nas primeiras frases de nossa profissão de fé, 

“Creio em Deus Pai todo poderoso

Criador do céu e da Terra

De todas as coisas visíveis e invisíveis”

A inevitável conclusão da qual muitos buscam fugir ganha vida e nos faz sacudir pela força das palavras de São Paulo aos romanos, 

“O que se pode conhecer de Deus manifesto para eles, porque Deus lho manifestou. Desde a criação do mundo, a perfeições invisíveis de Deus, o seu poder eterno e a sua divindade tornam-se pelas suas obras, visíveis à inteligência” 

(Rm 1, 19-20).

Toda a criação é para nós já um grande sinal e testemunho que temos a disposição, em tempos de grandes preocupações com o meio ambiente e principalmente com o impacto da intervenção irresponsável do homem na natureza, cabe a nós a exemplo de Santo Agostinho interrogar a criação a nossa volta para encontrar e aceitar Deus.

“Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar interroga a beleza do ar que se dilata e difunde, interroga a beleza do céu […] interroga todas estas realidades. Todas te respondem: Estás a ver como somos belas. A beleza delas é o seu testemunho de louvor. Essas belezas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo, que não está sujeito à mudança?”

(Santo Agostinho)

Chega a ser até curioso, como exatamente o ponto de partida de onde todo o ser humano dotado de razão pode conhecer a Deus é o mesmo ponto de partida que foi distorcido para que possamos tranquilamente rejeitá-Lo, essa luz natural de razão única que apenas o ser humano possui é desde sua origem a marca inapagável de Deus em nós, por temos sidos criados a sua imagem e semelhança (Gn 1, 27). 

Mas tal graça que carregamos, também desperta em nós a necessidade de conhecer e amar a Deus, por isso aqueles que já vislumbram Deus com o olhar da fé sentem a necessidade de expressar por Ele esse amor.

É pela expressão desse amor, que a Igreja defende que todo ser humano possui a capacidade de falar de Deus a todos e com todos e esta convicção que carregamos é o que nos leva, não apenas a evangelização de todos os povos, como também a um diálogo respeitoso com outras crenças, com as mais diversas áreas do conhecimento humano, na ciência e na filosofia, com descrentes e ateus. 

Contudo, mesmo dotados dessa graça, nos esvaziamos enquanto seres limitados, incapazes de compreender e apresentar Deus em sua plenitude, pois nossa capacidade humana é insuficiente para a grandiosidade de Deus que enquanto criador, transcende toda a criatura. 

É após nos esvaziarmos que Deus nos preenche a cada respirar, a cada olhar, a cada andar, a cada toque, a cada som e a cada silêncio. 

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.