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Se existe algo capaz de despertar em todos nós sentimentos diversos como a família consegue, eu ainda não conheço, as famílias possuem as mais variadas formações e a única certeza que podemos tirar da família é quê não existe padrão para demonstrar sentimentos e afetos. Mas existe um recurso chamado comparação, que nós seres humanos utilizamos para os mais variados fins e demonstrar sentimentos entre os membros da família não é uma exceção.

Permita-me tentar explicar, qual é a comida mais gostosa o abará da Bahia ou o pirão de capão de Sergipe? Calma, não precisa fugir para as colinas e nem travar uma guerra gastronômica, utilizei duas receitas bem regionais de propósito, assim fica fácil perceber que só será capaz de opinar quem já tiver provado dos dois pratos, aos que ainda não o fizeram vou deixar uma dica, os dois são fantásticos.

Nas famílias é a mesma coisa, somos comprados o tempo inteiro e quem faz essas comparações só é capaz de fazer porque conhece ambas as pessoas que estão sendo comparadas, a final quem nunca ouviu dos pais, dos tios ou dos avos aqueles conselhos comparativos.

“Vá estudar para não acabar igual aquele seu tio…”

“Tome cuidado para não ficar mau falada igual aquela sua prima…”

“Você deveria tomar sua tia como exemplo…”

São conselhos desse tipo que ouvimos desde a infância até a nossa fase adulta, mas quem nunca em uma reunião de família, mesmo depois de adulto, não ouviu aquela fala que é meio comentário e meio conselho.

“Ainda não se formou? Sua prima tem a sua idade e…”

“Ainda não está casada? Na sua idade eu…”

“Não tem filhos ainda, está esperando o quê? Seus tios na sua idade já…”

Você pode até não observar de imediato, mas a forma comparativa é a maneira mais fácil que os familiares encontram de dar a você o conselho que eles acreditam ser o melhor, você pode não perceber, mas em algum momento já fez ou então se prepare, vai se perceber fazendo isso.

Quando eu era criança, o ponto de referência que a minha família utilizava comigo era meu primo, ele era alguns meses mais novo do quê eu e a impressão que eu tinha é que ele sempre estava a minha frente em tudo, ele entrou na escola primeiro do quê eu, aprendeu a contar e calcular, a ler e a escrever, a andar de bicicleta, a patinar, a cavalgar, a pilotar e a dirigir. E claro minha família, meu pai e minhas tias principalmente, sempre tinham seus conselhos comparativos para mim, por muitas vezes eu ouvi.

“Sente para estudar, seu primo já sabe ler.”

“Tente se equilibrar, seu primo já pedala sem as mãos.”

“Ainda não sabe dirigir, seu primo já tem habilitação.”

Na infância essas falas geram em nós um punhado de competição, mas quando vamos superando a adolescência percebemos que cada um tem um tempo de fazer as coisas e que não é porque sua família faz referência a outro que está a sua frente que eles gostam menos de você, pelo contrário, a mensagem é quê somos um só. Família é essa unidade, partilhamos o mesmo sangue, a mesma educação, a mesma história, se um de nós consegue, os outros também conseguem, não por que somos todos iguais, mas porquê todos temos a mesma base e o mesmo apoio para chegar onde escolhemos chegar.

Esta semana em uma partilha um homem falava sobre essa relação de família e me fez lembrar de tudo isso, ele contava sobre o primo, como a diferença de idade entre eles também era pequena, questão de alguns meses. Os dois viveram vidas semelhantes, sempre alinhados com os ensinamentos de Deus, obedecendo seus mandamentos. Mas com o passar dos anos eles cresceram e cada um seguiu por um caminho, o mais velho desde cedo tinha o dom da palavra, uma oratória admirável, encantava o povo com suas mensagens, tinha um perfil mais radical e ia a lugares de difícil acesso, mesmo assim muitos iam procurar por ele.

O mais novo, desde pequeno mostrou a toda a família a que veio, ensinava aos mais velhos com sabedoria de ancião, todos na família sabiam que ele era o prodígio da família, se o mais velho tinha nascido com um dom, o mais novo possuía todos. Mas eles nunca concorreram por isso, o mais velho encantava o povo, mas sempre os alertava que o mais novo quando chegasse, faria muito mais. O mais novo por sua vez, amava o mais velho de todo o coração e fazia questão de mostrar isso publicamente.

Infelizmente a fama do mais velho trouxe mais do que bons amigos, ele possuía gênio forte de convicções firmes e acabou irritando gente poderosa e por isto foi preso. Preso não podia continuar seu trabalho então mandou aqueles que trabalhavam com ele em busca de seu primo mais novo para que eles fossem capazes de compreender e continuar o que ele começou. Sem um julgamento foi condenado a morte, para atender os caprichos dos poderosos que ele havia irritado.

O primo mais novo, não era nada diferente, convicto jamais se distanciou da verdade e se seu primo mais velho irritou uma classe de poderosos, ele irritou todas elas. Condenado a uma morte humilhante reuniu a família novamente, não mais na terra, agora reunidos no céu. Mas como eu disse, o primo mais novo desde pequeno mostrou a toda a família a quê veio, veio constituir a maior e mais bela família de todas, uma família que começou com José seu pai adotivo, Maria sua mãe, e Ele o menino Deus que durante sua vida nos ensinou a reconhecer Deus Pai, antes de morrer deu-nos uma mãe Santíssima e por sua morte acolheu-nos como irmãos.

Família é assim, não somos todos iguais, não seguimos todos o mesmo caminho, mas se formos capazes de compreender o sentido comum de nossas vidas, você pode ser o primo mais velho como João Batista e ajudar a preparar o caminho do Senhor da maneira como Ele te chamar a fazer com a certeza que no fim todos seremos família novamente junto nos céus.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.