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Segundo domingo da Páscoa, ou Oitava de Páscoa, ou Domingo da Misericórdia, são muitas formas de referirmo-nos ao dia de hoje. Eu pessoalmente vou usar Dia do Medo, permitam-me explicar o motivo.

Vivemos um tempo onde tudo nos é permitido, mas esquecemos que nem tudo nos convém (I Cor 6, 12). Nas nossas paróquias cada dia mais ouvimos falar sobre a Misericórdia de Deus, que é algo maravilhoso, mas deixamos de ouvir a cada dia sobre à Justiça divina, sobre o Temor a Deus, onde foram parar os mandamentos? O que será que aconteceu com a luta contra as tentações de satanás e seus demônios? Muitos vão dizer que isso é crendice medieval, mas cuidado porque ao negar a existência de satanás e negar que ele nos tenta você estará negando a fé católica, é o mesmo que dizer que Jesus era um louco que conversava sozinho (Mt 4).

Não por acaso, o evangelho segundo João proclamado hoje nos mostra que os discípulos se encontravam trancados com medo (Jo 20, 19), eles tinha medo dos judeus diz o evangelista. É preciso perceber que não era pura e simplesmente dos judeus que eles tinham medo, eles tinham medo da morte. Todos viram o que acontecerá a Jesus e querendo preservar suas vidas estavam a portas trancadas.

Seria correto dizer que Jesus ao aparecer no meio deles, retira deles o medo? Penso que não. O quê Jesus vem fazer entre os discípulos não é acabar com o medo, mas por o medo no lugar certo.

“Aquele que quiser salvar sua vida irá perdê-la” (Mt 16, 25)

Foi o que Ele ensinou, dando aos discípulos a autoridade de perdoar os pecados e de ligarem as almas a vida eterna (Jo 20, 23), Jesus vem reafirmar.

“A quem muito é dado muito será cobrado” (Lc 12, 48).

Nós que no nosso tempo, como disse o Venerável Fulton John Sheen

“Desperdiçamos a Misericórdia de Deus com atos de falsa compaixão”

Sempre dizendo que tudo Deus perdoa, porque Deus é amor, Deus e perdão, esquecemos as várias vezes que Ele nos alertou sobre o que era preciso para entrar no reino do céus (Mt 7, 12; Mt 19, 24; Mt 22; Lc 13, 27; Mt 25, 41). E agora diante da pandemia da COVID19, estamos tal como os apóstolos, trancados temendo por nossas próprias vidas, os apóstolos ainda não compreendiam que Jesus tinha vencido a morte, pois o Espírito Santo Paráclito ainda não havia sido enviado sobre eles (Jo 14, 16), mas enquanto a nós cristãos sacramentados no batismo, confirmados no crisma, fortalecidos na comunhão?

Muito nos foi dado e nós pegamos esses talentos e não os usamos bem (Mt 25, 26) permitimos que o medo fosse instalado no lugar errado, não tememos mais desagradar a Deus, não tememos pecar contra Ele, estamos sempre justificando que Deus é Misericórdia, voltamos a temer apenas a nós mesmos, tememos por nossas vidas e nada mais, dessa maneira afundamos no egoísmo.

Não vos digo que devamos sair na rua ignorando uma doença que muitos de nós não sabe como é transmitida, tão pouco como tratá-la, isso seria igualmente egoísta para com os outros. Porém vos digo que precisamos permitir que Jesus entre em nossas vidas fechadas, para nós oferecer a paz, a paz que é capaz de organizar o nosso eu, de por o medo no lugar certo, de nos apontar um caminho seguro, compreendendo que a segurança que vem Dele não garante sempre sorrisos nessa vida, essa vida é o caminho, não o destino, o destino que Ele preparou para nós é a mais magnífica demonstração de seu amor e de sua misericórdia por nós, mas para isso precisamos por o nosso medo no lugar certo, para trocarmos os medos superficiais deste mundo, pelo Temor de Deus, um dom profundo e eterno.

Que este domingo, não seja mais um domingo para agir como se Deus fosse um pateta que tudo perdoa, mas para permitir que Ele fale no nosso mais profundo ser e diga “a paz esteja convosco” (Jo 20, 19b) e por essa paz coloquemos o nosso medo onde ele precisa está, para que consigamos a força necessária para mudar nossas vidas e salvar nossas almas, num processo diário de conversão, da nossa menor até a nossa maior ação.

Percebam Deus nos pequenos detalhes

Graça, Paz e Misericórdia