Ouça aqui e compartilhe

Nos últimos dias fomos bombardeados por imagens fortes e notícias entristecedoras, que acabaram por produzir reações controversas que geraram mais imagens fortes e mais notícias entristecedoras. Seria esse um loop infinito que nunca vamos conseguir romper?

Pensando sobre isso, sobre como poderia romper esse loop, lembrei de uma incidente que aconteceu comigo a pouco mais de um ano. Fiquei preso no aeroporto depois que minha conexão foi cancelada e fui informado que só poderia embarcar em um voo que só decolaria às 19:45h, por ser ainda por volta das 7:30h tinha o dia inteiro pela frente, pensei varias vezes em sair do aeroporto e dar um giro pela cidade, mas estava casado pois estava viajando a um dia e meio e acabei fazendo o que muitos viajantes fazem nessa situação, procurei um banco sentei e até tirei um cochilo.

Próximo do horário do almoço fui procurar o restaurante indicado pela companhia aérea para almoçar e foi quando passei por um senhor, aparentava ter uns 80 anos, ele estava tentando por sua bagagem no carrinho mas não estava conseguindo, eu me aproximei dele e perguntei se ele precisava de ajuda, ele agradeceu dizendo que sim. Arrumei a bagagem dele no carrinho, o acompanhei até o elevador, subir com ele o deixei acomodado na praça de alimentação, onde ele disse que esperaria o filho.

Voltei a procurar pelo meu restaurante que já começava a pensar que ele não existia, porque simplesmente não o encontrava. Foi quando vi uma carteira no chão, abaixei e peguei a carteira, era uma bonita carteira feminina, daquelas grandes com vários cartões, alguns documentos e provavelmente tinha dinheiro também, mas não abrir para ver. Olhei em volta para tentar perceber se alguém iria reagir a carteira mas dentre as pessoas caminhando de um lado para o outro ninguém fez nenhuma reação.

Meu primeiro pensamento foi levar para algum funcionário do aeroporto, pois é o procedimento padrão de segurança quando se encontra algo abandonado em locais assim. Olhando em volta para identificar algum eu vi bem a minha frente uma mulher muito elegante, a única coisa que chamou mais a minha atenção do que sua elegância foi sua bolsa que não só combinava com a carteira que eu tinha acabado de pegar no chão, como também estava aberta.

Eu coloquei a mão para trás e disse “senhora, sua bolsa está aberta” ela respondeu com um obrigado suave e colocar a mão na bolsa fez uma expressão de espanto dizendo “perdi minha carteira, será que deixei no taxi”. Eu lhe estendi a mão sem dizer nada e pegou a carteira agradecida, eu lhe disse que estava ali no chão e ela concluiu que não havia posto direito na bolsa quando saiu do taxi, depois de mais uma vez me agradecer foi despachar sua bagagem e eu seguir procurando o bendito do restaurante.

Já estava repetindo o terceiro giro completo pelo aeroporto sem encontrar o restaurante, então vi um agente de limpeza próximo a entrada de um dos banheiros e fui até ele para pedir informação, se tem alguém que sabe onde fica tudo de qualquer empresa é o agente da limpeza. Mas antes que eu fosse até ele, um homem aproximou-se e me perguntou se eu poderia emprestar meu telefone para que ele pudesse fazer uma ligação, antes que eu respondesse ele se antecipou afirmando que faria a ligação a cobrar e que seria rápido, eu emprestei, mas quando ele olhou para o meu aparelho disse que era melhor eu digitar porque ele não saberia lidar com meu telefone, eu disquei e entreguei a ele quando começou a chamar.

Ele falou ao telefone, procura algum parente no aeroporto que não sabia onde estava, por educação busquei evitar ouvir a conversa, mas estava perto e algumas coisas era inevitável ouvir. Ele terminou e me entregou o telefone sem desligar me pedindo que eu desligasse para ele. Eu desliguei, ele me agradeceu e foi embora, enquanto ele ia encontrar seus parentes, eu voltei a minha saga de encontrar o famigerado restaurante.

Abordei o agente da limpeza pedindo ajuda, ele foi gentil e apontou-me para onde eu deveria ir, mas me fez um alerta que eu não esperava. “Rapaz, quando chegar lá deve está fechado ainda, só abre às 12:30h por isso você deve ter passado em frente e não percebeu”

Eu olhei para o relógio e pensei, “já são 13h, deveria está aberto”, e ele percebendo a minha expressão disse sorrindo que ali não se aplicava o horário de verão. Eu agradeci e fui caminhando sem entender, porque meu relógio deveria atualizar para a hora local automaticamente junto com meu celular, foi então que percebi que não tinha desativado o modo avião do relógio e ele estava me mostrando a hora do outro estado. Sentei-me na praça de alimentação e fiquei rindo de minha própria falta de atenção, já caminhava no aeroporto a mais de meia hora procurando um restaurante que nem estava aberto ainda.

Sentado fiquei observando e vi o idoso com duas crianças que por aparência eu presumir serem seus netos, estavam tomando suco enquanto um casal lidava com suas grandes malas e pensei “ao visto seu filho chegou”.

Vi a mulher muito elegante passar para o embarque e notei algo que sequer tinha notado antes, ela era mulçumana o que eu estava achando tão elegante em seu estilo de vestir-se na verdade era também parte da expressão de sua fé.

Quando finalmente o restaurante abriu e entrei e fui almoçar, depois do almoço quando sair fui procurar um banco como tomada para por o telefone para carregar e vi aquele homem novamente, abraçava a filha como se não houvesse amanhã, foi um reencontro bonito de ver quando ele a recebeu no desembarque.

Nesse dia, eu aprendi que sempre que eu desembarcar preciso tirar o meu smartwatch do modo avião, mas depois de ver como as pessoas ainda se deixam influenciar tanto pela cor da pele umas das outras, como os ânimos se inflamam facilmente com o diferente e como as reações que deveriam ser contra tudo isso, só vem gerando mais disso que tanto desejam evitar.

Eu percebi uma coisa simples, nesse dia eu só me percebi aprendendo a importância de desativar o modo avião, porque a solução para interromper esse loop infinito eu já tinha, o titulo desse post é “O idoso, a muçulmana, o negro e o faxineiro”, mas só titulei assim para chamar sua atenção para um pequeno detalhe, não pensei em nada disso enquanto estava lá, quando eu os olhei a primeira coisa que pensei não foi em um velho que precisava de ajuda, em uma mulher mulçumana que derrubou a carteira, em um negro que pediu meu telefone ou em faxineiro que tinha obrigação de me ajudar. Eu vi uma pessoa precisando de ajuda, vi uma pessoa que derrubou a carteira, vi uma pessoa que pediu meu telefone emprestado, vi uma pessoa que sabia mais do que eu e talvez pudesse me ajudar.

Quer quebrar o loop infinito que tantas vezes te deixa indignado, que tantas vezes te faz sentir-se mau, que provoca tantas reações com as quais você não gostaria de conviver, não veja cores, não defenda causas, não se apaixone por ideologias. Apenas veja pessoas, defenda pessoas, apaixone-se por pessoas, assim você não só vai romper o loop infinito vai entender que facilmente o título desse post poderia ser “As várias faces de Deus nas pessoas”, a final você olhou para a imagem de capa desse post e viu pessoas nas pedras, então busque ver pessoas nas pessoas e compreenderá que não faz sentido atirar pedras.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.

Imagem: Sharon Nowlan