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O caminho de santidade e conversão não é uma linha reta, não é uma ascendência única, vivenciamos muitos altos e baixos durante a caminhada de fé e a única certeza que podemos ter é que Deus está conosco o tempo inteiro. 

Uma coisa comum a jornada de santidade de praticamente todos os santos são os momentos de pecado e conversão, com raríssimas exceções como a Virgem Maria, no geral os santos de Deus tiveram sim em algum momento de sua vida pecados dos quais precisaram se arrepender. 

Uma segunda coisa em comum aos santos é a clareza e a humildade necessária para não oculta os pecados que outrora cometeram, nenhum santo seja entre os que conviveram com Jesus como Santa Maria Madalena, seja entre os grandes doutores da Igreja como Santo Agostinho, ou seja entre os santos dos tempos modernos como São João Paulo II, jamais negou os pecados que cometeu, mas com clareza os abandonaram pela graça de Deus. 

Observe com cuidado que ao falar sobre não negar os pecados cometidos estou me referindo a admitir a nossa culpa diante de Deus, não estou glorificando pecados, tão pouco os minimizando. Existe uma tendência equivocada em evitar assumir a culpa pelos nossos pecados e em algumas paróquias até usar o termo pecado ficou “fora de moda”, mas se buscamos verdadeiramente a santidade, admitir nossos pecados, arrependermos e buscarmos a reconciliação com Deus é um passo indispensável desse processo. Neste caso, negar, buscar normalizar ou chegar ao ponto de nos glorificar de nossos pecados chega a ser um bizarro desperdício de tempo e esforço para alguém que verdadeiramente busca a conversão para alcançar a santidade. 

Precisamos aprender com os nossos erros, não podemos nunca agir como se nunca tivéssemos errado ou pior, quando sentirmos que estamos certos, renunciarmos à caridade e julgarmos todos os outros como errados. 

No mês de julho o Papa Francisco emitiu um Motu Proprio “Traditionis Custodes” que restringiu a utilização de alguns ritos na celebração da Missa dando autoridade aos bispos para decidirem a respeito em suas dioceses, dentre esses ritos está a famosa Missa Tridentina e devido a isto uma grande comoção e reclamações surgiram na internet. Como quase tudo na internet, com a mesma velocidade que surgiu desapareceu, um mês depois pouco se fala sobre isso e a Santa Mãe Igreja continua sem sucumbir diante das portas do inferno como nos prometeu nosso Senhor Jesus Cristo. 

Mas o que pude observar durante esse curto espaço de tempo é que está nos faltando caridade, está nos faltando desejo de conversão pessoal e do próximo, está nos faltando bom senso e talvez um bom punhado de vergonha na cara. Talvez muitos dos defensores do rito da Missa Tridentina sejam como eu (embora eu não faça dela grande defesa) pessoas que a muito tempo aprenderam que certas danças, gestos, músicas, vestimentas etc., que por alguns motivos são tão populares em nossas celebrações, não sejam adequadas e as evites. 

Para sermos práticos e didáticos, já faz um bom tempo que eu aprendi que determinados momentos durante a celebração da Santa Missa não são compatíveis com palmas e dancinhas, mas estaria eu sendo um completo hipócrita se tentasse negar que tal prática fez parte do meu processo de conversão na infância e que considerava aquilo divertido. Com isso não estou dizendo que o erro deva ser propagado contando com a misericórdia de Deus para fazer uso daquilo para atrair uma alma para Ele, mas seria ridículo eu apenas me por como superior diante dos que ainda não aprenderam quais são os momentos propícios para palmas e gestos na Santa Missa e que tudo em contrário está errado e desagrada a Deus. 

Longe de mim vir aqui dizer o que agrada ou não a Deus, pois essa missão Ele confiou a Sua Igreja, como membro dela só me cabe a intrínseca responsabilidade de passar o ensinamento a diante. Tal responsabilidade  cabe a todos nós, pois qual seria o sentido da nossa jornada em busca pela santidade se ela só for usada para apontar erros nos outros? Erros que conhecemos bem, pois já os cometemos tantas vezes. 

Não podemos confundir passado com tradição, a tradição da Igreja é a fé dos Santos Apostos em Jesus Cristo que perdura pelos séculos, passado é apenas a maneira com as coisas aconteceram em um dado período do tempo. Uma Missa em Latim não é passado, é presente, é a maneira como muitos santos celebraram, celebram e celebrarão a graça e o sacrifício de Deus, é a tradição viva da Igreja. Pensar que a Missa celebrada em um idioma moderno para alcançar mais pessoas, com um rito que preserve a comunhão e a unidade da Igreja torna a Missa menos relevante, menos válida ou menos importante é ancorar sua fé em um passado que você não viveu, não entendeu e decidiu tentar imitar para parecer mais santo na internet. Quanto a isso, cabe-nos lembrar das palavras de Cristo a Pedro, 

“Para trás de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, e não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens”.

Mt 16, 23b

Ele corrigiu a pedra sobre a qual Ele escolheu edificar a Igreja, quem dirá o quanto precisa ainda corrigir a cada um de nós, em grandes pecados e nos pequenos também.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.