Quantas vezes por dia você se depara com algo que você não gosta ou não concorda, com algo que você com certeza deseja que fosse diferente e outras que você gostaria que sequer existissem? É possível que muitas vezes, mas se diante de tantas coisas você sente essa insatisfação o quê fazer?

As reações são das mais variadas por não existir resposta certa diante de tais situações, as vezes é necessário silenciar, noutras é preciso agir para corrigir, por muitas vezes o exercício de conviver com tudo e todos a nossa volta é um desafio de equilíbrio delicado.

Nos dias atuais, infelizmente vivemos os extremos onde não deveríamos viver e relativizamos o que realmente precisamos viver no extremo da certeza. Em tempos onde tudo é relativo e há quem diga que a terra é plana, nosso maior risco como católico é esquecer o motivo pelo qual precisamos fazer as coisas.

Hoje eu costumo brincar resumindo a maioria dos católicos e três grupos, o grupo do “não julgueis” que são os católicos que caíram no erro da permissividade onde tudo é permitido porque Deus é uma especie de tonto que tudo permite e nada cobra daqueles que contra a Sua vontade deliberadamente escolhem agir a todo momento.

O grupo dos “eu sou santo e pronto” que são os católicos que caíram no erro da lei acima de tudo, onde Deus se tornou uma espécie de algoz implacável que a cada segundo está torcendo para que cometamos mais um erro para nos condenar como se condenarmos seja o mais divertido passatempo de Deus.

E o terceiro grupo, são os católicos, apenas isso, são católicos, a maioria de nós que sabemos nosso lugar no mundo, reconhecemos nossos erros e sabemos que precisamos lutar contra o pecado e buscar a santidade.

A maior parte do tempo você tem os grupos um e dois debatendo entre si e usando o terceiro grupo que é naturalmente mais silencioso como parte de suas discussões. O mais curioso disso é que todos fazem uso muitas vezes dos mesmos argumentos e das mesmas passagens bíblicas, eles leem o mesmo texto, mas dão intonações diferentes fazendo com que o sentido do texto se transforme de acordo com a sua vontade.

Recentemente fui convidado a participar da etapa número 2 de uma famosa correção fraterna, a partir dessa correção é que a pessoa que convidou-me sugeriu este tema do sobre. Caso você não saiba do que eu estou falando leia Mateus 18, 15-20 e vai entender, é a passagem que trata da famosa orientação que Jesus dá sobre como corrigir um irmão que está no erro. Etapa um, conversa com ele em particular. Etapa dois, chama mais duas testemunhas. Etapa três, entrega a igreja. E por último se nem a igreja ele ouvir, trata-o como pagão.

Pelo que percebi eu era a testemunha número dois, pois a outra pessoa já sabia de todo o ocorrido. Naquele momento a grande questão que se discutia era, como deveria ser o pedido de desculpas, que fosse compatível com a falha cometida. Questões como na frente de quem deveria ser pedida, o quê deveria ser oferecido como desculpa e outras mais estão em pauta.

Foi nesse momento que eu pensei, a correção estava ali, mas a fraternidade ainda não tinha chegado. O ponto central da correção fraterna não é a correção mas sim a fraternidade, se retornarmos ao texto com cuidado vamos encontrar lá uma frase muito especial já na primeira etapa,

“Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão.”

(Mt 18, 15b).

Jesus deixa bem claro que a intenção da correção fraterna não deve ser reparar seu orgulho, sua honra, o dano material que você sofreu ou qualquer coisa que você sinta prejudicada com o erro que o irmão cometeu contra ti. A correção fraterna é para ganhar algo muito mais importante de volta, o teu irmão, é trazer o teu irmão pecador de volta para ti, de volta para a igreja e principalmente de volta para Deus, as outras coisas são secundárias.

Como nos ensina Santo Agostinho, a correção só é obra boa se a mesma for feita para levar a alma corrigida de volta para Cristo, qualquer coisa fora disso, pode até parecer justo ao olhar dos homens, mas não é obra boa aos olhos de Deus.

Quando estamos diante de uma situação como essa, antes mesmo de iniciarmos a correção precisamos pensar e entender dentro de nós mesmo qual a motivação que nos leva a corrigir, isso é importante porque não é apenas a salvação do irmão que está em jogo, mas também a nossa, pois não podemos esquecer que,

“Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?”

(I Jo 4, 20).

Pois a todo momento suplicamos a Deus que,

“E perdoa-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido.”

(Mt 6, 12).

Buscar ganhar a alma do irmão que erra de volta para Deus, é um ato de amor duplo, pois não é uma alma que se resgata por si só, mas duas, a de quem ofende e a de quem é ofendido.

Em tempos de grandes polarizações precisamos cada vez mais evitar os extremos da permissividade de que tudo pode, sim sabemos que tudo nós é permito, mas precisamos lembra que nem tudo nos convém (I Cor 6, 12), como também precisamos evitar viver o rigor desmedido da lei, pois a lei só tem seu cumprimento no amor de Deus e fora Dele a lei não faz sentido (I Jo 5, 13), o equilíbrio entre essas duas realidades fazem de nós bons católicos, concientes de que sem Cristo não somos nada e que nos distanciando do irmão, nos distanciamos de Deus.

Mas se você está se perguntando, como terminou a segunda etapa da correção fraterna para a qual fui convidado, ainda não terminou, mas continuo rezando a Deus para que a solução venha conforme a vontade Dele e não a nossa, acredito que em algum momento em um simples detalhe Ele nos mostrará um caminho de volta ao seu coração, espero que não percamos de vista esse detalhe e se Ele já nos mostrou, que tenha misericórdia de seus filhos cegos que ainda não viram.

Assim é a vida, nem sempre acertamos na primeira tentativa e nem sempre somos capazes de percebemos Deus nos pequenos detalhes logo de imediato.

Graça, Paz e Misericórdia.