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No início do advento somos convidados a viver um tempo de espera, esse que precisa ser um tempo de vigilância, como alerta o próprio Jesus “o que vos digo, digo a todos: Vigiai!” (Mc 13, 37) na liturgia do primeiro domingo do advento. Mas nossa obrigação não deve ser apenas conosco, estarmos prontos e vigilantes vai além de colocarmos a nossa vida de volta aos trilhos da vontade do Pai Eterno, a nossa obrigação enquanto católicos é também ajudar nossos irmãos a fazerem o mesmo.

Não por acaso, a liturgia do segundo domingo do advento nós presenteia com uma missão “preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!” (Mc 1, 3b), pois de nada valera nossa retidão diante da lei de Deus se não formos capazes de estender esse amor ao nosso irmão.

Dentro da realidade de cada um, somos chamados a ir a frente de Jesus como mensageiros, preparando o caminho para sua chegada e em tempos incertos de Covid-19, preparar esse caminho tem muitos significados.

Na segunda-feira eu visitei meu padrinho de crisma, como sempre fui bem recebido em sua casa, por ele, sua esposa e seu filho. Uma família que vive um duplo tempo de feliz espera, pois ela está na fase final da gestação de uma menina que promete viver seu primeiro Natal do Senhor com poucos dias de vida. A experiência de observar aquela família, por quem nutro muito carinho e ouvir o primogênito deles dizer que vai ensinar a irmã a comer quando ela nascer foi impagável. A Partilha de uma longa conversa recheada de desabafos, lembranças, risadas, planos para o futuro e muitos conselhos trocados, preencheu a minha segunda-feira e naquele dia eu não conseguia pedir outra coisa durante a oração do terço que não fosse pela famílias.

Na terça-feira eu tinha um compromisso que precisou ser adiado por motivos de força maior, por isso decidir ir visitar uma amiga que está enferma. Antes de ir, ela perguntou se eu ia demorar, eu brinquei dizendo que não, que ia chegar por volta das 14 horas, comer bolo e ir embora (sim havia bolo na casa dela). Entre conversas aleatórias sobre animes e reflexões sobre a vida pastoral, eu saí da casa dela às 22 horas, depois de me certificar que ela tinha tomado o remédio e conferir a caixa para saber se ela estava tomando regularmente como o médico havia receitado. Talvez ela não tenha percebido, que embora já nos conheçamos a muito tempo, aquela terça-feira foi o dia que mais tempo passei em sua casa. Ela mandou-me mensagem agradecendo a visita e eu brinquei agradecendo de volta dizendo que visitar os enfermos também é obra de misericórdia, e naquele dia eu só tinha uma coisa a pedir durante a oração do terço, o consolo dos doentes. 

Hoje, quarta-feira, eu me levantei cedo, organizei o meu setup de trabalho, mas não era para mim dessa vez. Minha mãe tinha audiência on-line para tratar de sua separação (sim minha mãe agora é separada, desculpem-me por isso), como ela não tem muita habilidade com esse tipo de solução para vídeo conferência, eu deixei tudo pronto e fiquei lá de prontidão do lado para se algo desse errado. Dentre várias coisas, eu precisei assistir minha mãe chorar durante os vinte minutos finais da conferência. Quando tudo terminou eu comecei a conversar com ela e um tempo depois já estamos sorrindo de algumas daquelas situações, algumas feridas não cicatrizam rápido, mas não é por isso que simplesmente devamos deixar que as pessoas fiquem chorando sobre a ferida sozinha. Durante o almoço ela agradeceu eu brinquei agradecendo de volta dizendo que consolar os tristes também é obra de misericórdia. Esta noite eu não sei bem o que esperar de mim mesmo durante a oração do santo terço, mas sei de uma coisa, quando meu padrinho agradeceu a visita na segunda-feira, eu deveria ter brincado com ele ao agradecer de volta, e dito que rezar pelos vivos e pelos mortos e dar bom conselho também são obras de misericórdia. 

Eu sei que nesses tempos incertos nem todos podem sair de casa e se não podem não façam, pois a prudência também é uma virtude, mas o caminho que Deus te convida a trilhar pode estar na sua frente, sentado do seu lado no sofá da sala. A uma ligação de distância, só esperando você ligar para se sentir mais vivo, mais amado, mais com Deus. Talvez hoje você deva abrir seu WhatsApp e responder a todos que esperam por uma resposta sua, pois por mais simples que seja o ato, ele pode sim ser um ato que prepara o caminho para a chegada do Salvador. Precisamos aprender com a humildade de João Batista, 

“Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias”.

(MC 1, 7b)

Não existe ato nosso que possa ser considerado grande na presença de Deus, mas Deus reconhece a grandeza de nossos pequenos atos oferecidos a Ele, é por isso que a menor das ações feita com amor a Deus pode gerar o maior dos resultados. São esses pequenos detalhes que fazem do tempo da espera, o tempo da feliz espera, porque Deus nos faz felizes nos pequenos detalhes. O quê faremos amanhã Oh meu Senhor?

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.