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Se há no tempo quaresmal um pecado que precisamos intensificar o combate é o pecado da gula, não por acaso a santa mãe igreja nos recomenda a prática do jejum e da abstinência as quartas e sextas-feiras. Mas se em séculos passados a gula era facilmente associada a pessoas que se entregavam ao desejo insaciável por comida e bebida a ponto de empanzinar-se e embriagar-se constantemente, sua visão foi sendo ampliada com o passar dos tempos, onde a gula também ficou relacionada com o egoísmo de sempre querer mais e mais sem se preocupar com os outros.

Quem cresceu ou vive em família grande, com certeza em algum momento pode ter ouvido da mãe ou do pai dizendo em alguma refeição,

“Ainda tem mais gente para comer!”

Esse alerta, em suas mais diversas formas de falar, que muitos de nós recebemos na infância, ou até na fase adulta, é muito comum nas mais variadas famílias de diversas classes sociais, muito embora no primeiro momento pareça uma necessidade de economizar comida para não faltar, vai além disso, trata-se do combate persistente contra o pecado que o seio familiar faz, combatendo a gula com a virtude da  temperança, por isso, nesse alerta a nossa real leitura precisa ser que devemos comer apenas o necessário sem excessos e é nossa obrigação lembrar do próximo. 

Mas em tempos modernos onde as famílias cada vez menos se reúnem para as refeições, onde é cada vez mais comum nos alimentarmos fora de casa, provermos refeições individuais mesmo quando estamos em coletivo, como lidar com essa situação? 

Para responder a essa pergunta, você precisa compreender como o pecado se apresenta para nós no dia a dia e como geralmente as refeições modernas funcionam. Primeiro, você nunca será convidado a pecar diretamente na sua primeira tentativa porque a mente humana reage de maneira negativa a mudanças brusca e você vai dizer não e aquele que nos tenta sabe disso. 

Vamos ao livro Gênesis, quando a serpente convenceu Eva a comer do fruto proibido, ela não chegou dizendo “partiu desobedecer a Deus e fazer o pecado entra no mundo” ela chegou perguntando a Eva se era verdade que ela não podia comer de nenhum fruto do jardim (Gn 3, 1b). A tentação que se segue apresenta um fruto suculento e a possibilidade de um ganho a mais, ser como Deus, conhecedores do bem e do mal (Gn 3, 5-6).

O mesmo se passa com Jesus no deserto, satanás não se aproxima de Jesus e de imediato o manda ficar de joelhos e adorá-lo (Mt 4, 9), antes ele questiona sua posição diante do Pai e sua fraqueza humana mandando-O transformar a pedra em pão para saciar a fome (Mt 4, 3), mas ao contrário de Eva, Jesus não sucumbe a tentação. 

Agora que você entende como a tentação do pecado se aproxima de nós e o porquê, ficará fácil entender como geralmente funcionam as refeições modernas. Tomemos como exemplo uma praça de alimentação de shopping, a maior parte dos restaurantes ali presentes possuem promoções em formato de combo, o combo nada mais é do que uma maneira de lhe vender mais comida do que você realmente quer ou precisa, ele começa oferecendo para você um item (seja ele um sanduiche, um prato feito, uma fatia de torta ou qualquer outra coisa) por um preço, depois lhe apresenta o combo, um combinado que acrescenta dois ou três outros itens que você não pretendia comprar ou sequer pensou em comer por um valor superior ao da compra inicial, mas que se você fosse comprar os itens separadamente gastaria mais.

Essa falsa sensação de economia, é o alento que o seu cérebro precisa para justificar pagar por algo que você não precisa comer. Agora demos uma volta pelas nossas refeições modernas, isso acontece em todo lugar, seja naquela rede onde dizem que você “ama muito tudo isso” ou a que te trata como um “rei”, ou qualquer outra onde você acaba comprando um combo de comida para uma criança que claramente não irá ou não deveria comer tudo aquilo, mas leva um pequeno brinquedinho qualquer. 

Seja no cinema onde você decide que o combo com a pipoca grande é melhor, mas se estivesse em casa não comeria nem um terço daquilo, mas no combo ele vem com um refrigerante grande, já economiza não é mesmo? Agora pergunta para qualquer profissional de saúde se ele recomenda que você beba 700 ml de refrigerante de uma só vez (encaremos a verdade, o refrigerante é aguado e cheio de gelo kkkkkkk).

E assim você bebe mais refrigerante do que deveria, bebe mais milk-shake do que deveria, toma mais sorvete do que deveria, bebe mais cerveja do que deveria. E quando não faz essas coisas, pode ser facilmente questionado se você está fazendo dieta, se está doente, ou se é por causa da sua religião. Mas a fé católica não te impede de beber nenhum tipo de bebida, ela te orienta a não exagerar e a não se embriagar, a final de contas, cabe salientar que embora a cerveja tenha sido inventada pelos babilônicos, foram os monges nos monastérios medievais que aperfeiçoaram e desenvolveram o processo de fabricação moderno da cerveja que conhecemos hoje. 

O próprio Paulo em sua primeira carta a Timóteo recomenda que ele tome um pouco de vinho pois fará bem ao estomago e as suas enfermidades (I Tm 5, 23), a recomendação do consumo sempre vem com a recomendação da temperança, pois facilmente podemos encontrar na internet fotos do papa Bento XVI tomando cerveja, mas nem mesmo na deep web vai encontrar fotos do santo padre embriagado ao chão de qualquer festa. 

Eu não estou aqui dizendo que as empresas são más, que elas fazem as vezes das tentações do demônio nas nossas vidas, pelo contrário, esses combos existem e são úteis em muitas ocasiões, eu por exemplo compro um combo para quatro crianças, para quatro e não para uma. Não podemos depositar a culpa dos nossos pecados nas empresas por venderem porções grandes de comida, pois ninguém nos obriga a comprá-las. Fazer isso, seria o mesmo que culpar a serpente por Eva ter sido a primeira a comer do fruto proibido, mas fazer isso para justificar o pecado de Eva, seria o mesmo que tirar o mérito de Jesus por não ter sucumbido as tentações de satanás, e dizer apenas que satanás naquele dia não se esforçou o suficiente para tentar Jesus. 

As tentações estão por toda a parte, nós é que precisamos vigiar e orar para não cair nelas (Mt 26, 41), pois a igreja não nos proíbe de comer nenhum alimento nem de beber nenhuma bebida, mas nos pede temperança em seu consumo. Peçamos a Deus a virtude da temperança para evitarmos a tentação da gula em nossas vidas. 

Vivamos a quaresma em cada detalhe e nos pequenos detalhes percebamos a Deus.

Graça, Paz e Misericórdia.