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Hoje eu estava na Santa Missa, Solenidade de Corpus Christi, e um cântico entoando no início da celebração me fez pensar um pouco, um trecho do cântico exaltava uma realidade onde todos seríamos iguais. 

Pensei nisso durante quase toda a Santa Missa, esse fenômeno secular que invadiu a Igreja, estou falando da ideia equivocada de que todos somos iguais, não somos. 

A principal coluna de sustentação utilizada para manter esse erro de pé na mente dos cristãos é o amor de Jesus Cristo. Começam por promover uma ruptura entre o antigo e o novo testamento, como se existisse duas versões de Deus, um Deus rancoroso e vingativo do antigo testamento que deve desaparecer e um Deus amoroso e compassivo que tudo perdoa do novo testamento que deve permanecer em seu lugar. 

Essa ideia por si só já é equivocada e para mantê-la de pé seria preciso ignorar o próprio Jesus Cristo que afirma, 

“Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim revogar, mas cumprir.
Porque em verdade vos digo: Enquanto não passar o céu e a terra, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, sem que tudo se cumpra”.

(Mt 5, 17-18)

Em seguida disso é apresentado a nós uma confusão, na qual se confunde igualdade com amor, talvez em alguns ambientes seculares ou para algumas práticas de caridade a igualdade e o amor possam se assemelhar, mas enquanto verdade de fé são duas realidades muito distintas. 

Deus ama a todos nós igualmente, mas isso não é um mérito de nossa igualdade, é uma grandiosidade do amor de Deus, é o amor de Deus que não se dobra e nem se modifica perante as realidades humanas, por isso o fato de Deus nos amar igualmente, não quer dizer que sejamos todos iguais, pois isso iria de encontro a justiça de Deus e na mesma medida que Deus é amor, ele também é justiça.

Não precisamos de muito esforço para encontrar nas sagradas escrituras exemplos de como Deus reconhece nossas diferenças e nos agracia com individualidades. Para que você não pense que isso é algo apenas no antigo testamento e recorra ao primeiro erro que citei, vou apresentar aqui alguns exemplos do novo testamento.

Para sermos todos iguais, o profeta João Batista teria que ser um homem comum igual a um dos meus ou dos seus primos, mas se assim fosse, estaria então Jesus sendo um mentiroso ao dizer que,

“Eu vos afirmo que dentre os nascidos de mulher não há um ser humano maior do que João. Todavia, o menor no Reino de Deus é maior do que ele”.

(Lc 7, 28)

Pense um pouco mais, se todos os homens fossem iguais, não haveria diferença entre o seu pai e o apostolo São Pedro, o primeiro Papa da igreja de Cristo, ao qual Jesus disse, 

“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”.

(Mt 16, 18-19)

Mas para você aceitar que não há diferença, precisará aceitar que Jesus, o próprio Deus que se fez homem, perdia tempo falando anedotas sem graças e gastando o tempo das pessoas com coisas inúteis. 

Se Jesus estivesse olhando para todos nós como iguais, estaríamos diante de uma realidade onde, foi completo capricho escolher os doze apóstolos (Lc 6), o anjo Gabriel teria considerado algo banal quando foi ter com Maria, mas a sua saudação deixou claro que ela era cheia de graça (Lc 1, 28), Jesus não teria percebido um toque diferente em sua veste feito por uma mulher (Lc 8), ou Ele não teria considerado que convinha, naquele dia, ficar na casa de Zaqueu (Lc 19). 

Sim, Jesus ama a todos nós igualmente, mas em nenhum momento Ele disse que somos iguais, tão pouco que deseja que sejamos iguais, Deus quem nos criou únicos e Ele deseja que entreguemos a Ele nossas individualidades. Assim como somos diferentes nesse mundo, seremos diferentes na vida eterna e o que fazemos nesse mundo vai nos apontar o nosso lugar no Reino de Deus (Lc 7; Lc 12; Mt 10). 

Por isso, nos esforcemos, não para sermos iguais, não precisamos nos moldar ao que o mundo deseja de nós, a liberdade para qual Cristo nos libertou (Gl 5, 1) permite que sejamos únicos e em nossa individualidade sermos parte da Igreja, corpo místico de Cristo (Rm 12). 

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.