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Este post inaugura uma nova série aqui no blog que ganhou o nome de “Sobre”, durante a semana em algum momento eu pergunto para alguém sobre o quê será a publicação e escrevo a respeito daquilo que a pessoa responder, se você que nos lê desejar participar da nossa brincadeira, basta enviar mensagem para nós pelo Instagram ou pelo Twitter do sem nome, ou pelos meus durante a semana dizendo sobre o que deveria ser.

Essa semana estava conversando com uma sem nome e no meio da conversar eu perguntei “sobre o quê deveria ser o post do blog?” ela respondeu “poderia ser sobre laços nessa quarentena” e aqui estamos.

Os laços que vamos construindo durante a nossa vida são dos mais variados, construímos laços que duram semanas, outros duram anos, outros são para a vida inteira. Mas independente da idade que você tenha, é provável que se você provocar a sua memória vai acabar se recordando de alguém com quem você conviveu e criou fortes laços, dividindo bons momentos e hoje por algum motivo vocês não se veem mais.

Durante a pandemia da covid-19, muitas mudanças nos nossos hábitos nos foram impostas e você pode está pensando que não está convivendo com as pessoas por esse motivo, enquanto outras pessoas já estão falando do “novo normal”, das cals, das lives, das mensagens instantâneas e que agora os laços entre as pessoas serão construídos e mantidos no virtual.

Na verdade já era assim a um bom tempo, veja seu histórico de conversas nas suas redes sociais favoritas, uma boa parte das pessoas com quem você conversou ali no último ano, não são pessoas com quem você esteve presencialmente no último ano e isso não é ruim, a tecnologia do nosso tempo nos presenteou com a condição de mantermos laços firmes mesmo a grandes distâncias. Mas se uma boa parte dos seus laços não estão fisicamente próximo, quem são essas pessoas que nos rodeiam o tempo inteiro?

Uma das passagens do evangelho que mais me encanta está em Lucas 7, quando Jesus ouve o pedido vindo de um centurião romano para que possas curar seu servo, o evangelista Lucas demonstra que aquele não era um homem qualquer para o povo judeu, eles destacam como ele era bom e justo, amava o povo e a cidade, tendo lhes construído uma sinagoga, era alguém que poderia sentir-se na condição de receber Jesus em sua casa, já que Jesus andava em meio as pecadores e cobradores de impostos corruptos, adúlteros e leprosos. Mas ele lhe manda um recado a distância, um recado que ouvimos na sagrada liturgia da missa até os nossos dias,

“Senhor, não sou digno de receber-te sob o meu teto: basta que digas uma palavra e o meu criado ficará são” (Mt 8, 8).

Os evangelhos narram como Jesus exalta a fé daquele homem, que em sua humildade deseja apenas uma palavra de Jesus, não para si, sequer para algum parente, mas para um criado. Naquele momento fica claro que o centurião criou para com Jesus um laço poderoso, mesmo sem ter convivido presencialmente com ele, enquanto seus mensageiros e o povo que o conhecia faziam entre ele e Jesus a função que hoje depositamos nas redes sociais e nos apps de mensagens instantâneas.

Mas a pergunta permanece, se estamos usando as redes para manter nossos laços a distância, quem são essas pessoas que estão a nossa volta? Talvez antes de ficar indignado com aquele vídeo fake de alguma tragédia que aconteceu em uma cidade que você nem sabe localizar no mapa sem a ajuda do Google, quando você sai de casa para ir a padaria poderia comprar um sonho recheado para o porteiro do seu prédio, crie ou se for o caso fortaleça seus laços com ele, talvez você descubra que ele não pode comer sonho porque é diabético, mas serão bons minutos de conversa enquanto você passa pela portaria.

Talvez antes de maratonar aquela séria sobre o casal incrível e suas aventuras, você possa conversar com essas pessoas quase estranhas que moram com você e descobrir que elas são um casal com os quais você pode aprender muita coisa e mesmo se não forem um casal, você poderia aprender muito descobrindo bons motivos para não serem, pois aprender com os erros dos outros é menos dolorido do que quebrar a cara sempre com seus próprios erros. Hoje em dia estamos chamando isso de família.

Que tal no lugar de passar a tarde inteira vendo aquelas reprises de reality show culinário, chamar sua mãe, vó, pai, irmão, ou quem sabe sua empregada, alguém na sua casa para fazer uma receita juntos, você pode descobrir que é muito mais divertido sair correndo para a cozinha e tirar do formo um bolo meio solado meio queimado porque vocês se permitiram conviver e acabaram esquecendo do que tinha no forno.

Já que você não pode ir muito longe nesse período o que poderia acontecer se durante uma semana, você deixasse de lado os apps de encontros e arriscasse descobrir o que aquela garota da sua rua lê? Ou quem sabe se você perguntasse o quê aquele menino que sempre está com fones de ouvido gosta de ouvir? Será que você encontraria novas amizades que gostam dos mesmos livros, das mesmas músicas e quem sabe o que mais vocês gostam em comum?

Talvez um dia você possa substituir a live do seu cantor favorito pela cantoria das crianças dos seus vizinhos que estão usando qualquer coisa como instrumentos na entrada de casa, e ambos possam sorrir por algumas horas com isso. E você descubra que aquela pessoa que você sempre vê no caminho indo para a escola, faculdade, trabalho ou qualquer outro lugar é como você, uma pessoa igualmente maravilhosa e quando a pandemia acabar vocês vão sentir que a vida voltou ao “antigo normal”, mas o laço ainda está lá e quando uma das pontas desse laço precisar, a outra vai sentir que é hora de puxar um pouco para apertar o laço.

Nós nunca queremos isso, mas na vida teremos aflições (Jo 16, 33) e quando elas veem são os laços que firmamos que vão nos manter firmes, são nossos laços que nos fortalecem quando estamos tristes por terminar um relacionamento, por termos um mau desempenho no trabalho, por alguma doença que nos acomete, por um problema familiar. Por qualquer coisa que nos acontece sempre aparece alguém para oferecer um abraço, para rezar por nós, para ligar para a emergência, para nos estender a mão de alguma maneira. E isto é sempre o mesmo que avisar a distância, Mestre eu não sou digno de que entre em minha casa, mas não é por mim é por ele, diz uma palavra. Se temos uma certeza nessa vida, é que Ele diz.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.