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“Para tudo há momento, e tempo para cada coisa sob o céu”

(Ecl 3, 1)

Comumente se fala sobre o tempo das coisas, sobre o tempo de Deus e suas ações na nossa vida, é fato que nem sempre o tempo oportuno alinha-se em nossa vida com o tempo no qual desejamos que as coisas aconteçam, quase sempre parece que a nossa vontade dificilmente se alinha com a vontade de Deus para nós e sempre queremos apressar Deus, mas e se permitíssemos viver mais o tempo Dele o que aconteceria? 

Vivemos o tempo da quaresma, o tempo de conversão e penitência, um tempo reservado a mudança interior, todos os anos durante a quaresma realizamos obras de misericórdia, intensificamos nossas orações, respeitamos os dias de jejum e tantas outras ações que praticamos com o desejo sincero de nos aproximar mais de Deus. 

Mas talvez você, assim como eu, pode ter chegado à Quarta-Feira de Cinzas com uma sensação de que não mudaria muita coisa na sua rotina, muitos amigos próximos a mim me convidaram para realizar com eles as ações que eles estavam incorporando nas suas rotinas durante a quaresma, meditações, leituras orantes, terços, novenas, desafios e etc., mas não eram coisas novas para mim, muitas eu já fazia e as outras eu tinha deixado de realizar em detrimento de outras mais compatíveis com a minha espiritualidade. 

Pensando a respeito dessa situação recordei-me de uma pregação que ouvi certa vez, onde o padre afirmava,

“Se você tem vida de oração e sua consciência não lhe acusa nada que você precisa mudar, o que você precisa mudar é sua vida de oração, pois tem algo de errado nela”.

Pensando nisso, realizei meu exame de consciência e busquei a reconciliação com o Pai, e ao fim recebi do confessor minha penitência em uma passagem,

“Produzi, pois, fruto que dê testemunho da vossa conversão”

(Mt 3, 8)

Acolhi em meu coração, mas mantive-me em silêncio, pois era impossível não ler o capítulo inteiro e não pensar que o tratamento usado foi “raça de víboras” e ter plena ciência de que era verdade e mesmo assim ainda não sabia o que fazer. 

No final da semana passada, um panfleto foi enfiado por debaixo da minha porta, era uma pizzaria delivery que havia inaugurado nas proximidades e estavam divulgando sua promoção de inauguração, ignorei o panfleto e o deixei no chão por dois dias (sim eu empurrei para trás da porta e pronto, não estava ficando em casa mesmo). 

No domingo, resolvi dar atenção ao panfleto e pedi a famigerada pizza, aqueles que me conhecem sabem o quanto eu amo (só que não) esperar por atendimento e se estivermos falando de comida a situação fica ainda pior.  Pedi a pizza às 18:55h, às 20:20h o pedido ainda não tinha sido entregue, eu entrei em contato com a pizzaria e ela informou que o pedido já estava a caminho. Algum tempo depois o porteiro informou que havia um motoboy para entrega e eu pensei, finalmente a pizza, mas não, a entrega não aconteceu. Às 21:15h eu entrei em contato com a pizzaria novamente e fui informado que o entregador tinha se confundido e meu pedido tinha sido entregue a outro cliente. Ela perguntou se eu ainda desejava que o pedido fosse entregue, eu perguntei quanto tempo mais e ela afirmou que 15 minutos, então eu escolhi esperar mais e autorizei ela refazer. 

Uma amiga que estava comigo esperando a pizza ficou surpresa com a minha decisão e expressou, 

“Era melhor se tivesse cancelado”.

Ela disse isso por saber o que aconteceria em seguida, no início eu apenas deixava de consumir qualquer que fosse o produto ou o serviço de um lugar que me fizesse passar por algo assim, depois eu passei a não recomendar para todo mundo que fosse possível o local. Com o tempo e a formação que possuo, eu passei até a estimar com demasiado nível de acerto quando o estabelecimento iria fechar por situações como essa, acreditem não foram poucos os que faliram. 

A pizza chegou, comemos a pizza e fim. 

Claro que não foi o fim, era inevitável para mim não analisar cada detalhes daquele incidente, desde o panfleto colocado debaixo da minha porta até esperar a noite quase toda por uma pizza, então eu pedir a mesma pizza novamente. Mas dessa vez, numa terça-feira, fora da grande demanda de inauguração e da procura naturalmente maior do final de semana, a atendente no WhatsApp lembrou do ocorrido no domingo e tentou brincar dizendo que dessa vez seria mais rápido. 

Naquele momento eu relembrei de toda a raiva que passei no domingo e perguntei-me por que estava pedindo aquela pizza novamente e pensei que em tempo de pandemia, com tantas empresas fechando e tantas famílias desamparadas, com o que poderíamos ajudar. 

Enquanto esperava a pizza eu fiz uma análise em retrospectiva do fluxo de atendimento dela, quais deveriam ser as perguntas feitas para gerar um atendimento rápido e sem faltar nenhuma informação importante. Mostrei para ela quais pontos geravam os gargalos no atendimento e porque havia problemas. Imaginei que pela aparência jovem do entregador, ele não tivesse mais de 20 anos e passei umas instruções do que ela poderia dizer a ele, de como se portar, de como conferir rapidamente o destino e a entrega, formar de pagamento, manuseio da máquina de cartão, troco com dinheiro em espécie, etc. 

20 minutos de diálogo depois a minha pizza chegou, o jovem sorriu confirmando o local de entrega e o pedido feito, a maneira de pagamento e o troco, sacou o celular e mandou uma mensagem para ela informando que a entrega havia sido realizada e ela me enviou uma mensagem confirmando a entrega comigo e em seguida a confirmação solicitou sugestões de melhoria no cardápio e no atendimento. Limitei-me a responder que hoje estava satisfeito e dei boa noite e ela agradeceu encerrando o atendimento.

No final da noite ela mandou uma outra mensagem agradecendo pelas orientações, disse que eles nunca tiveram uma pizzaria antes e que estavam tentando se organizar, que o marido trabalhava com pizzaiolo em um restaurante que fechou e aquela foi a maneira que eles encontraram para pagar as contas. Assim também eu descobrir que o entregador era filho dela, 19 anos, trabalhava em uma loja de móveis que precisou demitir a todos e fechar. No final, pediu desculpas por está contando sua história para mim que sequer a conhecia, mas se Deus havia tocado em meu coração para que eu dedicasse meu tempo para tentar ajudar, ela achava que era bom que eu soubesse que estava ajudando uma família a continuar de cabeça erguida. 

Respondi apenas “Amém” e desejei que eles continuassem firmes e não perdessem a fé. 

Fiquei pesando que as vezes Ele nos mostra a oportunidade de mudar para melhor, mas deixamos a oportunidade escondida no canto da porta por dois dias (as vezes por anos) porque nosso orgulho não permite nos abaixarmos um pouco, respirar fundo e buscar compreender o outro. 

Foi aí que Ele abandonou completamente as sutilezas de seus detalhes, quando ela respondeu, 

“Amém, continue seguindo um caminho de fé, em muitos outros negócios e famílias suas palavras podem ser sementes de bons frutos, meu querido”. 

Eu não resisti e respondi, 

“Amém! Percebam Deus nos pequenos detalhes. 

Graças, Paz e Misericórdia”.