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Semana passada fiz um paralelo entre o mês da bíblia e o setembro amarelo e por causa disso, uma amiga sugeriu o sobre dessa semana, recordando-me que em setembro também existe a campanha setembro dourado, onde dedica-se o mês para conscientização a respeito do câncer infanto-juvenil. Sim, o mês de setembro é um mês especial para muitas campanhas eu concordo, mas é natural, temos muitas coisas com as quais nos preocuparmos na vida e apenas doze meses por ano, então acredito que se formos procurar com atenção, vamos encontrar as mais variadas campanhas durante os meses do ano.

Talvez o problema seja exatamente esse, temos muitas coisas para nos preocupar e pouco tempo, não é? Sendo assim precisamos escolher as coisas mais importantes, as prioridades que não podem mais esperar e precisam de atenção primeiro, o resto fica para depois. 

Eu não sou médico, minhas únicas formações sobre saúde são as aulas do ensino médio, um curso de primeiros socorros e muito Google, ou seja, não tenho a mínima autoridade para falar sobre câncer de nenhum tipo. Mas arrisco dizer que como qualquer enfermidade, o quanto antes for diagnosticada e tratada melhor, se você fizer uma busca rápida por “câncer infantil” no Google, todos os resultados da primeira página vão lhe dizer exatamente isso, mas esses mesmos resultados também vão lhe dizer para procurar um médico, sob nenhuma circunstância pense que estou estimulando alguém a se tratar com o que vê na internet. 

Hoje peguei um voo e na poltrona ao meu lado estava uma mulher com sua filha no colo, a pequena infante aparentava ter no máximo um ano e meio, ela ficava inquieta e esperneava nos braços da mãe, enquanto a mãe tentava acalmar a pequena sem sucesso. A mulher já bastante envergonhada olhou para mim e pediu desculpas dizendo que a filha não era assim normalmente e que aquela hora ela quase sempre estava dormindo.  Eu olhei para o relógio e vi que passava das duas da madrugada e pensei. 

“Essa hora ela dorme no berço dela, mas não aqui. Deve ser a primeira filha dela, porque até eu sei que voar deixa algumas pessoas mais inquietas do que outras, imagina essa menininha.”

A menina percebeu que meu relógio só ficava acesso quando eu mexia o braço e começou a saga da menina de ficar virada para mim e tentar virar o meu braço, enquanto a mãe tentava a todo custo mantê-la virada para o corredor. Até aí eu ainda não tinha percebido o que estava acontecendo, pois estava rezando o santo terço em silêncio, quando estou em lugares públicos eu rezo em silêncio e conto os mistérios com os dedos, assim evito expor o que estou fazendo, simplesmente porque prefiro manter privada minhas orações pessoais, até porque se não for privada deixa de ser pessoal e passa a ser comunitária (risos). 

Reza a lenda (a lenda que eu inventei agora, (mais risos)) que quando você dedica um mistério do terço as crianças e alguma delas estava perto de você precisando de ajuda, Maria intercede fazendo você perceber e tentar ajudar. Lá pelo quarto mistério a menina consegui se virar e bateu com a mão em meu pulso fazendo meu relógio acender, a mãe apreensiva pediu desculpas afastando a menina, foi nessa hora que eu lembrei de um de meus sobrinhos que tinha como passatempo quando era mais novo ouvir o Mickey Mouse falar as horas no meu pulso, girei o braço para ela e quando ela tocou o Mickey respondeu “são duas e quarenta e nove, haha até mais tarde”. A menina ficou rindo e dedicou a meia hora seguinte a ficar ouvindo repetidas vezes o Mickey dizer as horas para ela até que pegou no sono deitada no colo da mãe e apoiada no meu braço. 

Quando a menina pegou no sono a mãe dela me agradeceu pela paciência dizendo que se soubesse que a filha iria se portar assim com tanta frescura, não teria trazido. Eu não respondi nada, não tinha palavras para responder, mas chega a ser engraçado, porque quando abrir a liturgia diária, lá estava. 

“Pois veio João Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e vós dissestes: ‘Ele está com um demônio!’ Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e vós dizeis: ‘Ele é um comilão e beberrão, amigo dos publicanos e dos pecadores!’ Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos.”

(Lc 7, 33-35)

Eu terminei de ler, virei para ela e perguntei, “a senhora sempre dorme tarde?”, ela sem pensar respondeu que não, que se sentia incomodada em voos longos e os ouvidos ficavam doloridos, por isso não conseguia dormir em voos. Eu sorrir e respondi “então a frescura pode ser de família”, ela ficou muito sem graça na hora, mas com o decorrer da conversar ela percebeu que não é porque não há um motivo aparente para a criança está inquieta, que ela está com frescura e só. 

Nessa vida moderna que grita por nós pedindo sempre mais, quais serão as nossas prioridades, vivemos hoje em um mundo onde todos querem nossa atenção, a TV, a redes sociais, os serviços de streaming de música e vídeo, os podcasts, as mensagens instantâneas, os estudos e o trabalho, são tantas coisas exigindo nossa atenção, querendo ser nossa prioridade que talvez não sobre muito da nossa atenção para entender que uma menininha precisa de mais do que um grito de fica quieta para ficar calma dentro de uma caixa de metal gigante que faz barulho. 

Não fique supresso com isso estamos falando de uma menininha de menos de dois anos, você acha que ela tem diploma de engenharia aeroespacial pelo ITA? Para ela aquilo era só uma caixa gigante cheia de gente estranha dentro. Digo isso, porque se em uma situação tão peculiar como essa ainda é difícil entender os sinais de uma criança, o quão difícil deve ser lidar com o câncer infanto-juvenil? 

Muito falamos sobre crianças, mas a verdade é que no geral nossa sociedade não é pensada para que nós nos preocupemos com elas, elas não são nossa prioridade. Hoje em dia criança combina com babás e cuidadoras desde os seis meses de idade, combina com hotelzinho desde os dois anos, combina com creche desde os quatro anos, combina com escola desde os cinco anos, combina com curso de idiomas, combina com escola de música, combina com escola de dança, escola de todo o tipo de arte ou esporte que for possível. 

Enquanto combinamos crianças com tudo isso, respirando fundo dizendo que fazemos isso porque estamos pensando no futuro da criança, afagamos nossa consciência de um fato inevitável, terceirizamos tudo que diz respeito a nossas crianças e dedicar atenção a elas não é mais a nossa prioridade. Enquanto nosso Senhor Jesus Cristo pede,

“Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas.”

(Mt 19, 14)

Nós a cada dia as afastamos mais e quanto mais as afastamos menos conseguimos perceber seus sinais, ao ponto de tal qual a geração que Jesus denuncia não fazer diferença se não comem e não bebem ou se comem e bebem com os outros, corremos o risco de sempre as olhar e nunca estarmos satisfeitos, sempre as rejeitando como o próprio Cristo foi rejeitado.

Pois neste mês de setembro repleto de significados façamos da palavra de Deus a verdadeira prioridade das nossas vidas. Quando a voz de Deus for a primeira a ser ouvida, os sinais de uma criança serão sempre prioridade e quanto mais cedo podermos dar atenção a estes sinais, maiores serão as chances das nossas crianças um dia poderem dar atenção a nós.

A final, se não formos capazes de perceber Deus nos pequenos sinais de uma criança, em quais detalhes O encontraremos?

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.