Movendo-se pelo mundo como católico
Sobre o verdadeiro sentido do Natal
Sobre o verdadeiro sentido do Natal

Sobre o verdadeiro sentido do Natal

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Quando eu era criança eu não gostava do Natal, tudo que eu via durante o mês de dezembro era bastante artificial e sem sentido para mim. Comerciais de mesas fartas, casas bem decoradas, presentes, reuniões de famílias, crianças felizes brincando etc. Nada muito diferente do que facilmente pode ser encontrado hoje e que para mim não passava de uma ficção estranha e sem graça. Eu preferia outro tipo de ficção, Godzilla, Power Rangers, Naruto e até Os Vegetais eram ficção uma muito mais agradável para mim, porque a possibilidade de um tomate começar a conversar e contar histórias bíblicas para mim era muito mais plausível do que toda aquela coisa de Natal. 

Não me interprete mau, eu fui catequizado na fé cristã desde criança, eu já sabia o que era de fato o Natal para o católico e a ideia de uma criança deitada em um estábulo fedido com alguns animais aleatórios ao redor e pessoas desconhecidas que passam para vê-la, na minha realidade era muito mais fácil não só de imaginar, mas de acreditar do que a de uma família reunida, sorridente, com mesa farta, muitos presentes e coisas do tipo. 

Por favor, não se sinta mau se você viveu muitos natais perfeitos iguais aos dos comerciais da TV, essa não é a minha intenção. Mas façamos juntos um exercício diferente, reflitamos não sobre o sentido do Natal, mas sim sobre onde, como e quando o Natal faz sentido. 

Se pararmos para refletir um pouco sobre o onde, vamos chegar à conclusão de que o lugar é muito importante e ele tem um grande poder sobre sentido do Natal e não precisamos ir muito longe, quando me refiro ao onde, não estou querendo levar a conversar a diferentes culturas ao redor do mundo. Na mesma rua ou no mesmo prédio aí de onde você mora já é um onde suficientemente distante para influenciar no sentido do Natal. Em uma residência com uma realidade mediana é muito provável que o Natal tenha algum sentido, aqui você pode entender como realidade mediada uma realidade onde não há abundância, mas há o suficiente para que todos na residência possam se alimentar, pode não haver muitos recursos para grandes compras, mas há o suficiente para comprar o essencial e eles embora não tenham passado o ano inteiro felizes, podem sorrir uns para os outros e desejar de maneira sincera que todos sejam felizes. 

Agora olhemos para o como, vocês devem ter percebido que na descrição da residência mediana, não falei sobre Papai Noel, Jesus Cristo e nenhuma coisa relacionada a eles, foi proposital e vou fazê-lo agora. O como influencia o Natal de maneira evidente e é frequentemente no como que as pessoas costumam se apoiar para falar sobre o sentido do Natal. Se voltarmos a nossa residência mediana e pensarmos como eles farão aquelas coisas que sabemos que eles podem fazer, sim podemos ter vizinhos comemorando o Natal de maneiras muitos diferentes e dando sentidos bastante distintos, uma residência de orientação cristã, facilmente olhará para a refeição da noite de Natal com um olhar de gratidão a Deus, as compras do que cada um precisa será feita com uma ponderação de humildade e as felicitações estarão acompanhadas de preces e orações ao Deus Menino. Mas se a residência não possui uma orientação cristã, o sentido do Natal tem ali uma abordagem menos previsível, pois a posição de destaque nas ações deixa de ser o nascimento de Jesus e pode ser qualquer outra coisa, aqui um destaque, não quer dizer que essa outra coisa seja ruim, ela pode ser boa, é nesse contexto apenas muito difícil de saber por que de fato pode ser qualquer coisa. 

O quando que desejo observar aqui é um momento no tempo, mas não uma data em específico, um momento no tempo da vida de cada um. Ao voltarmos para a nossa residência mediana e pensando que em nosso exemplo essa residência possui vários residentes e esses residentes estão em momentos diversos da vida, o sentido do Natal vai mudar drasticamente para cada um, porque o quando de cada um é diferente. Imaginemos uma família onde cada membro está em um momento diferente, por exemplo, o pai e a mãe, adultos, trabalham, se preocupam com a família podem ter no Natal um sentindo fraterno, de união e cuidado. Os avós, aposentados, que oferecem suporte e conselho aos mais jovem da família podem ter no Natal um sentido de tradição e continuidade. Os filhos, adolescentes, em fase de transição para a vida adulta, podem ver no Natal uma comemoração para pedir o que desejam, para comerem bem, para aproveitar com a família e amigos. E mais uma vez, eu passei sem citar o Papai Noel ou o Menino Jesus, pois todas essas coisas podem acontecer em qualquer como. 

Acredito que você foi pensando em muito mais possibilidades sobre onde, como e quando que pode influenciar no sentido do Natal e estamos falando apenas dessa nossa residência mediana. E isso é muito importante, porque quando saímos das residências mediadas existem muitas residências com um onde muito diferente, sem ter o que comer, sem poder comprar o mínimo para as suas necessidades, mas calma, isso não é uma tentativa de fazer você sair correndo se preocupando com os pobres, pois existem muitas outras residências que possuem demais, comida em excesso a ponto de estragar, acúmulo de coisas que são compradas e nunca são realmente utilizadas. Além de tudo isso, o problema mais comum das residências, pessoas que se tornaram incapazes de desejar de maneira sincera algo de bom para aqueles que com ela residem. 

Residências repletas de maneiras exóticas de entender o mundo, que fazem do como um desafio ainda maior, não é apenas uma questão de ser ou não ser cristão, no extremo de alguns casos, é uma questão de compreender o que é o cuidado humano a ponto de não compreender que é um ser humano. Talvez muito desse como seja exponenciado pelo quando, a final cada momento da vida nos faz compreender o sentido de tudo de uma maneira diferente.  

Eu levei um certo tempo para compreender que o que eu menos gostava do Natal era o fato de que todos os anos ele despertava em mim com muita força pecado da inveja, não era culpa ninguém, muito menos do Natal, eu apenas tinha inveja das famílias reunidas, das mesas fartas, dos presentes oferecidos, nesse caso apenas dos oferecidos mesmo, eu gosto de presentear, mas não sou muito de receber presentes, nunca sei como agir com essa situação. 

Depois que eu entendi isso e cresci um pouco mais, eu comecei a ganhar algum dinheiro e adotei uma estratégia simples, entre os meses de fevereiro e novembro do ano, toda moeda que conseguia eu guardava, quando chegava no mês de dezembro tinha uma sacola cheia de moedas. Eu ia até o supermercado com ela, comprava tudo que eu podia, fazia um pequeno tumulto na fila do caixa porque levava muito tempo para a operadora contar tudo aquilo (época boa, no terceiro ano o gerente do supermercado pediu para eu deixar a sacola de moedas um dia antes para evitar o tumulto da fila), eu levava para casa e preparava tudo. Depois reunia a família, a de sangue e a da Cristo e vivia ali o sentido do meu Natal. 

Com várias outras pessoas que tinham seu próprio sentido de Natal, que possuíam seu próprio onde, como e quando. Casados, solteiros, namorando, trabalhando, desempregados, expresidiários, estudantes universitários, semianalfabetos, ministros extraordinários da sagrada comunhão, ateus, crianças, jovens, adultos e idosos. Era uma mistura totalmente improvável para quem os via de fora, mas eram as pessoas óbvias para eles mesmo porque se algum deles não estivesse por lá, os outros perceberiam sua ausência. 

Por que os escrevo sobre o Natal dessa maneira? Para que vocês não se sintam sozinhos e deslocados no Natal e dele não consigam tirar nenhum sentido. Porque eu aprendi que existem muitos caminhos até chegarmos ao verdadeiro sentido do Natal, todos passam pela vivência do sentido que conseguimos atribuir ao Natal e o sentido que conseguir atribuir até aqui é que o Natal é tempo de intensificar o esforço para perceber Deus nos pequenos detalhes. 

Graça, Paz e Misericórdia.

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