Movendo-se pelo mundo como católico

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Quem foi Santo Afonso Maria de Ligório?

Santo Afonso Maria de Ligório nasceu em Marianella, perto de Nápoles, a 27 de setembro de 1696. Era o primogênito de uma família bastante numerosa, pertencente à nobreza napolitana. Recebeu uma esmerada educação em ciências humanas, línguas clássicas e modernas, pintura e música. O jovem Afonso recebeu a formação completa para ser um cidadão da classe nobre. Era um jovem normal da sociedade napolitana.

Sua formação humana e espiritual foi esmerada. Sua mãe e seu pai lhe ensinaram um profundo amor a Jesus Cristo visto como o Menino de Belém, o Crucificado, o Jesus da Eucaristia, e Maria. Afonso aprendeu a buscar a perfeição humana e espiritual. Procurava viver na graça de Deus e não pecar. Desde pequeno participa da vida de comunidade, pertencendo a diversos grupos pastorais para convivência, crescimento espiritual e comprometimento com os necessitados. Eram as confrarias.

Pode preparar-se muito bem em sua formação humana. Ele seria o herdeiro. Em seu conhecimento musical comporá músicas que até hoje são cantadas na Itália. Entre elas o Dueto da Paixão, como também o cântico de Natal mais popular da Itália, “Tu Scendi dalle Stelle” (Eis que lá das Estrelas) e numerosos outros hinos. O pai foi exigente em estudos. Aos 12 anos entra para a faculdade de direito onde se forma com 16 anos. Terminou os estudos universitários alcançando o doutorado nos direitos civil e canônico e começou a exercer a profissão de advogado.

Decisão vocacional

Teve grande sucesso em seu desenvolvimento profissional. Vivia sua vida cristã intensa, com sua família e no grupos espirituais em que participava. Mas faltava, como ele diz, a conversão. Esta ocorreu na Semana Santa de 1722. Em 1723, depois de um longo processo de discernimento, abandonou a carreira jurídica, definiu-se pelo Evangelho e, não obstante a forte oposição do pai, começou os estudos eclesiásticos. Foi o primeiro passo de sua caminhada.

Foi ordenado sacerdote a 21 de dezembro de 1726, aos 30 anos. Seu sacerdócio foi o segundo passo para a definição de sua vida. Chamamos de êxodo. Seu sacerdócio é para o serviço da pregação e do atendimento as pessoas na confissão e orientação dos fiéis. Viveu seus primeiros anos de sacerdócio procurando atender os marginalizados de Nápoles. Fundou as “Capelas da Tarde”, que eram centros dirigidos pelos próprios leigos para a oração, proclamação da Palavra de Deus, atividades sociais, educação e vida comunitária. Na época da sua morte, havia 72 dessas capelas com mais de 10 mil participantes ativos. Este foi o terceiro passo de sua caminhada espiritual. Começou a dedicar sua vida em favor dos pobres da cidade. 

Em 1729 Afonso deixou a família e passou a residir no Colégio Chinês de Nápoles. Foi aí que começou a sua experiência missionária no interior do Reino de Nápoles, onde ele encontrou gente muito mais pobre e mais abandonada que qualquer menino de rua de Nápoles. Ele fazia parte de uma associação de missionários da cidade de Nápoles. Era o grande pregador. Numa das missões conhece o pobre do campo. Indo fazer férias em um lugarejo, perto de Scala, tomou contato com a situação de abandono humano e espiritual dos pobres do interior.

Fundação da Congregação Redentorista 

Nestas férias conheceu uma irmã do mosteiro de Scala que estava trabalhando na fundação de uma nova congregação de irmãs contemplativas. Ela se chamava Maria Celeste Crostarosa. Estabeleceu-se uma grande amizade que vai durar a vida inteira, tanto é que guardou suas cartas por toda a vida. Ajudou-a na fundação da Ordem do Santíssimo Redentor, no dia 13.05.1731. Ela mesma diz a ele que o “Senhor queria que ele deixasse Nápoles e viesse para Scala para fundar a congregação dos homens para a evangelização”. Afonso, diante da experiência com os pobres, sua experiência pastoral e esta chamada de Deus, deixa Nápoles e vai para Scala “para viver entre os casebres e os currais dos pastores”, como escreve seu primeiro biógrafo. Foi o 4º passo de sua caminhada em seu êxodo em direção aos mais abandonados e por sua resposta ao chamado de Deus. 

No dia 9 de novembro de 1732, Afonso fundou a Congregação do Santíssimo Redentor, popularmente conhecida como Redentorista, para seguir o exemplo de Jesus Cristo anunciando a Boa Nova aos pobres e aos mais abandonados. Daí em diante, dedicou-se inteiramente a esta nova missão. Não estava sozinho. Os primeiros companheiros, animados, não chegaram a um acordo e o deixaram só. Depois, lentamente vieram outros com grande força apostólica e muita santidade. Entre eles, temos o Beato Sarnelli, S. Geraldo e outros padres jovens animados pelo mesmo ideal de dar a vida pela Copiosa Redenção. Hoje já são 5.500 redentoristas. 

Uma vida dedicada à evangelização

Afonso era um amante da beleza: músico, pintor, poeta e escritor. Colocou toda a sua criatividade artística e literária a serviço da missão e o mesmo ele pediu aos que ingressavam na sua Congregação. Escreveu sobre espiritualidade e teologia 123 obras, que tiveram 21.500 edições e foram traduzidas em 72 línguas, o que comprova que ele é um dos autores mais lidos. Entre suas obras mais conhecidas estão: O Grande Meio da Oração, A Prática de Amar a Jesus Cristo, As Glórias de Maria e Visitas ao Santíssimo Sacramento. A oração, o amor, a comunhão com Cristo e sua experiência imediata das necessidades espirituais dos fiéis fizeram de Afonso um dos grandes mestres da vida interior. Os livros de espiritualidade eram lidos pelo povo, o que ajudou na formação e na piedade não somente dos letrados, como também dos humildes. 

A maior contribuição de Afonso para a Igreja foi na área da reflexão teológica moral, com a sua Teologia Moral. Esta obra nasceu da experiência pastoral de Afonso, da sua habilidade em responder às questões práticas apresentadas pelos fiéis e do seu contato com os problemas do dia-a-dia. Combateu o estéril legalismo que estava sufocando a teologia e rejeitou o rigorismo estrito do seu tempo, produto da elite poderosa. Conforme Afonso, estes eram caminhos fechados ao Evangelho porque “tal rigor jamais foi ensinado nem praticado pela Igreja”. Ele sabia como colocar a reflexão teológica a serviço da grandeza e da dignidade da pessoa humana, da consciência moral e da misericórdia evangélica. 

Sua Congregação, evangelizando através das missões e dos retiros, vivendo entre os mais abandonados, contribuiu muito com a Igreja na renovação das populações. Seu modo simples de viver e de pregar eram de grande agrado para o povo.

Bispo 

Afonso foi ordenado bispo de Santa Ágata dos Gôdos em 1762, aos 66 anos. Tentou recusar a nomeação porque se sentia demasiado idoso e doente para cuidar adequadamente da diocese. Foi um bispo diferente: pobre, muito dedicado à renovação dos seus padres, do seminário, das paróquias e do povo. Cuidava dos pobres, chegando a dar salário mensal às mocinhas, para não caírem na prostituição por pobreza. Ele não gastava com luxos na diocese, pois dizia que o dinheiro da diocese é dos pobres, o bispo é o administrador. Em uma crise de falta de alimentos, empenhou a diocese para comprar alimentos para  população. Em 1775, foi-lhe permitido deixar o cargo e ele foi morar na comunidade redentorista de Pagani, onde morreu no dia 1º de agosto de 1787. Foi canonizado em 1831, proclamado Doutor da Igreja em 1871 e Patrono dos Confessores e Moralistas em 1950. É um santo a ser mais conhecido, pois tem muito a ensinar para a Igreja de hoje. Sobretudo ele convida aos seus seguidores, sacerdotes, irmãos consagrados e leigos a que façam o caminho que ele fez. Sem fazer seu caminho é impossível segui-lo bem.

Herança espiritual

Santo Afonso de Ligório compreendeu que o caminho que leva à perda da fé começa muitas vezes pela tibieza e frialdade na devoção à Virgem. E, em sentido contrário, o retorno a Jesus começa por um grande amor a Maria. Por isso, difundiu por toda parte a devoção mariana e preparou para os fiéis, e em especial para os sacerdotes, um arsenal de “materiais para a pregação e propagação da devoção a essa Mãe divina”. A Igreja sempre entendeu que “um ponto totalmente particular na economia da salvação é a devoção à Virgem, Medianeira das graças e Corredentora, e por isso Mãe, Advogada e Rainha. Na verdade — afirma o Papa João Paulo II —, Afonso sempre foi todo de Maria, desde o começo da sua vida até à morte” [1].

Cada um de nós deve ser também “todo de Maria”, tendo-a presente nos seus afazeres ordinários, por pequenos que sejam. E não devemos esquecer-nos nunca, sobretudo se alguma vez tivermos a desgraça de afastar-nos, de que ” a Jesus sempre se vai e se ‘volta’ por Maria” [2]. Ela conduz-nos ao seu Filho rápida e eficazmente.

Santo Afonso morreu muito idoso, e o Senhor permitiu que os últimos anos da sua vida fossem de purificação. Entre as provas pelas quais passou, uma muito dolorosa foi a perda da vista. E o Santo distraía as horas rezando e pedindo que lhe lessem algum livro piedoso. Conta-se que certo dia, entusiasmado com um livro que lhe liam, perguntou quem tinha escrito tais maravilhas, tão cheias de piedade e de amor a Nossa Senhora. Como resposta, quem o acompanhava leu o título: ” As Glórias de Maria, por Afonso Maria de Ligório”. O venerável ancião cobriu o rosto com as duas mãos, lamentando uma vez mais a perda da memória [3], mas alegrando-se imensamente com aquele testemunho de amor à Santíssima Virgem. Foi um grande consolo que o Senhor lhe concedeu no meio de tantas trevas.

Com Maria, chegamos “antes, mais e melhor” às metas sobrenaturais que nos tínhamos proposto.

Os conhecimentos teológicos do Santo e a sua experiência pessoal levaram-no à convicção de que a vida espiritual e a sua restauração nas almas devem ser alcançadas — conforme o plano divino que o próprio Deus preestabeleceu e realizou na história da salvação — por meio da mediação de Nossa Senhora, por quem nos veio a Vida e que é o caminho fácil de retorno ao próprio Deus.

Deus quer — afirma o Santo — que todos os bens que procedem dEle nos cheguem por meio da Santíssima Virgem [4]. E cita a conhecida sentença de São Bernardo: “É vontade de Deus que tudo obtenhamos por Maria”. Ela é a nossa principal intercessora no Céu, quem consegue tudo aquilo de que necessitamos. Mais ainda: muitas vezes, a Virgem adianta-se às nossas orações, protege-nos, sugere no fundo da alma essas santas inspirações que nos levam a viver mais delicadamente a caridade; anima-nos e dá-nos forças nos momentos de desânimo, vem em nossa defesa quando recorremos a Ela nas tentações… É a nossa grande aliada no apostolado: concretamente, permite que as nossas palavras, tantas vezes ineptas e mal amanhadas, encontrem eco no coração dos nossos amigos. Foi esta a freqüente descoberta de muitos santos: com Maria, chegamos “antes, mais e melhor” às metas sobrenaturais que nos tínhamos proposto.

A função do mediador consiste em unir ou pôr em comunicação os dois extremos entre os quais se encontra. Jesus Cristo é o único e perfeito Mediador entre Deus e os homens (cf. 1Tm 2, 5), porque, sendo verdadeiro Deus e Homem verdadeiro, ofereceu um sacrifício de valor infinito — a sua própria morte — para reconciliar os homens com Deus (cf. S. Th. III, q. 26, a. 2).

Mas isto não impede que os anjos e os santos, e de modo inteiramente singular Nossa Senhora, exerçam essa função. “A missão maternal de Maria a favor dos homens não obscurece nem diminui de maneira nenhuma a mediação única de Cristo, antes mostra a sua eficácia. Porque todo o salutar influxo da Bem-aventurada Virgem a favor dos homens não é exigido por nenhuma necessidade interna, mas resulta do beneplácito divino e flui dos superabundantes méritos de Cristo” [5]. A Virgem, por ser Mãe espiritual dos homens, é chamada especialmente Medianeira, pois apresenta ao Senhor as nossas orações e as nossas obras, e faz-nos alcançar os dons divinos.

“As orações dos santos são orações de servos, mas as de Maria são orações de Mãe.”

Maria corrige muitas das nossas petições que não estão totalmente bem orientadas, a fim de que obtenham o seu fruto. Pela sua condição de Mãe de Deus, faz parte, de um modo peculiar, da Trindade de Deus, e, pela sua condição de Mãe dos homens, tem a missão confiada por Deus de cuidar dos seus filhos que ainda somos peregrinos [6]. Quantas vezes não a teremos encontrado no nosso caminho! Em quantas ocasiões não terá saído ao nosso encontro, oferecendo-nos a sua ajuda e o seu consolo! Onde estaríamos se Ela não nos tivesse tomado pela mão em circunstâncias bem determinadas?

“Por que as súplicas de Maria têm tanta eficácia diante de Deus?”, pergunta-se Santo Afonso. E responde: ” As orações dos santos são orações de servos, mas as de Maria são orações de Mãe, e daí procedem a sua eficácia e o seu caráter de autoridade; e como Jesus ama imensamente a sua Mãe, Ela não pode pedir sem ser atendida”. E, para prová-lo, recorda as bodas de Caná, em que Jesus realizou o seu primeiro milagre por intercessão de Nossa Senhora: “Faltava vinho, com a conseqüente aflição dos esposos. Ninguém pediu à Santíssima Virgem que intercedesse junto do seu Filho pelos consternados esposos. Mas o coração de Maria, que não pode deixar de compadecer-se dos infortunados […], impeliu-a a encarregar-se pessoalmente do ofício de intercessora e a pedir ao Filho o milagre, apesar de ninguém lho ter pedido”. E o Santo conclui: “Se a Senhora agiu assim sem que lho pedissem, o que teria feito se lhe tivessem suplicado?” [7] Como não há de atender às nossas súplicas?

Pedimos hoje a Santo Afonso Maria de Ligório que nos alcance a graça de amarmos Nossa Senhora tanto como Ele a amou enquanto esteve nesta terra, e nos anime a difundir a sua devoção por toda a parte. Aprendamos que, com Ela, alcançamos antes, mais e melhor aquilo que, sozinhos, nunca alcançaríamos: metas apostólicas, defeitos que devemos dominar, intimidade com o seu Filho.

Transcrito e reunido dos sites: padrepauloricardo.org a12.com

Referências

Quaresma

Quem é o Papa Francisco?

Perfil Biográfico do Papa Francisco

O primeiro Papa americano é o jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio, 76 anos, arcebispo de Buenos Aires. É uma figura de destaque no continente inteiro e um pastor simples e muito amado na sua diocese, que conheceu de lés a lés, viajando também de metro e de autocarro, durante os quinze anos do seu ministério episcopal.

«O meu povo é pobre e eu sou um deles», disse várias vezes para explicar a escolha de morar num apartamento e de preparar o jantar sozinho. Aos seus sacerdotes sempre recomendou misericórdia, coragem apostólica e portas abertas a todos. A pior coisa que pode acontecer na Igreja, explicou nalgumas circunstâncias, «é aquilo ao que de Lubac chama mundanidade espiritual», que significa «pôr-se a si mesmo no centro». E quando citava a justiça social, convidava em primeiro lugar a retomar nas mãos o catecismo, a redescobrir os dez mandamentos e as bem-aventuranças. O seu programa é simples: se seguirmos Cristo, compreenderemos que «espezinhar a dignidade de uma pessoa é pecado grave».

Não obstante a índole reservada — a sua biografia oficial é de poucas linhas, pelo menos até à nomeação como arcebispo de Buenos Aires — tornou-se um ponto de referência devido às suas tomadas de posição fortes durante a dramática crise económica que abalou o país em 2001. 

Nasceu na capital argentina no dia 17 de Dezembro de 1936, filho de emigrantes piemonteses: o seu pai Mário trabalhava como contabilista no caminho de ferro; e a sua mãe Regina Sivori ocupava-se da casa e da educação dos cinco filhos.

Diplomou-se como técnico químico, e depois escolheu o caminho do sacerdócio, entrando no seminário diocesano de Villa Devoto. A 11 de Março de 1958 entrou no noviciado da Companhia de Jesus. Completou os estudos humanísticos no Chile e, tendo voltado para a Argentina, em 1963 obteve a licenciatura em filosofia no colégio de São José em San Miguel. De 1964 a 1965 foi professor de literatura e psicologia no colégio da Imaculada de Santa Fé e em 1966 ensinou estas mesmas matérias no colégio do Salvador, em Buenos Aires. De 1967 a 1970 estudou teologia, licenciando-se também no colégio de São José.

A 13 de Dezembro de 1969 foi ordenado sacerdote pelo arcebispo D. Ramón José Castellano. De 1970 a 1971 deu continuidade à sua preparação em Alcalá de Henares, na Espanha, e a 22 de Abril de 1973 emitiu a profissão perpétua nos jesuítas. Regressou à Argentina, onde foi mestre de noviços na Villa Barilari em San Miguel, professor na faculdade de teologia, consultor da província da Companhia de Jesus e também reitor do colégio.

No dia 31 de Julho de 1973 foi eleito provincial dos jesuítas da Argentina, cargo que desempenhou durante seis anos. Depois, retomou o trabalho no campo universitário e, de 1980 a 1986, foi novamente reitor do colégio de São José, e inclusive pároco em San Miguel. No mês de Março de 1986 partiu para a Alemanha, onde concluiu a tese de doutoramento; em seguida, os superiores enviaram-no para o colégio do Salvador em Buenos Aires e sucessivamente para a igreja da Companhia, na cidade de Córdova, onde foi director espiritual e confessor.

O cardeal Antonio Quarracino convidou-o a ser o seu estreito colaborador em Buenos Aires. Assim, a 20 de Maio de 1992 João Paulo II nomeou-o bispo titular de Auca e auxiliar de Buenos Aires. No dia 27 de Junho recebeu na catedral a ordenação episcopal precisamente do cardeal. Como lema, escolheu Miserando atque eligendo e no seu brasão inseriu o cristograma IHS, símbolo da Companhia de Jesus.

Concedeu a sua primeira entrevista como bispo a um pequeno jornal paroquial, «Estrellita de Belén». Tendo sido imediatamente nomeado vigário episcopal da região Flores, a 21 de Dezembro de 1993 foi-lhe confiada inclusive a tarefa de vigário-geral da arquidiocese. Portanto, não constituiu uma surpresa quando, a 3 de Junho de 1997, foi promovido arcebispo coadjutor de Buenos Aires. Nem sequer nove meses depois, com o falecimento do cardeal Quarracino, sucedeu-lhe a 28 de Fevereiro de 1998 como arcebispo, primaz da Argentina e ordinário para os fiéis de rito oriental residentes no país e desprovidos de ordinário do próprio rito. Três anos mais tarde, no Consistório de 21 de Fevereiro de 2001, João Paulo II criou-o cardeal, atribuindo-lhe o título de São Roberto Bellarmino. Convidou os fiéis a não virem a Roma para festejar a púrpura, mas a destinar aos pobres o dinheiro da viagem. Grão-chanceler da Universidade católica argentina, é autor dos livros Meditaciones para religiosos (1982), Reflexiones sobre la vida apostólica (1986) e Reflexiones de esperanza (1992).

Em Outubro de 2001 foi nomeado relator-geral adjunto da décima assembleia geral ordinária do Sínodo dos bispos, dedicada ao ministério episcopal. Uma tarefa que lhe foi confiada no último momento, em substituição do cardeal Edward Michael Egan, arcebispo de Nova Iorque, obrigado a permanecer na pátria por causa dos ataques terroristas de 11 de Setembro. No Sínodo, sublinhou de modo particular a «missão profética do bispo», o seu «ser profeta de justiça», o seu dever de «pregar incessantemente» a doutrina social da Igreja, mas também de «expressar um juízo autêntico em matéria de fé e de moral».

Entretanto, na América Latina a sua figura tornava-se cada vez mais popular. Não obstante isto, não perdeu a sobriedade da índole, nem o estilo de vida rigoroso, que chegou a ser definido quase «ascético». Com este espírito, em 2002 recusou a nomeação a presidente da Conferência episcopal argentina, mas três anos mais tarde foi eleito para tal cargo e depois confirmado por mais um triénio em 2008. Entretanto, em Abril de 2005, participou no conclave durante o qual tinha sido eleito Bento XVI.

Como arcebispo de Buenos Aires — diocese com mais de três milhões de habitantes — pensou num projecto missionário centrado na comunhão e na evangelização, com quatro finalidades principais: comunidades abertas e fraternas; protagonismo de um laicado consciente; evangelização destinada a cada habitante da cidade; assistência aos pobres e aos enfermos. O seu objectivo era reevangelizar Buenos Aires, «tendo em consideração os seus habitantes, o modo como ela é e a sua história». Convidou sacerdotes e leigos a trabalharem juntos. Em Setembro de 2009 lançou a campanha de solidariedade a nível nacional, em vista do bicentenário da independência do país: duzentas obras de caridade a realizar até 2016. E, em chave continental, alimenta fortes esperanças, no sulco da mensagem da Conferência de Aparecida, de 2007, chegando a defini-la «a Evangelii nuntiandi da América Latina».

Até ao início da sede vacante foi membro das Congregações para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, para o Clero, para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica; do Pontifício Conselho para a Família, e da Pontifícia Comissão para a América Latina.


Fonte: © Copyright – Libreria Editrice Vaticana

Quaresma

Quem é o Papa Emérito Bento XVI?

Perfil Biográfico do Papa Bento XVI

Joseph Ratzinger nomeado Cardeal em 1977 e Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé em 1981, Decano do Colégio Cardinalício desde 2002 nasceu em Marktl am Inn, no território da Diocese de Passau (Alemanha), a 16 de Abril de 1927. 

Seu pai era um comissário de polícia e provinha de uma família de agricultores da Baixa Baviera, cujas condições económicas eram bastante modestas. A mãe era filha de artesãos de Rimsting, no lago de Chiem, e antes de casar tinha trabalhado como cozinheira em vários hotéis. 

Transcorreu a sua infância e a sua adolescência em Traunstein, uma pequena cidade perto da fronteira com a Áustria, a cerca de trinta quilómetros de Salisburgo. Recebeu neste contexto, que ele mesmo definiu “mozartiano”, a sua formação cristã, humana e cultural. 

O tempo da sua juventude não foi fácil. A fé e a educação da sua família preparou-o para a dura experiência dos problemas relacionados com o regime nazista:  ele recordou ter visto o seu pároco açoitado pelos nazistas antes da celebração da Santa  Missa  e  de  ter  conhecido  o  clima  de grande hostilidade em relação à Igreja católica na Alemanha. 

Mas precisamente nesta complexa situação, descobriu a beleza e a verdade da fé em Cristo e foi fundamental o papel da sua família que continuou sempre a viver um testemunho cristalino de bondade e de esperança radicada na pertença consciente à Igreja. 

Quase no final da tragédia da Segunda Guerra Mundial também foi alistado nos serviços auxiliares anti-aéreos. 

De 1946 a 1951 estudou filosofia e teologia na Escola superior de filosofia e teologia de Frisinga e na Universidade de Munique. 

Em 29 de Junho de 1951 foi ordenado sacerdote. 

Um ano mais tarde, Pe. Joseph Ratzinger iniciou a sua actividade didáctica na mesma Escola de Frisinga onde tinha sido estudante. 

Em 1953 formou-se em teologia com uma dissertação sobre o tema:  “Povo e Casa de Deus na Doutrina da Igreja de Santo Agostinho”. 

Em 1957 fez a livre docência com o conhecido professor de teologia fundamental de Munique, Gottlieb Söhngen, com um trabalho sobre:  “A teologia da história de São Boaventura”. 

Depois de um cargo de dogmática e de teologia fundamental na Escola superior de Frisinga, prosseguiu a sua actividade de ensino em Bonn (1959-1969), em Monastério (1963-1966) e em Tubinga (1966-1969). A partir de 1969 foi professor de dogmática e de história dos dogmas na Universidade de Ratisbona, onde desempenhou também o cargo de Vice-Reitor da Universidade. 
A sua intensa actividade científica levou-o a desempenhar importantes cargos no âmbito da Conferência Episcopal Alemã, na Comissão Teológica Internacional. 

Entre as suas publicações, numerosas e qualificadas, teve particular eco a “Introdução ao cristianismo” (1968), uma colectânea de lições universitárias sobre a “profissão de fé apostólica” 
Em 1973, foi publicado o volume:  “Dogma e Revelação”, que reúne os ensaios, as meditações e as homilias dedicadas à pastoral. 

Teve grande ressonância a sua conferência pronunciada na Academia Católica da Baviera sobre o tema:  “Por que é que eu ainda estou na Igreja?”. Nesta ocasião declarou com a sua habitual clareza:  “Só na Igreja é possível ser cristãos e não ao lado da Igreja”. 

A série numerosa de publicações continuou abundante e pontual ao longo dos anos, constituindo um ponto de referência para tantas pessoas e sobretudo para quantos estão comprometidos no estudo aprofundado da teologia. Basta pensar, por exemplo, no volume “Relatório sobre a fé” de 1985 e no volume “O sal da terra” de 1996. Deve ser recordado também o livro “Na escola da Verdade”, impresso por ocasião do seu septuagésimo aniversário. 

De grande valor, central na vida do Pastor Ratzinger, foi a experiência proveitosa da sua participação no Concílio Vaticano II, nas vestes de “perito”, experiência que ele viveu também como confirmação da própria vocação por ele mesmo definida “teológica”. 

A 25 de Março de 1977 o Papa Paulo VI nomeou-o Arcebispo de Monastério e Frisinga. 

Recebeu a ordenação episcopal no dia 28 de Maio do mesmo ano:  foi o primeiro sacerdote diocesano que assumiu, depois de oitenta anos, o governo pastoral da grande Diocese da Baviera. Escolheu como mote episcopal:  “Colaboradores da Verdade”. 

O Papa Montini criou-o e publicou-o Cardeal, do Título de Santa Maria Consoladora no Tiburtino, no Consistório de 27 de Junho de 1977. 

Foi Relator na Quinta Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos (1980) sobre o tema da Família cristã no mundo contemporâneo. Naquela ocasião, na sua primeira Relação, desenvolveu uma análise ampla e pormenorizada sobre a situação da família no mundo, realçando a este propósito a crise da cultura tradicional diante da mentalidade tecnicista e meramente racional. Ao lado dos aspectos negativos, não deixou de evidenciar a redescoberta do verdadeiro personalismo cristão como fermento que fecunda a experiência conjugal de muitos casais, e exortou também a uma correcta avaliação do papel da mulher, que deve ser incluída entre as questões fundamentais na reflexão sobre o matrimónio e a família. Na segunda parte da Relação, dedicada ao desígnio de Deus sobre as famílias de hoje, recordou sobretudo que a masculinidade e a feminilidade são expressão da comunhão das pessoas como sinal original do dom de amor do Criador. Portanto realçava o amor do homem e da mulher não é privado, nem profano, nem meramente biológico, mas algo de sagrado que introduz num “estado”, numa nova forma de vida, permanente e responsável. O matrimónio e a família recordou com veemência precedem de qualquer maneira o Estado e ele deve respeitar o direito próprio do matrimónio e da família e o seu íntimo mistério. Na terceira parte o Purpurado enfrentou os problemas pastorais ligados à família:  da construção de uma comunidade de pessoas ao da geração da vida, da tarefa educativa à necessidade da preparação dos jovens para o matrimónio e para a vida familiar, das tarefas sociais às culturais e morais. A família, concluía, pode testemunhar ao mundo uma nova humanidade face ao domínio do materialismo, do hedonismo e da permissividade. 

Foi Presidente Delegado da Sexta Assembleia (1983) que teve por tema a reconciliação e a penitência na missão da Igreja. Na sua intervenção nos trabalhos repetiu as normas pastorais promulgadas pela Congregação para a Doutrina da Fé que dizem respeito ao Sacramento da Reconciliação e aprofundou, em particular, as questões ligadas a dois interrogativos que surgiram várias vezes durante os trabalhos nas assembleias:  o relativo à obrigação de confessar os pecados graves já absolvidos durante a absolvição geral e o concernente à confissão pessoal como elemento essencial do Sacramento. 

A sua palavra ofereceu um contributo fundamental de reflexão e de confronto para o desenvolvimento de todos os Sínodos dos Bispos. 

A 25 de Novembro de 1981 João Paulo II nomeou-o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Foi também Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional. A 15 de Fevereiro de 1982 renunciou ao governo pastoral da Arquidiocese de Monastério e Frisinga. 

O seu serviço como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé foi incansável e é quase impossível enumerar o seu trabalho no espaço de uma biografia. A sua obra como Colaborador de João Paulo II foi contínua e preciosa. 

Entre os numerosos pontos firmes da sua obra, destacamos o papel de Presidente da Comissão para a Preparação do Catecismo da Igreja Católica. 

A 5 de Abril de 1993 foi chamado a fazer parte da Ordem dos Bispos e tomou posse do Título da Igreja Suburbicária de Velletri-Segni. 

No dia 6 de Novembro de 1998 foi nomeado Vice-Decano do Colégio Cardinalício e a 30 de Novembro de 2002 tornou-se Decano:  tomou posse do Título da Igreja Suburbicária de Ostia. 

Até à eleição para a Cátedra de Pedro foi Membro do Conselho da II Sessão da Secretaria de Estado; das Congregações para as Igrejas Orientais, do Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, para os Bispos, para a Evangelização, para a Educação Católica; do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos; da Pontifícia Comissão para a América Latina e da Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”. 

Por ocasião do seu cinquentenário de ordenação sacerdotal, João Paulo II enviou-lhe uma mensagem na qual, referindo-se à coincidência do seu jubileu com a solenidade litúrgica dos Santos Pedro e Paulo, com palavras de certa forma “proféticas” lhe recordava que “em Pedro ressalta o princípio de unidade, fundado na fé firme como a rocha do Príncipe dos Apóstolos; em Paulo a exigência intrínseca do Evangelho de chamar cada homem e cada povo à obediência da fé. Estas duas dimensões conjugam-se no testemunho comum de santidade, que cimentou a generosa dedicação dos dois apóstolos ao serviço da imaculada Esposa de Deus. Como não ver nestas duas componentes perguntava João Paulo II também as coordenadas fundamentais do caminho que a Providência dispôs para Si, Senhor Cardeal, chamando-o ao Sacerdócio?”. 

A ele foram confiadas as meditações da Via-Sacra de 2005 celebrada no Coliseu. Nesta inesquecível Sexta-Feira Santa, João Paulo II, estreitando a si o Crucifixo, num “ícone” comovedor de sofrimento, ouviu em silencioso recolhimento as palavras daquele que iria ser o seu Sucessor na Cátedra de Pedro. Significativamente, o leitmotiv da Via-Sacra foi a palavra pronunciada por Jesus no Domingo de Ramos, com a qual imediatamente depois da sua entrada em Jerusalém responde à pergunta de alguns gregos que o queriam ver:  “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, permanece só; ao contrário, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24). Com estas palavras o Senhor ofereceu uma interpretação “eucarística” e “sacramental” da sua Paixão. Mostra-nos foi a sua reflexão que a Via-Sacra não é simplesmente uma cadeia de sofrimento, de coisas nefastas, mas um mistério:  é precisamente este processo no qual o grão de trigo ao cair na terra dá fruto. Por outras palavras, mostra-nos que a Paixão é uma oferenda de si mesmo e este sacrifício dá fruto e torna-se por conseguinte um dom para todos. 

As suas reflexões que ressoaram na noite de Sexta-feira Santa no cenário sugestivo do Coliseu permaneceram impressas nas consciências dos homens. “Não podemos deixar de pensar foi o seu vibrante convite na meditação da nona estação em quanto sofre Cristo pela sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do santo sacramento da sua presença, em que vazio e maldade de coração muitas vezes ele entra! Quantas vezes celebramos apenas nós próprios sem nos apercebermos dele! Quantas vezes a sua palavra é deturpada e abusada! Quanta pouca fé há em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujidade há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta autosuficiência!”.

“Senhor é a oração que surge do seu coração muitas vezes a tua Igreja parece-nos uma barca na qual entra água por todos os lados. E também no teu campo de grão vemos mais erva daninha do que grão… A veste e o rosto tão sujos da tua Igreja desconcertam-nos. Mas somos nós quem os sujamos! Somos nós que te traímos todas as vezes, depois de todas as nossas grandes palavras, os nossos grandes gestos. Tem piedade da tua Igreja… Levantaste-te, ressuscitaste e podes levantar-nos a nós também. Salva e santifica a tua Igreja. Salva e santifica todos nós”. 

Só vinte e quatro horas depois da morte de João Paulo II, recebendo em Subiaco o “Prémio São Bento” promovido pela Fundação sublacense “Vida e Família”, recordou com palavras hoje particularmente eloquentes:  “Precisamos de homens como Bento de Nórcia, que num tempo de dissipação e de decadência, se imergiu na solidão mais extrema, conseguindo, depois de todas as purificações que teve que sofrer, alcançar a luz. Voltou e fundou Montecassino, a cidade sobre o monte que, com tantas ruínas, reuniu as forças com as quais se formou um mundo novo. Assim Bento, como Abraão, tornou-se pai de muitos povos”. 

Na sexta-feira, 8 de Abril, ele como Decano do Colégio Cardinalício presidiu à Santa Missa das exéquias de João Paulo II na Praça de São Pedro. A sua homilia, podemos dizê-lo, expressou a grande fidelidade ao Papa e à sua própria missão. “”Segue-me”, diz o Senhor ressuscitado a Pedro, como sua última palavra a este discípulo, escolhido para apascentar as suas ovelhas. “Segue-me” esta palavra lapidária de Cristo pode ser considerada a chave para compreender a mensagem que vem da vida do nosso amado Papa João Paulo II, cujos despojos mortais depomos hoje na terra como semente de imortalidade o coração cheio de tristeza, mas também de jubilosa esperança e de profunda gratidão”. 

“Segue-me!”, foi a palavra-chave, a ideia-guia da homilia que o Cardeal Ratzinger dirigiu ao mundo inteiro durante as exéquias do Santo Padre. Uma palavra que narra a missão de João Paulo II e ao mesmo tempo uma exortação que alcança todas as pessoas. 

“Segue-me!”. Juntamente com o mandamento de apascentar o seu rebanho, Cristo anunciou a Pedro o seu martírio são as palavras urgentes do Cardeal Ratzinger na sua vibrante e comovida homilia exequial. Com esta palavra que constitui ao mesmo tempo a conclusão e o resumo do diálogo sobre o amor e o mandato de pastor universal, o Senhor recorda outro diálogo, feito no contexto da última ceia. Aqui Jesus dissera:  “Para onde eu vou, vós não podeis ir”. Pedro pergunta:  “Senhor, para onde vais?”. Jesus responde:  “Para onde eu vou agora, por enquanto tu não podes ir; seguir-me-ás mais tarde” (Jo 13, 33.36). Da ceia, Jesus vai para a cruz, vai para a ressurreição entra no mistério pascal; Pedro, ainda não o pode seguir. Agora depois da ressurreição chegou esse momento, esse “mais tarde”. Apascentando o rebanho de Cristo, Pedro entra no mistério pascal, encaminha-se para a cruz e para a ressurreição. O Senhor diz isto com as seguintes palavras:  “… quando eras mais jovem… ias para onde querias, mas quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te há-de cingir as vestes e levar-te para onde tu não queres” (Jo 21, 18). No primeiro período do seu Pontificado o Santo Padre, ainda jovem e cheio de forças, sob a guia de Cristo ia até aos confins do mundo. Mas depois entrou cada vez mais na comunhão dos sofrimentos de Cristo, compreendeu cada vez mais a verdade das palavras:  “Outro cingir-te-á…”. Foi precisamente nesta comunhão com o Senhor sofredor que incansavelmente e com renovada intensidade anunciou o Evangelho, o mistério do amor que vai até ao fim (cf. Jo 13, 1)”. 
“Ele afirmou o Cardeal Ratzinger interpretou para nós o mistério pascal como mistério da misericórdia divina… O Papa sofreu e amou em comunhão com Cristo e por isso a mensagem do seu sofrimento e do seu silêncio foi tão eloquente e fecunda”. E concluiu da seguinte forma, com palavras que constituem uma “síntese” do Pontificado de João Paulo II mas também da sua própria missão de fiel, directo e estreito Colaborador do Papa desde 1981 como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé:  “Divina Misericórdia:  o Santo Padre encontrou o reflexo mais puro da misericórdia de Deus na Mãe de Deus. Ele, que perdera a sua mãe quando ainda era criança, amou tanto a Mãe divina. Sentiu as palavras do Senhor crucificado como se fossem ditas pessoalmente a ele:  “Eis a tua mãe!”. E fez como o discípulo predilecto:  acolheu-a no íntimo do seu ser Totus tuus. E da mãe aprendeu a conformar-se com Cristo. Permanece inesquecível para todos nós como neste último domingo de Páscoa da sua vida, o Santo Padre, marcado pelo sofrimento, se apresentou mais uma vez à janela do Palácio Apostólico e pela última vez deu a bênção “Urbi et Orbi”. Podemos ter a certeza de que o nosso amado Papa agora está à janela da casa do Pai, nos vê e nos abençoa. Sim, abençoa-nos Santo Padre. Nós confiamos a tua querida alma à Mãe de Deus, tua Mãe, que te guiou todos os dias e agora te guiará à glória eterna do Seu filho, Jesus Cristo nosso Senhor”. 

Na vigília da sua eleição para o Sólio Pontifício, na manhã de segunda-feira, 18 de Abril, na Basílica Vaticana, celebrou a Santa Missa “pro eligendo Romano Pontefice” com os Cardeais eleitores, poucas horas antes do início do Conclave que o teria eleito. “Nesta hora de grande responsabilidade exortou na homilia escutemos com particular atenção o que o Senhor nos diz”. Referindo-se às leituras da Liturgia, recordou que “a misericórdia divina põe um limite ao mal. Jesus Cristo é a misericórdia divina em pessoa:  encontrar Cristo significa encontrar a misericórdia de Deus. O mandamento de Cristo tornou-se mandamento nosso através da unção sacerdotal; somos chamados a promulgar não só com palavras mas com a vida, e com os sinais eficazes dos sacramentos, “o ano de misericórdia do Senhor””. “A misericórdia de Cristo realçou não é uma graça a bom preço, não supõe a banalização do mal. Cristo leva no seu corpo e na sua alma todo o peso do mal, toda a sua força destruidora. Ele queima e transforma o mal no sofrimento, no fogo do seu amor sofredor”. “Quanto mais formos tocados pela misericórdia do Senhor acrescentou tanto mais entramos em solidariedade com o seu sofrimento, tornamo-nos disponíveis para completar na nossa carne “o que falta aos padecimentos de Cristo””. 

“Não deveríamos permanecer crianças na fé, em estado de menoridade. Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decénios, quantas correntes ideológicas, quantas modas de pensamento… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos não raramente foi agitada por estas ondas, lançada de um extremo ao outro:  do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem; do colectivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante. Todos os dias surgem novas seitas e realiza-se quanto diz São Paulo sobre o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a levar ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara segundo o Credo da Igreja, é com frequência classificado de fundamentalismo.

Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar “aqui e além por qualquer vento de doutrina”, parece ser a única atitude ao nível dos tempos de hoje. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida só o próprio eu e as suas vontades. Nós, ao contrário, temos outra medida:  o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É ele a medida do verdadeiro humanismo. “Adulta” não é uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é uma fé profundamente radicada na amizade com Cristo. É esta amizade que nos abre a tudo o que é bom e nos dá o critério para discernir entre verdadeiro e falso, entre engano e verdade. Esta fé adulta devemos amadurecê-la, para esta fé devemos guiar o rebanho de Cristo”. “O nosso ministério recordou ao concluir é um dom de Cristo aos homens, para construir o seu corpo, o novo mundo. Vivemos o nosso ministério assim, como dom de Cristo aos homens! Mas nesta hora, sobretudo, rezamos com insistência ao Senhor, para que depois do grande dom do Papa João Paulo II, nos conceda de novo um pastor segundo o seu coração, um pastor que nos guie ao conhecimento de Cristo, ao seu amor, à alegria verdadeira”. 

Fonte: Copyright © L’Osservatore Romano

Quaresma

Quem foi o Papa São João Paulo II?

Perfil Biográfico do Papa São João Paulo II  (1920-2005)

Karol Wojtyła nasceu a 18 de Maio de 1920 em Wadowice, na Polónia meridional, onde viveu até 1938, quando se inscreveu na faculdade de filosofia da Universidade Jagelónica e se transferiu para Cracóvia. No Outono de 1940 trabalhou como operário nas minas de pedra e depois numa fábrica química. Em Outubro de 1942 entrou no seminário clandestino de Cracóvia e a 1 de Novembro de 1946 foi ordenado sacerdote.

A 4 de Julho de 1958, Pio XII nomeou-o bispo auxiliar de Cracóvia. Recebeu a ordenação episcopal a 28 de Setembro seguinte. Como lema episcopal escolheu a expressão mariana Totus tuus de são Luís Maria Grignion de Montfort.

Primeiro como auxiliar e depois, a partir de 13 de Janeiro de 1964, como arcebispo de Cracóvia, participou em todas as sessões do concílio Vaticano II. A 26 de Junho de 1967 foi criado cardeal por Paulo VI.

Em 1978 participou no conclave convocado depois da morte de Montini e no sucessivo após o inesperado falecimento de Luciani. Na tarde de 16 de Outubro, depois de oito escrutínios, foi eleito Papa. Primeiro Pontífice eslavo da história e primeiro não italiano depois de quase meio milénio, desde o tempo de Adriano VI (1522-1523).

Personalidade poliédrica e carismática, afirmou-se imediatamente pela grande capacidade comunicativa e pelo estilo pastoral fora dos esquemas. A têmpera e o vigor de uma idade relativamente jovem permitiu que empreendesse uma actividade intensíssima, ritmada sobretudo pelo multiplicar-se das visitas e das viagens: no total foram 104 internacionais e 146 na Itália, com 129 países visitados nos cinco continentes.

Desde o início trabalhou para dar voz à chamada Igreja do silêncio. A insistência sobre os temas dos direitos do homem e da liberdade religiosa tornou-se assim uma constante do seu magistério. Tanto que hoje é largamente reconhecido o contributo relevante da sua acção para as vicissitudes que determinaram a queda do muro de Berlim em 1989 e o sucessivo colapso dos regimes filo-soviéticos. Neste contexto provavelmente insere-se o gravíssimo episódio do atentado do qual foi vítima a 13 de Maio de 1981 por obra do turco Ali Agca.

Ao lado da polémica anticomunista, desenvolveu-se também uma leitura crítica do capitalismo, submetido a uma análise crítica em três das suas 14 encíclicas: a Laborem exercens (1981), a Sollicitudo rei socialis (1987) e a Centesimus annus (1991). Também foi assídua a sua actividade a favor da paz, que se entrelaça com a busca do diálogo com as grandes religiões — em particular com o judaísmo e com o islão — e com o novo impulso impresso no caminho ecuménico.

Em 1983 promulgou o novo Codex iuris canonici e depois providenciou à reforma da Cúria romana com a constituição apostólica Pastor bonus de 1988. Favoreceu também a dimensão da colegialidade episcopal no governo da Igreja, sobretudo através da convocação de quinze sínodos dos bispos. Entre os números de um pontificado bastante longo — em segundo lugar por duração só ao de Pio IX (1846-1878) — podem ser mencionadas também as frequentes cerimónias de beatificação e canonização, durante as quais foram proclamados 1.338 beatos e 482 santos.

Com o passar dos anos a atenção do Pontífice focalizou-se sobretudo na celebração do grande jubileu do ano 2000. O evento assumiu um significado altamente simbólico no âmbito da sua missão pastoral e teve uma forte importância penitencial, expressa de modo emblemático no dia do perdão (12 de Março).

O encerramento do jubileu abriu a fase conclusiva do pontificado, marcada sobretudo pelo progressivo agravamento das condições de saúde do Papa, que depois de uma longa e angustiante agonia morreu na noite de 2 de Abril de 2005.

Após 26 dias do seu falecimento, Bento XVI concedeu a dispensa dos cinco anos de expectativa prescritos permitindo o início da causa de canonização. E o mesmo Papa o proclamou beato a 1 de Maio de 2011.

Fonte: Publicado no L’Osservatore Romano, ed. em português, n. 18 de 3 de maio de 2014

Quaresma

Quem foi o Papa Paulo VI?

Perfil Biográfico do Papa Paulo VI (1897-1978)

Segundo filho de Giorgio e Giuditta Alghisi, Giovanni Battista Montini nasceu em Concesio, perto de Bréscia, a 26 de Setembro de 1897. De 1903 a 1915 frequentou a escola primária, o ginásio e parte do liceu no colégio Cesare Arici, mantido em Bréscia pelos jesuítas, concluindo os estudos secundários no liceu estatal municipal em 1916.

No Outono do mesmo ano entrou no seminário de Bréscia e quatro anos depois, a 29 de Maio de 1920, recebeu na catedral a ordenação sacerdotal do bispo Giacinto Gaggia. Depois do Verão transferiu-se para Roma, onde frequentou os cursos de filosofia da Pontifícia Universidade Gregoriana e de letras na universidade estatal, formando-se mais tarde em direito canónico no ano de 1922 e em direito civil em 1924. Entretanto, depois de um encontro com o substituto da Secretaria de Estado Giuseppe Pizzardo no mês de Outubro de 1921, foi destinado ao serviço diplomático e durante alguns meses de 1923 trabalhou como adido na nunciatura apostólica de Varsóvia.

Entrou na Secretaria de Estado a 24 de Outubro de 1924, e foi nomeado minutante no ano seguinte. Nesse período participou intensamente da actividade dos estudantes universitários católicos organizada na Fuci, da qual foi assistente eclesiástico nacional de 1925 a 1933. No início de 1930, o cardeal Eugenio Pacelli foi nomeado secretário de Estado, do qual progressivamente se tornou um dos mais estreitos colaboradores, até 1937 quando foi promovido substituto da Secretaria de Estado. Cargo que manteve também quando Pacelli — que foi eleito Papa em 1939 com o nome de Pio XII — sucedeu o cardeal Luigi Maglione, falecido em 1944. Em 1952 tornou-se pró-secretário de Estado para os assuntos ordinários.

Foi ele quem preparou o esboço do extremo mas inútil apelo de paz que o Papa Pacelli lançou pela rádio a 24 de Agosto de 1939, na vigília do conflito mundial: «Nada se perde com a paz! Tudo se perde com a guerra».

A 1 de Novembro de 1954 foi nomeado arcebispo de Milão. Durante a guia da Igreja ambrosiana comprometeu-se profundamente no plano pastoral, dedicando uma atenção especial aos problemas do mundo do trabalho, da imigração e das periferias, onde promoveu a construção de mais de cem igrejas. 

Foi o primeiro cardeal a receber a púrpura de João XXIII, a 15 de Dezembro de 1958, e participou no concílio Vaticano II, no qual apoiou abertamente a linha reformista. Quando Roncalli faleceu, a 21 de Junho de 1963 foi eleito Papa e escolheu o nome Paulo, com uma referência clara ao apóstolo evangelizador.

Nos primeiros actos do pontificado desejou evidenciar a continuidade com o predecessor, em particular com a decisão de retomar o Vaticano II, que se reabriu a 29 de Setembro de 1963. Guiou os trabalhos conciliares com mediações atentas, favorecendo e moderando a maioria reformadora, até à conclusão a 8 de Dezembro de 1965 e precedida pela recíproca revogação das excomunhões ocorridas em 1054 entre Roma e Constantinopla.

Remontam ao período do concílio também as primeiras três das nove viagens que durante o pontificado o levaram aos cinco continentes (foram dez as visitas realizadas na Itália): em 1964 foi à Terra Santa e depois à Índia, e em 1965 a Nova Iorque, onde pronunciou um discurso histórico diante da assembleia geral das Nações Unidas. No mesmo ano iniciou uma acção profunda de modificações das estruturas do governo central da Igreja, criando novos organismos para o diálogo com os não-cristãos e os não-crentes, instituindo o Sínodo dos bispos — que durante o seu pontificado realizou quatro assembleias ordinárias e uma extraordinária entre 1967 e 1977 — e actuando a reforma do Santo Ofício.

A sua vontade de diálogo dentro da Igreja, com as diversas confissões e religiões e com o mundo esteve no centro da primeira encíclica Ecclesiam suam de 1964, seguida por outras seis: entre elas a Populorum progressio de 1967 sobre o desenvolvimento dos povos, que teve ressonância muito ampla, e a Humanae vitae de 1968, dedicada à questão dos métodos para o controle da natalidade, que suscitou numerosas polémicas até nos ambientes católicos. Outros documentos significativos do pontificado foram a carta apostólica Octogesima adveniens de 1971 para o pluralismo do compromisso político e social dos católicos e a exortação apostólica Evangelii nutiandi de 1975 sobre a evangelização do mundo contemporâneo.

O impulso renovador no âmbito do governo da Igreja traduziu-se depois na reforma da Cúria em 1967, do tribunal pontifício em 1968 e do conclave em 1970 e 1975. Também no campo da liturgia realizou uma obra paciente de mediação para favorecer a renovação recomendada pelo Vaticano II, sem contudo conseguir evitar as críticas dos sectores eclesiais mais progressistas e a oposição tenaz dos conservadores, entre os quais o arcebispo francês Marcel Lefebvre, suspenso a divinis em 1976.

Com a criação de 144 purpurados, a maior parte dos quais não italianos, em seis consistórios remodelou notavelmente o colégio cardinalício e acentuou o seu carácter universal. Além disso, aumentou a acção diplomática e política internacional da Santa Sé, agindo sempre pela paz, instituindo um dia mundial específico celebrado desde 1968 a 1 de Janeiro de cada ano — e prosseguindo o diálogo com os países comunistas da Europa central e oriental (a chamada Ostpolitik) iniciado por João XXIII.

Em 1970, com uma decisão sem precedentes, declarou doutores da Igreja duas mulheres, santa Teresa de Ávila e santa Catarina de Sena. E em 1975 — depois do jubileu extraordinário realizado em 1966 para a conclusão do Vaticano II e do Ano da fé celebrado de 1967 a 1968 pelo décimo nono centenário do martírio dos santos Pedro e Paulo — proclamou e celebrou um Ano santo.

A 29 de Junho de 1978 celebrou em São Pedro o décimo quinto aniversário de eleição. Faleceu a 6 de Agosto, na residência de Castel Gandolfo. O funeral foi celebrado no dia 12 na praça de São Pedro e foi sepultado na Basílica Vaticana.A 11 de Maio de 1993 teve início na diocese de Roma a causa de canonização. No dia 9 de Maio passado o Papa Francisco autorizou a Congregação para as causas dos santos a promulgar o decreto relativo ao milagre atribuído à sua intercessão.

Fonte: Do jornal L’Osservatore Romano, edição em português, n.43 de 23 de outubro de 2014