Espiritualidade
Espiritualidade

Onde habita a Palavra?

Nosso tempo certamente nos dá maneiras diferentes de viver nossas ocupações em comparação aos tempos de nossos avôs, mas acreditem, as maneiras mudaram bastante, as ocupações não.

“No meu tempo não era assim”, quem nunca foi alvo dessa crítica em relação a algo, que levante a mão e diga EU! Mas não se preocupe, pois em algum momento você vai se pegar dizendo isso para alguém, se é que já não o fez.

A verdade é que as maneiras mudaram, mas as ocupações ainda são muito iguais, todos desejam diverte-se com seus amigos, saem para conhecer algum lugar novo, há os que desejam namorar, os que estudam juntos, os que fazem refeições juntos, os que trabalham juntos, os que vão a igreja juntos, os que vão a festas juntos, é muito comum perceber que o seu programa do dia foi ficarem todos juntos em algum lugar para fazer nada, a prática do nadismo é popular desde sempre. 

Como cada atividade ocupa o nosso tempo depende de vários fatores, qual momento de vida estamos vivendo, quais são nossas prioridades, onde vivemos, com quem convivemos e tantas outras mais. Deparei-me pensando sobre isso após ler uma matéria na BBC que mostrava os chamados países emergentes como líderes em tempo gasto em redes sociais, mas calma, não precisa torcer o nariz, não pretendo dizer como você devem usar suas redes sociais, tão pouco dissertar sobre se elas são boas ou ruins. 

Passei um tempo olhando para esse ranking e vendo a média de minutos gastos nas redes sociais por dia de cada país, se olharmos para a média dos EUA que é a menor da lista, 117 minutos, já nos basta. É muito provável que a maioria de nós passe mais tempo nas redes sociais do que em oração, longe de mim dizer que uma oração curta tenha menos valor ou importância do que uma longa, mas não nos espanta que em média passemos mais tempo por dia nas redes sociais de maneira natural do quê somos capazes de passar na missa dominical sem que comecemos a pensar que o padre está demorando demais para terminar? 

Antes que os grandes e modernosos missionários da internet argumente que nas redes socais também podemos ouvir e falar de Deus, o quê é evidente que podemos, faço uso do exemplo de São Francisco de Sales, santo e doutro da igreja que viveu no século XVII, antes mesmo que fosse simples curtir e compartilhar, ele já distribuía folhetos ensinando sobre a fé, mesmo assim São Francisco de Sales recomenda uma vida de retorno constante a santa eucarística.

“Duas espécies de pessoas devem comungar com frequência: os perfeitos para se conservarem perfeitos, e os imperfeitos para chegarem à perfeição.” (São Francisco de Sales).

Não só podemos como devemos viver com as mais variadas ocupações, foi assim que Deus nos criou e assim que ele deseja que vivamos nossas vidas, (Gn 1), independente da maneira como Ele chamou você a viver a santidade nesta vida, tenha certeza que só fará sentido vive-la se estiver centrada Nele, por Ele e para Ele. 

Quando estiverem em suas ocupações, sejam elas quais forem, sejam elas de quê maneira forem, lembre-se que são apenas ocupações e que todas elas são passageiras, o seu chamado eterno é com a santidade, este chamado passa pela cruz, reside na comunhão e o ouvimos pela palavra de Deus, palavra esta que celebramos hoje no terceiro domingo do tempo comum, como nos exorta o santo padre o papa Francisco em sua Carta Apostólica, Aperuit illis:

“É bom que não venha jamais a faltar na vida do nosso povo esta relação decisiva com a Palavra viva, que o Senhor nunca Se cansa de dirigir à sua Esposa, para que esta possa crescer no amor e no testemunho da fé”.

Assim quando a ouvimos, ela cresce e transborda até para os mais pequenos detalhes do nosso dia, fazendo-nos perceber que Deus está lá e nos impulsiona a empenhar-se para que os outros também consigam perceber.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.

As estrelas do dia a dia

Você sabe o que é um telescópio? Você já deve ter ouvido falar dele e apesar de parecer que ele está na nossa vida a muito tempo, a criação do telescópio remonta aos anos de 1608 pelas mãos de um neerlandês chamado Hans Lippershey, o telescópio ficou rapidamente conhecido e ainda mais popular no ano seguinte, em 1609 quando o italiano Galileu Galilei fez várias versões do aparelho e dentre muitas coisas ficou conhecido por descobertas inéditas apontando o telescópio para o céu.

Percebam que o primeiro telescópio tem apenas 412 anos, pode parecer muito mais não é, para você ter uma ideia de como isso não faz tanto tempo assim, o primeiro conceito de relógio semelhante aos que existem atualmente de que temos registros remonta a antiga Judeia no ano de 600 a.C. a cerca de 2620 anos atrás, claro que o relógio da época era completamente diferente dos que temos hoje, em método de mensurar o tempo e em precisão principalmente, mas a ideia de mensurar o tempo com um aparelho é a mesma.

Da mesma forma, os super telescópios que temos hoje, não se comparam em precisão e alcance aos daquela época. Mas a ausência de um instrumento como esse não impediu que os seres humanos se guiassem pelas estrelas. Do ponto de vista histórico, a sagrada escritura nos mostra hoje um fato que mesmos os mais firmes ateus não podem contestar, mais de 1500 anos antes da invenção do telescópio, os seres humanos já observavam as estrelas, já olhavam para o céu em busca de respostas.

Muitos encontraram respostas pela ciência, outros pela imaginação, outros pela fé. Foi a fé que fez os magos atravessarem o mundo conhecido para encontrar o Filho de Deus, embora muitos hoje em dia questionem se isso de fato aconteceu por não haver de forma clara explicação de porque magos viajariam sozinhos com presentes valiosos e especiarias em tempo perigosos, por caminhos desconfortáveis.

Quero que faça o seguinte exercício mental, feche os olhos e imagine um rei, é provável que a realeza europeia e a Disney já tenha desenhado um rei para você e na verdade você lembrou dele e não o imaginou. À época, do nascimento de Cristo os reis não eram todos assim, uma boa parte deles eram guerreiros forte que estavam à frente de seus exercícios, possuíam muito mais habilidades do que vestir longos mantos de veludo, dançar com jovens princesas e beber. Da um Google e você vai ver que falo a verdade.

Agora mais uma vez feche os olhos e imagine um mago, se você pensou em um homem vestindo manto, capa, capuz, talvez portando um cajado ou uma varinha, quem sabe com cabelo grande e até barba. Supresa novamente, você não imaginou apenas lembrou do que o cinema e os livros de ficção já ensinou para você. Mas magos daquela época eram pessoas curiosas, inteligentes, que buscavam desenvolver a medicina, a matemática, a mecânica, a astrologia e a astronomia, dentre muitas outras coisas, seus avanços científicos eram muitas vezes tido como magia porque o povo em geral não conseguia compreender o que eles faziam. Havia para eles uma aura de mistério e incompreensão, como se fossem pessoas com dons mágicos, muito parecido com o que faz hoje à cultura pop com gênios da tecnologia, da física quântica e tudo mais. Como eu disse, da um Google e você vai ver que estou falando a verdade.

Mas opniões a parte, chama a minha atenção quanto tempo perdemos discutindo coisas irrelevantes como quantos foram visitar Jesus, se foram três, dose ou vinte e quatro. Se eram reis, magos ou qualquer outra coisas. O mais curiosos para mim é que durante a vida pública de Jesus, vemos em diversos momentos os evangelistas narrarem as pessoas lhe pedindo sinais e por muitas vezes são repreendidas, Jesus ressalta como há em nós a necessidade de sinais para poder acreditarmos. Depois de ressuscitar Ele ainda destaca

“Felizes os que acreditaram sem ter vistos” (Jo 20, 29b).

O que Jesus parece querer nos ensinar é que é preciso acreditar primeiro e ver depois. Os magos não eram judeus, não conheciam a fundo a cultura e a crença judaica, mas eles acreditaram que o Salvador estava para chegar, o sinal que eles receberam, a estrela que os guiava não era para que acreditassem, era para que soubesse que direção tomar. Quando entraram em Jerusalém eles foram onde pensavam que encontrariam o rei, dentro do palácio eles perguntaram onde Ele estava, mas não era ali que O encontrariam (Mt 2, 2).

Eles foram encontrá-Lo onde ele realmente estava, com grande alegria, prostraram-se, adoraram e lhe ofereceram presentes (Mt 2, 9-11). Tantas vezes buscamos Deus em grandes eventos, em retiros magníficos, queremos servi-Lo em igrejas imponentes e lá nos preparamos bem com nossas melhores roupas. Não que Ele não esteja ali, com certeza está porque assim Ele nos prometeu que estaria (Mt 18, 20), mas permitam-me contar a vocês um fenômeno curioso que eu observei em algumas paróquias por onde eu passei.

Durante a missa, no momento da comunhão, muitas vezes algumas filas acabavam primeiro e outras demoravam mais, isso seria natural e não chamaria a atenção, se a fila que sempre acabasse por último não fosse a do padre. Talvez os ministros estivessem sendo rápidos demais ou o padre muito lento. Mas o fenômeno que acontecia, era que muitas pessoas acreditavam que receber a comunhão da mão do padre era melhor ou mais importante e por isso desprezavam as filhas em que os ministros estavam, mesmo que nela não houvesse mais ninguém e ele ainda estivesse no meio da fila.

Eu poderia dar outros exemplos nada sutis como esse, mas o fato é que Cristo é o mesmo sempre, nós é que mudamos. Somos feliz por que cremos, e Ele nos mostra sua luz, uma estrela que nos indica o caminho, então começamos a segui-la, mas hábitos como esse que comentei e tantos outros vão fazem com que nem sempre sejamos capazes de ver com clareza a luz que nos guia, tem dias que parece que ela realmente não está lá, mas pode ser apenas que estejamos procurando Jesus no lugar errado, nessas horas, não custa nada perguntar

“Onde está o Rei?”

De alguma maneira Ele espera que nós demonstremos que estamos a Sua procura, então quando terminar aquela missa que você sente que não significou nada, pergunte ao sacristão se ele precisa de ajuda, mesmo que ele não aceite, não se preocupe. Quando terminar aquela reunião pastoral que pareceu sem sentido, pergunte se alguém quer companhia e acompanhe até em casa, mesmo se ninguém aceitar, não se preocupe. Quando seu trabalho parecer uma cruz pesada demais para carregar, pergunte aos colegas do trabalho se alguém deseja jantar em sua casa, mesmo se ninguém aceitar, não se preocupe. Quando sua família parecer ser a pior família do mundo, pergunte se alguém quer rezar o terço contigo, se ninguém aceitar, não se preocupe. Quando nada estiver indo bem nos seus estudos, pergunte aos seus professores se eles aceitam ir a missa no mesmo horário que você no domingo, caso ninguém aceite, não se preocupe.

Não precisa se preocupar, continue a perguntar, Jesus saberá que você continua à procura Dele e Ele fará brilhar a estrela na direção certa novamente. Porque antes do sinal você acreditou, Ele te mostrará o caminho, um caminho que não é só seu, porque de tanto você fazer esse tipo de pergunta tentando encontra a Ele, você levará a Ele muitos presentes contigo, outros que também desejarão se prostrar e adorar a Deus.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.