Movendo-se pelo mundo como católico

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Quaresma

«Deixai as criancinhas e não as impeçais de vir a Mim» (Mt 18, 2)

MENSAGEM DO PAPA SÃO JOÃO PAULO II PARA A QUARESMA DE 1988

Amados irmãos e irmãs em Cristo:

Com alegria e esperança, ao dirigir-vos esta Mensagem de Quaresma, desejaria exortar-vos à penitência, que produza em vós os abundantes frutos espirituais de uma vida cristã mais dinâmica e de uma caridade efectiva. 

O tempo da Quaresma, que marca profundamente a vida de todas as comunidades cristãs, favorece o espírito de recolhimento, de oração e de escuta da Palavra de Deus; convida a responder generosamente ao apelo do Senhor expresso pelo Profeta: «Sabeis qual é o jejum que eu aprecio?…. é repartir o pão com o faminto, dar abrigo aos infelizes sem tecto… Então invocarás o Senhor e Ele te atenderá, clamarás e Ele dirá: Eis-Me aqui!» (Is 58, 6.7.9). 

A Quaresma de 1988 vai decorrer no contexto do Ano Mariano, ao aproximar-se o segundo Milénio do nascimento de Jesus, o Salvador. Contemplando a maternidade divina de Maria, daquela que trouxe no seu seio o Filho de Deus e rodeou de solicitude especial a infância de Jesus, apresenta-se ao meu espírito o drama doloroso de muitas mães que vêem frustradas as suas esperanças e alegrias pela morte prematura dos seus filhos. 

Sim, amados Irmãos e Irmãs, peço-vos que volvais a atenção para este escândalo da mortalidade infantil, cujas vítimas diariamente se contam às dezenas de milhares. Há crianças que morrem antes de terem visto a luz do dia, outras não têm senão uma breve e dolorosa existência encurtada por enfermidades que no entanto, hoje, seria fácil evitar. 

Inquéritos sérios mostram que nos países mais cruelmente provados pela pobreza, é na população infantil que se regista o maior número de mortes por desidratação aguda, parasitas, água contaminada, fome, falta de vacinação contra as epidemias e até mesmo por falta de carinho. 

Em tais condições de miséria, grande número de crianças morre prematuramente; outras ficam de tal maneira afectadas, que o seu desenvolvimento físico e psíquico resta comprometido, a sua própria sobrevivência se torna precária e encontrar-se-ão numa situação de desvantagem para terem um lugar na sociedade. 

As vítimas desta tragédia são as crianças que nascem em situações de pobreza, que com muita frequência resultam de injustiças sociais; e são as famílias que carecem dos meios necessários e que ficam feridas para sempre pela morte precoce dos seus filhos. 

Tenhamos presente aquela resoluta solicitude com que o Senhor Jesus se quis mostrar solidário com as crianças: Ele chamou um menino, colocou-o no meio deles e disse: «Quem receber um menino como este, em Meu nome, é a Mim que recebe … », e ordenou-lhes: «Deixai as criancinhas e não as impeçais de vir a Mim» (cf. Mt 18, 2.5; 19, 14).

Exorto-vos vivamente, neste tempo litúrgico da Quaresma, a deixar-vos conduzir pelo Espírito de Deus, que pode quebrar as cadeias do egoísmo e do pecado. Partilhai, em espírito de solidariedade, com os que menos recursos têm. Dai, não só do que vos sobeja, mas até mesmo daquilo que talvez vos seja necessário, a fim de apoiar generosamente todas as actividades e programas da vossa Igreja local; e, especialmente, fazei-o para assegurar um futuro justo às crianças mais desprotegidas. 

Assim, amados Irmãos e Irmãs em Cristo, brilhará a vossa Caridade: «Então, vendo as vossas boas obras, todos glorificarão o vosso Pai, que está nos Céus» (Mt 5, 16). 

Que nesta Quaresma, seguindo o exemplo de Maria, que acompanhou fielmente o seu Filho até à Cruz, se fortifique a nossa fidelidade ao Senhor e que a nossa vida generosa testemunhe a nossa obediência aos seus mandamentos!

Abençôo-vos, de todo o coração, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amen.

IOANNES PAULUS PP. II

Fonte: © Copyright – Libreria Editrice Vaticana

Quaresma

É Ele “a vida e a longevidade dos teus dias” (Dt 30, 20)

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA SÃO JOÃO PAULO II PARA A QUARESMA DE 2005

Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Todos os anos a Quaresma se apresenta como um tempo propício para intensificar a nossa oração e penitência, abrindo o coração à dócil aceitação da vontade divina. Nela, é-nos indicado um percurso espiritual que nos prepara para reviver o grande mistério da morte e ressurreição de Cristo, sobretudo mediante a escuta mais assídua da Palavra de Deus e da prática mais generosa da mortificação, graças à qual poder ajudar em maior medida o próximo necessitado.

Este ano desejo propor à vossa atenção, caríssimos Irmãos e Irmãs, um tema actual como nunca, muito bem ilustrado pelos seguintes versículos do Deuteronómio: É Ele “a vida e a longevidade dos teus dias” (30, 20). São palavras que Moisés dirige ao povo para o convidar a estabelecer uma aliança com Javé no país de Moab, “e então viverás tu e a tua posteridade. Ama o Senhor, teu Deus, escuta a Sua voz e permanece-Lhe fiel” (30, 19-20). A fidelidade a esta aliança divina constitui para Israel a garantia do futuro, “para poder viver na terra que o Senhor jurou dar aos teus antepassados, Abraão, Isaac e Jacob” (30, 20). Alcançar a idade madura, na visão bíblica, é sinal da benevolência abençoada do Altíssimo. Desta forma, a longevidade apresenta-se como um especial dom divino.

Gostaria de convidar a reflectir sobre este tema durante a Quaresma, para aprofundar a consciência do papel que os idosos estão chamados a desempenhar na sociedade e na Igreja,  e dispor assim o coração para o acolhimento amoroso que lhes deve ser sempre reservado. Na sociedade de hoje, graças também ao contributo da ciência e da medicina, assiste-se a um prolongamento da vida humana e a um consequente incremento do número dos anciãos.  Isto exige que se dedique uma atenção mais específica ao mundo da chamada “terceira” idade, para ajudar  os componentes a viver plenamente as suas capacidades, pondo-as ao serviço de toda a comunidade. A assistência aos idosos, sobretudo quando passam por momentos difíceis, deve ser preocupação dos fiéis, especialmente nas Comunidades eclesiais das sociedades ocidentais, onde o problema está particularmente presente.

2. A vida do homem é um dom precioso que se deve amar e defender em todas as suas fases. O mandamento “Não matarás!” pede que ela seja respeitada e defendida sempre, desde o seu início até ao seu fim natural. É um mandamento que é válido também na presença de doenças, e quando o enfraquecimento das forças limita o ser humano nas suas capacidades de autonomia. Se o envelhecimento, com os seus inevitáveis condicionamentos, for aceite com serenidade à luz da fé, pode tornar-se ocasião preciosa para compreender melhor o mistério da Cruz, que dá sentido pleno à existência humana.

O idoso tem necessidade de ser compreendido e ajudado nesta perspectiva. Desejo expressar aqui o meu apreço a todos os que se comprometem para ir ao encontro destas exigências e exorto também outras pessoas de boa vontade a aproveitar o tempo da Quaresma para dar o seu contributo pessoal. Isto permitirá que muitos idosos não se sintam um peso para a comunidade e, por vezes, para as próprias famílias, numa situação de solidão que os expõe à tentação do fechamento e do desânimo.

É preciso fazer crescer na opinião pública a consciência de que os anciãos constituem, em qualquer caso, um recurso que deve ser valorizado. Por conseguinte, devem ser incrementados os apoios económicos e as iniciativas legislativas que lhes permitam não ser excluídos da vida social. Na verdade, nos últimos decénios a sociedade tornou-se mais atenta às suas exigências, e a medicina desenvolveu curas paliativas que, com uma aproximação integral do doente, se demonstram particularmente benéficas para quem permanece longamente hospitalizado.

3. O maior tempo disponível nesta fase da existência oferece às pessoas idosas a oportunidade de se confrontarem com interrogativos fundamentais, que talvez tenham sido descuidados antes devido a interesses urgentes ou, contudo, considerados prioritários. A consciência da proximidade da meta final leva o idoso a concentrar-se sobre o que é essencial, dando importância àquilo que o passar dos anos não destrói.

Precisamente devido a esta sua condição, o idoso pode desempenhar um papel na sociedade. Se é verdade que o homem vive da herança de quem o precedeu e o seu futuro depende de modo determinante da forma como são transmitidos os valores da cultura do povo ao qual pertence, a sabedoria e a experiência dos anciãos podem iluminar o seu caminho pela via do progresso, rumo a uma forma de civilização cada vez mais completa.

Como é importante este recíproco enriquecimento entre as diversas gerações! A Quaresma, com o seu forte convite à conversão e à solidariedade leva-nos, este ano, a focalizar estas importantes temáticas que dizem respeito a todos. Que aconteceria se o Povo de Deus cedesse a uma certa mentalidade corrente, que considera quase inúteis estes nossos irmãos e irmãs, quando são limitados nas suas capacidades pelas dificuldades da idade ou pela doença? Ao contrário, como será diferente a comunidade, começando pela família, se procurar manter-se sempre aberta e acolhedora em relação a eles!

4. Caríssimos Irmãos e Irmãs, durante a Quaresma, ajudados pela Palavra de Deus, reflictamos sobre a importância de que cada Comunidade acompanhe com uma compreensão amorosa todos os que envelhecem. Além disso, é necessário habituar-se a pensar com confiança no mistério da morte, para que o encontro definitivo com Deus se realize num clima de paz interior, conscientes de que quem nos acolhe é Aquele que “nos teceu no seio materno” (cf. Sl 139, 13b) e nos quis “à Sua imagem e semelhança” (cf. Gn 1, 26).

Maria, nossa guia no itinerário quaresmal, faça com que todos os crentes, especialmente os anciãos, cheguem a um conhecimento cada vez mais profundo de Cristo morto e ressuscitado, que é a razão derradeira da nossa existência. Que ela, a fiel serva do seu Filho divino, juntamente com os Santos Ana e Joaquim, interceda por todos nós “agora e na hora da nossa morte”.

Concedo a todos a minha Bênção!

Vaticano, 8 de Setembro de 2004.

IOANNES PAULUS PP. II

Fonte: © Copyright – Libreria Editrice Vaticana

Quaresma

«Quem acolher em meu nome uma criança como esta, acolhe-Me a Mim» (Mt 18, 5)

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA SÃO JOÃO PAULO II PARA A QUARESMA DE 2004

Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Com o sugestivo rito da imposição das Cinzas tem início o tempo sagrado da Quaresma, durante o qual a liturgia renova aos crentes o apelo a uma conversão radical, confiando na misericórdia divina.

O tema deste ano – «Quem acolher em meu nome uma criança como esta, acolhe-Me a Mim» (Mt 18, 5) – oferece a oportunidade de reflectir sobre a condição das crianças; crianças que Jesus continua hoje a chamar a Si e a indicar como exemplo para aqueles que desejam tornar-se seus discípulos. As palavras de Jesus constituem uma exortação a examinar como são tratadas as crianças nas nossas famílias, na sociedade civil e na Igreja; e são também um estímulo a apreciar aquela simplicidade e confiança que o crente deve cultivar, imitando o Filho de Deus que compartilhou a sorte dos pequeninos e dos pobres. A este propósito, Santa Clara de Assis gostava de dizer que Ele, nascido, foi «reclinado numa manjedoura, viveu pobre sobre a terra e ficou despido na cruz» (Testamento, Fontes Franciscanas, n. 2841).

Jesus amou as crianças como suas predilectas pela sua «simplicidade e alegria de viver, a sua espontaneidade e a sua fé cheia de assombro» (Angelus de 18.12.1994). Por isso, quer que a comunidade as acolha, com os braços e o coração abertos, como se fosse a Ele mesmo: «Quem acolher em meu nome uma criança como esta, acolhe-Me a Mim» (Mt 18, 5). E a par das crianças, Jesus coloca os «irmãos mais pequeninos», ou seja, os pobres, os necessitados, os famintos e sedentos, os forasteiros, os nus, os doentes e os presos. A atitude que se tomar para com eles – acolhê-los e amá-los ou, ao invés, ignorá-los e rejeitá-los – é a mesma que se tem com Jesus, o Qual neles se torna particularmente presente.

2. O Evangelho narra a infância de Jesus na casa pobre de Nazaré onde, submisso a seus pais, «crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2, 52). Quis fazer-Se criança para compartilhar a experiência humana. «Aniquilou-Se a Si próprio; – escreve o Apóstolo Paulo – assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz» (Fl 2, 7-8). Quando, aos doze anos, ficou no templo de Jerusalém, disse aos pais que, angustiados, O procuravam: «Porque razão Me procuráveis? Não sabíeis que Eu tenho de estar na Casa de meu Pai?» (Lc 2, 49). Na verdade, toda a sua existência foi caracterizada por uma confiante e filial submissão ao Pai celeste: «O meu alimento – dizia Ele – consiste em fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e em dar cumprimento à sua obra» (Jo 4, 34).

Nos anos da sua vida pública, várias vezes afirmou que só entraria no Reino dos Céus quem conseguisse tornar-se como as crianças (cf. Mt 18, 3; Mc 10, 15; Lc 18, 17; Jo 3, 3). Nas suas palavras, a criança aparece como imagem eloquente do discípulo que é chamado a seguir o divino Mestre com a docilidade de um menino: «Quem for humilde como esta criança, esse será o maior no Reino dos Céus» (Mt 18, 4).

«Tornar-se» pequenino e «acolher» os pequeninos: são dois aspectos dum único ensinamento que o Senhor hoje repropõe aos seus discípulos. Somente quem se fizer «criança» é que será capaz de acolher com amor os irmãos mais «pequeninos».

3. Muitos são os crentes que procuram seguir fielmente estes ensinamentos do Senhor. Gostava de recordar aqui os pais que não hesitam em tomar a seu cuidado uma família numerosa, as mães e os pais que, no cimo das suas prioridades, colocam, não a busca do sucesso profissional e da carreira, mas a preocupação por transmitir aos filhos aqueles valores humanos e religiosos que verdadeiramente dão sentido à existência. 

Penso com reconhecida admiração em quantos cuidam da formação da infância em dificuldade e aliviam os sofrimentos das crianças e dos seus familiares, causados pelos conflitos e a violência, pela falta de alimento e de água, pela emigração forçada e por tantas formas de injustiça existentes no mundo.

Contudo, a par de tanta generosidade, deve-se registar também o egoísmo daqueles que não «acolhem» as crianças. Existem menores profundamente feridos pela violência dos adultos: abusos sexuais, aviamento à prostituição, envolvimento na venda e no uso da droga; crianças obrigadas a trabalhar ou alistadas para combater; inocentes marcados para sempre pela desagregação familiar; pequenos sumidos no ignóbil tráfico de órgãos e pessoas. E que dizer da tragédia da SIDA com consequências devastadoras na África? Fala-se já de milhões de pessoas atingidas por este flagelo, e muitíssimas delas contagiadas desde o nascimento. A humanidade não pode fechar os olhos perante um drama tão preocupante!

4. Que mal fizeram estas crianças para merecer tanto sofrimento? Dum ponto de vista humano, não é fácil, antes talvez seja impossível, encontrar resposta para esta pergunta inquietante. Só a fé nos ajuda a penetrar num abismo tão profundo de sofrimento. Jesus, «obedecendo até à morte e morte de cruz» (Fl 2, 8), assumiu sobre Ele o sofrimento humano, iluminando-o com a luz esplendorosa da ressurreição. Com a sua morte, venceu para sempre a morte.

Durante a Quaresma, preparamo-nos para reviver o Mistério Pascal, que ilumina com a esperança a nossa existência inteira, incluindo os seus aspectos mais complexos e dolorosos. A Semana Santa voltará a propor-nos, através dos ritos sugestivos do Tríduo Pascal, este mistério de salvação. 

Amados Irmãos e Irmãs, encetemos confiadamente o itinerário quaresmal, animados por uma mais intensa oração, penitência e atenção aos necessitados. Que a Quaresma seja, de modo particular, uma ocasião útil para dedicar maior cuidado às crianças, no seu próprio ambiente familiar e social: elas são o futuro da humanidade.

5. Com a simplicidade típica das crianças, voltamo-nos para Deus, chamando-Lhe – como Jesus nos ensinou – «Abba», Pai, na oração do «Pai nosso».

O Pai nosso! Repitamos frequentemente esta oração durante a Quaresma, repitamo-la com íntimo enlevo. Chamando a Deus «Pai nosso», tomaremos consciência de ser seus filhos e sentir-nos-emos irmãos entre nós. Deste modo, ser-nos-á mais fácil abrir o coração aos pequeninos, de acordo com o convite de Jesus: «Quem acolher em meu nome uma criança como esta, acolhe-Me a Mim» (Mt 18, 5).

Com estes votos, sobre cada um invoco a bênção de Deus, por intercessão de Maria, Mãe do Verbo de Deus feito homem e Mãe da humanidade inteira.

Vaticano, 8 de Dezembro de 2003.

JOANNES PAULUS PP. II    

Fonte: © Copyright – Libreria Editrice Vaticana

Quaresma

«A felicidade está mais em dar do que em receber» (At 20,35)

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA SÃO JOÃO PAULO II PARA A QUARESMA DE 2003

Caríssimos Irmãos e Irmãs,

1. A Quaresma, tempo «forte» de oração, de jejum e de compromisso com todos os que passam necessidade, oferece a cada cristão a possibilidade de se preparar para a Páscoa através de um sério discernimento da própria vida, confrontando-se especialmente com a Palavra de Deus, que ilumina o itinerário quotidiano dos crentes.

Este ano, como guia da reflexão quaresmal, queria propor a frase dos Actos do Apóstolos: «A felicidade está mais em dar do que em receber» (20,35). Não se trata de uma simples solicitação moral, nem de um imperativo externo ao homem. A inclinação ao dom está inscrito genuína e profundamente no coração humano: cada pessoa percebe o desejo de entrar em contacto com os outros, e realiza-se plenamente a si própria quando se dá livremente aos outros.

2. Infelizmente, a nossa época está influenciada por uma mentalidade particularmente sensível às sugestões do egoísmo, sempre pronto a despertar-se no espírito humano. No âmbito social, em particular nos mass-média, a pessoa é frequentemente solicitada por mensagens que insistentemente, de modo aberto ou dissimulado, exaltam a cultura do efémero e do hedonismo. Mesmo não deixando de atender aos outros por ocasião de calamidades ambientais, de guerras ou de outras emergências, de modo geral não é fácil promover uma cultura da solidariedade. O espírito do mundo altera a inclinação interior para o dom desinteressado de si mesmo aos outros, induzindo a satisfazer os próprios interesses particulares. O desejo de acumular bens é sempre mais incentivado. É, sem dúvida, natural e justo que cada qual, através do uso das próprias qualidades e o exercício do próprio trabalho, se esforce por obter aquilo de que necessita para viver, mas a exagerada ambição de possuir impede a criatura humana de abrir-se ao Criador e aos seus semelhantes. Como são válidas em todas as épocas as palavras de Paulo a Timóteo: «A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por causa do qual alguns se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições» (1 Tim 6,10)!

A exploração do homem, a indiferença pelo sofrimento alheio, a violação das normas morais são somente alguns dos resultados da ambição de ganho. Frente ao triste espectáculo da persistente pobreza que atinge boa parte da população mundial, como não reconhecer que o lucro perseguido a todo custo e a falta de atenção efectiva e responsável pelo bem comum concentram uma grande quantidade de recursos nas mãos de poucos, enquanto o resto da humanidade sofre na miséria e no abandono?

Fazendo apelo aos crentes e a todos os homens de boa vontade, desejo reafirmar um princípio óbvio por si mesmo, apesar de não raro desantendido: é necessário procurar não o bem de um restrito círculo de privilegiados, mas a melhoria das condições de vida de todos. Somente sobre este fundamento se poderá construir aquela ordem internacional, orientada realmente para a justiça e na solidariedade, que todos almejam.

3. «A felicidade está mais em dar do que em receber» . Aderindo à solicitação interior de dar-se pessoalmente aos outros sem nada pretender, o crente experimenta uma profunda satisfação interior.

O esforço do cristão em promover a justiça, o seu empenho na defesa dos mais débeis, a sua acção humanitária de conseguir pão para quem falta e de curar os enfermos atendendo a todas as emergências e necessidades, extraem força daquele singular e inesgotável tesouro de amor que é a entrega total de Jesus ao Pai. O crente é levado a seguir os passos de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, que, numa perfeita adesão à vontade do Pai, despojou-se e humilhou-Se a Si mesmo (cf. Fil 2,6 ss) entregando-Se a nós com um amor total e desinteressado, até à morte na cruz. Do Calvário irradia de um modo eloquente a mensagem do amor trinitário pelos seres humanos de cada época e lugar.

Santo Agostinho observa que somente Deus, o Sumo Bem, é capaz de vencer as misérias do mundo. A misericórdia e o amor pelo próximo devem, portanto, brotar de uma relação viva com Deus e a Ele referir-se constantemente, pois a nossa alegria consiste em estar junto de Cristo (cf. De civitate Dei, Lib. 10, cap. 6; CCL 39, 1351 ss).

4. O Filho de Deus amou-nos primeiro, quando «eramos pecadores» (Rom 5,8), sem nada pretender, nem impor-nos a prioriqualquer condição. Diante desta constatação, como não ver na Quaresma a ocasião propícia para corajosas opções de altruísmo e generosidade? Ela proporciona a arma prática e eficaz do jejum e da esmola para lutar contra o desmedido apego ao dinheiro. Privar-se não só do supérfluo, mas também de algo mais para distribuí-lo a quem passa necessidade, contribui para aquele desprendimento de si próprio sem o qual não há autêntica prática de vida cristã. Além disso, o baptizado alimentando-se com uma contínua oração, demonstra a efectiva prioridade que Deus assume na sua existência.

É o amor de Deus infundido em nossos corações que deve inspirar e transformar o nosso ser e o nosso agir. Que o cristão não se iluda de poder conseguir o verdadeiro bem dos irmãos, se não vive a caridade de Cristo. Mesmo se conseguisse modificar importantes factores sociais ou políticos negativos, todo o resultado seria efémero sem a caridade. A mesma possibilidade de dar-se pessoalmente aos outros é um dom e brota da graça de Deus. Como ensina S. Paulo, «Deus é que produz em nós o querer e o operar segundo o seu beneplácito» (Fil 2,13).

5. Ao homem de hoje, muitas vezes insatisfeito com uma existência vazia e efémera e à procura da alegria e do amor autênticos, Cristo propõe o próprio exemplo convidando a segui-lo. A quem O ouve, Ele pede para consumir a vida pelos irmãos. Desta dedicação, nascem a plena realização de si mesmo e a alegria, como demonstra o exemplo eloquente daqueles homens e mulheres que, renunciando à própria tranquilidade, não hesitaram em gastar a própria vida como missionários nas diversas partes do mundo. Testemunha-o a decisão daqueles jovens que, animados pela fé, abraçaram a vocação sacerdotal ou religiosa para colocar-se ao serviço da «salvação de Deus». Prova-o o número sempre maior de voluntários que, com imediata disponibilidade, dedicam-se aos pobres, aos anciãos, aos enfermos e a quantos padecem necessidade.

Recentemente assistiu-se a uma louvável competição de solidariedade pelas vítimas das inundações na Europa, dos terremotos na América Latina e na Itália, das epidemias na África, das erupções vulcânicas nas Filipinas, sem esquecer as outras partes do mundo ensanguentadas pelo ódio ou pela guerra.

Nestas circunstâncias, os meios de comunicação social realizam um significativo serviço, tornando mais directa a participação e mais viva a disponibilidade para apoiar quem se encontra no sofrimento e em dificuldade. Às vezes não é o imperativo cristão do amor que motiva a intervenção em beneficio dos outros, mas uma natural compaixão. Mas, quem assiste o necessitado goza sempre da benevolência de Deus. Nos Actos do Apóstolos, lê-se que a discípula Tabita foi salvada, porque fez bem ao próximo (cf. 9,36 ss). O centurião Cornélio obtém a vida eterna pela sua generosidade (cf. ib. 10,1-31).

O serviço aos necessitados pode ser, para os «afastados», um caminho providencial para encontrar a Cristo, porque o Senhor Se excede no prémio por todo o dom feito ao próximo (cf. Mt 25,40).

Desejo vivamente que a Quaresma seja para os crentes um período propício para propagar e testemunhar o Evangelho da caridade em todo o lugar, pois a vocação à caridade constitui o âmago de toda a autêntica evangelização. Isto mesmo confio à intercessão de Maria, Mãe da Igreja. Seja Ela quem nos acompanhe no itinerário quaresmal. Com tais sentimentos, de coração abençoo a todos com afecto.

Vaticano, 7 de Janeiro de 2003

IOANNES PAULUS PP. II

Fonte: © Copyright – Libreria Editrice Vaticana

Quaresma

«Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8).

MENSAGEM DO PAPA SÃO JOÃO PAULO II PARA A QUARESMA DE 2002

Caríssimos Irmãos e Irmãs,

1. Preparamo-nos para percorrer o caminho da Quaresma que nos conduzirá às solenes celebrações do mistério central da fé: o mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo. Dispomo-nos a viver o tempo propício que a Igreja oferece aos crentes para meditar a obra da salvação realizada pelo Senhor na Cruz. O desígnio salvífico do Pai celestial realizou-se com o dom livre e total do Filho unigénito aos homens. «A minha vida ninguém Ma tira; sou Eu que a dou por Mim mesmo» (Jo 10, 18), afirma Jesus, deixando bem claro que é voluntariamente que sacrifica a sua mesma vida pela salvação do mundo. Para confirmar este dom tão grande de amor, o Redentor acrescenta: «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13).

A Quaresma, ocasião providencial de conversão, ajuda-nos a contemplar este supremo mistério de amor. Ela constitui um retorno às raízes da fé, porque meditando sobre o dom incomensurável de graça que é a Redenção, não podemos deixar de constatar que tudo nos foi dado por iniciativa amorosa de Deus. Para meditar precisamente sobre este aspecto do mistério salvífico, escolhi como tema da mensagem quaresmal deste ano as palavras do Senhor: «Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8).

2. Deus entregou-nos livremente o seu Filho: quem pôde ou pode merecer semelhante privilégio? Afirma São Paulo: «Todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela sua graça» (Rom 3, 23-24). Deus amou-nos com infinita misericórdia sem levar em conta a condição de grave ruptura que o pecado causara na pessoa humana. Ele inclinou-Se benevolamente sobre a nossa enfermidade, vendo esta como ocasião para uma nova e ainda mais esplêndida efusão do seu amor. A Igreja não cessa de proclamar este mistério de infinita bondade, exaltando a livre decisão divina e o seu desejo, não de condenar o homem, mas de o readmitir à comunhão conSigo.

«Recebestes de graça, dai de graça». Que estas palavras evangélicas ressoem no coração de cada comunidade cristã durante a sua peregrinação penitencial para a Páscoa. A Quaresma, evocando o mistério da morte e ressurreição do Senhor, leve todo o cristão a maravilhar-se intimamente com a grandeza de tal dom. Sim! Recebemos gratuitamente. Não será por acaso a nossa existência totalmente marcada pela benevolência de Deus? O desabrochar da vida e o seu prodigioso desenvolvimento é um dom. E precisamente por ser dom, a existência não pode ser considerada como domínio ou propriedade privada, ainda que as potencialidades, de que hoje dispomos para melhorar a sua qualidade, poderiam fazer supor o contrário, ou seja, que o homem seja o seu «dono». De facto, as conquistas da medicina e da biotecnologia poderiam às vezes levar o homem a imaginar-ser como o criador de si próprio, e a ceder à tentação de manipular «a árvore de vida» (Gn 3, 24).

Vale a pena reafirmar aqui que, nem tudo aquilo que seja tecnicamente possível, é lícito moralmente. Se é louvável o esforço da ciência por garantir uma qualidade de vida mais em consonância com a dignidade do homem, jamais deve ser esquecido que a vida humana é um dom, e que esta permanece sendo um valor, mesmo quando é atingida pelo sofrimento e a ancianidade. Um dom que deve ser sempre acolhido e amado: gratuitamente recebido e gratuitamente colocado ao serviço dos demais. 

3. A Quaresma, ao propor-nos novamente o exemplo de Cristo que Se imolou por nós no Calvário, ajuda-nos de maneira singular a compreender que a vida é redimida n’Ele. Através do Espírito Santo, Ele renova a nossa vida e torna-nos participantes daquela mesma vida divina, que nos introduz na intimidade de Deus e faz-nos experimentar o seu amor por nós. Trata-se de um dom sublime, que o cristão deve proclamar com alegria. São João escreve no seu Evangelho: «E a vida eterna consiste nisto: Que Te conheçam a Ti, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste» (Jo 17,3). Esta vida, que nos foi comunicada pelo Baptismo, deve ser continuamente alimentada por nós, como uma fiel resposta individual e comunitária, pela oração, a celebração dos Sacramentos e o testemunho evangélico.

Tendo, com efeito, recebido a vida gratuitamente, devemos, por nossa vez, doá-la de modo gratuito aos irmãos. É o que Jesus pede aos discípulos, ao enviá-los como suas testemunhas pelo mundo: «Recebestes de graça, dai de graça». O primeiro dom a oferecer é uma vida santa, testemunha do amor gratuito de Deus. Que o itinerário quaresmal seja para todos os crentes um apelo constante a aprofundar esta nossa peculiar vocação. Devemos abraçar, como crentes, uma existência fundada na «gratuidade», dedicando-nos sem reservas a Deus e ao próximo. 

4. «Que tens tu – admoesta São Paulo – que não hajas recebido? (1Cor  4,7). Amar os irmãos, dedicar-se a eles é uma exigência que brota desta convicção. Quanto mais necessidade têm eles, tanto mais se impõe ao crente a missão de os servir. Por acaso não permite Deus que haja condições de penúria para que, acudindo nós aos outros, aprendamos a libertar-nos do nosso egoísmo e a viver com autêntico amor evangélico? É claro o mandamento de Jesus: «Se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não o fazem já os publicanos?» (Mt 5, 46). O mundo avalia as relações com os outros a partir do interesse e do proveito próprio, segundo uma visão egocêntrica da existência na qual, com frequência, não cabem os pobres e os débeis. Toda pessoa, até a menos dotada, deve, pelo contrário, ser acolhida e amada por si mesma, prescindindo dos seus méritos e defeitos. Antes, quanto mais se acha em dificuldade, tanto mais deve ser objecto do nosso amor concreto. É este amor que a Igreja testemunha, através de numerosas instituições, cuidando dos doentes, marginalizados, pobres e explorados. Deste modo, os cristãos tornam-se apóstolos de esperança e construtores da civilização do amor.

É bem significativo que Jesus tenha pronunciado estas palavras: «Recebestes de graça, dai de graça», precisamente ao enviar os apóstolos a propagar o Evangelho da salvação, primeiro e principal dom por Ele oferecido para a humanidade. Ele quer que o seu Reino, já vizinho (cf. Mt 10,5 ss.), se difunda através de gestos de amor gratuito dos seus discípulos. Assim fizeram os apóstolos na aurora do cristianismo, e aqueles que os encontraram sentiram que eram portadores de uma mensagem maior do que eles mesmos. Como então, também hoje o bem realizado pelos crentes torna-se um sinal e, frequentemente, um convite a crer. Mesmo quando o cristão acode às necessidades do próximo, como no caso do bom samaritano, a sua ajuda nunca é meramente material. Sempre é também anúncio do Reino, que comunica o sentido pleno da vida, da esperança, do amor. 

5. Caríssimos Irmãos e Irmãs! Possa o estilo com que nos preparamos para viver a Quaresma ser este: a generosidade real pelos irmãos mais pobres! Dando-nos de coração, nos tornamos sempre mais cientes de que a nossa doação aos outros é resposta aos numerosos dons que o Senhor continua a conceder-nos. Gratuitamente recebemos, demos gratuitamente!

Haverá período mais oportuno que a Quaresma para dar este testemunho de gratuidade que o mundo tanto necessita? No mesmo amor que Deus nos tem se encerra o apelo para nos darmos gratuitamente aos outros. Agradeço a todos quantos – leigos, religiosos, sacerdotes – prestam nos quatro cantos do mundo este testemunho de caridade. Possa fazer o mesmo cada cristão, nas diversas situações em que se encontre.

Que Maria, Virgem e Mãe do Belo Amor e da Esperança, seja guia e apoio neste itinerário quaresmal. A todos incluo com afecto na minha oração, enquanto de bom grado concedo a cada um, especialmente àqueles que diariamente labutam nas numerosas fronteiras da caridade, uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 4 de Outubro de 2001, festa de São Francisco de Assis.

IOANNES PAULUS PP. II

Fonte: © Copyright – Libreria Editrice Vaticana

Quaresma

“A caridade não se ofende com o mal recebido” (1 Cor 13, 5)

MENSAGEM DO PAPA SÃO JOÃO PAULO II PARA A QUARESMA DE 2001

A caridade não se ofende com o mal recebido” (1 Cor 13, 5)

1. “Subimos a Jerusalém” (Mc 10, 33). Com estas palavras o Senhor convida os discípulos a percorrer com Ele o caminho que da Galileia leva ao lugar onde se realizará a sua missão redentora.

Este caminho para Jerusalém, que os Evangelistas apresentam como o coroamento do itinerário terrestre de Jesus, constitui o modelo da vida do cristão, empenhado em seguir o Mestre no caminho da Cruz. Cristo também faz aos homens e às mulheres de hoje o convite a “subir a Jerusalém”. E fá-lo com um vigor particular na Quaresma, tempo favorável para se converterem e encontrarem de novo a plena comunhão com Ele, participando intimamente no mistério da sua morte e ressureição.

Por conseguinte, a Quaresma representa para os crentes a ocasião propícia para uma profunda revisão de vida. No mundo contemporâneo, ao lado de generosas testemunhas do Evangelho, não faltam baptizados que, perante o apelo exigente de empreender “a subida a Jerusalém”, assumem uma atitude de resistência surda e por vezes também de aberta rebelião. São situações em que a experiência da oração é vivida de maneira bastante superficial, de forma que a palavra de Deus não incide na existência. O próprio sacramento da Penitência é considerado por muitos insignificante e a Celebração eucarística dominical apenas um dever que se deve cumprir.

De que maneira se pode aceitar o convite à conversão que Jesus nos faz também nesta Quaresma? De que maneira realizar uma séria mudança de vida? Em primeiro lugar, é preciso abrir o coração às mensagens comovedoras da liturgia. O período que prepara para a Páscoa representa um providencial dom do Senhor e uma preciosa possibilidade para se aproximar d’Ele, voltando a si e pondo-se à escuta das suas sugestões interiores.

2. Há cristãos que pensam que podem dispensar este constante esforço espiritual, porque não sentem a urgência de se confrontarem com a verdade do Evangelho. Eles procuram esvaziar e tornar inofensivas, para que não perturbem o seu modo de viver, palavras como:  “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam” (Lc 6, 27). Estas palavras, para estas pessoas, ressoam, como nunca, difíceis de serem aceites e praticadas em coerentes comportamentos de vida. De facto, são palavras que, se forem tomadas a sério, obrigam a uma conversão radical. Ao contrário, quando somos ofendidos e feridos, a tentação é ceder aos mecanismos psicológicos da autocompaixão e da vingança, ignorando o convite de Jesus a amar o próprio inimigo. Contudo, as vicissitudes humanas de cada dia põem em relevo, com grande evidência, o modo como o perdão e a reconciliação sejam irrenunciáveis para realizar uma real renovação pessoal e social. Isto é válido tanto nas relações interpessoais, como nas relações entre comunidades e nações.

3. Os numerosos e trágicos conflitos que dilaceram a humanidade, por vezes provocados por motivos religiosos mal compreendidos, cavaram fossos de ódio e de violência entre muitos povos. Por vezes, isto verifica-se também entre grupos e facções dentro da mesma nação. De facto, acontece assistirmos com um doloroso sentido de impossibilidade, ao desencadear de novas lutas que se consideravam definitivamente aplacadas e tem-se a impressão de que alguns povos estão envolvidos numa espiral de violência que não se pode impedir, que continuará a ceifar numerosas vítimas, sem uma perspectiva concreta de solução. E os desejos de paz, que se elevam de todas as partes do mundo, são ineficazes:  o empenho necessário para encaminhar para a desejada concórdia não consegue afirmar-se.

Perante este cenário perturbador, os cristãos não podem permanecer indiferentes. Eis por que, no Ano jubilar que acabou de se concluir, me fiz voz do pedido de perdão da Igreja a Deus pelos pecados dos seus filhos. Estamos bem conscientes de que as culpas dos cristãos infelizmente ofuscaram o seu rosto imaculado, mas, confiando no amor misericordioso de Deus, que não tem em conta o mal em vista do arrependimento, sabemos que também podemos continuamente empreender de novo o caminho com confiança. O amor de Deus encontra a sua expressão mais nobre precisamente quando o homem, pecador e ingrato, é admitido novamente na plena comunhão com Ele. Nesta óptica, a “purificação da memória” constitui sobretudo a renovada confissão da misericórdia divina, uma confissão que a Igreja, nos seus diversos níveis, é sempre chamada a fazer sua com renovada convicção.

4. O único caminho da paz é o perdão. Aceitar e conceder o perdão torna possível uma nova qualidade de relações entre os homens, interrompe a espiral do ódio e da vingança e rompe as cadeias do mal, que prendem os corações dos adversários. Para as nações que procuram a reconciliação e para quantos desejam uma coexistência pacífica entre indivíduos e povos, não existe outro caminho a não ser este:  o perdão recebido e concedido. Como são ricas de saudáveis ensinamentos as palavras do Senhor:  “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores” (Mt 5, 44-45)! Amar quem nos ofendeu desarma o adversário e pode transformar num lugar de solidária cooperação até um campo de batalha.

Este é um desafio que diz respeito às pessoas individualmente, mas também às comunidades, aos povos e a toda a humanidade. De maneira especial, diz respeito às famílias. Não é fácil converter-se ao perdão e à reconciliação. Reconciliar-se já pode parecer problemático quando na origem está uma culpa própria. Mas se a culpa é do outro, reconciliar-se pode até ser visto como humilhação irracional. Para dar um passo como este é necessário um caminho de conversão interior; é preciso ter a coragem da humilde obediência ao mandamento de Jesus. A sua palavra não deixa dúvidas:  nem só quem provoca a inimizade, mas também quem é vítima dela deve procurar a reconciliação (cf. Mt 5, 23-24). O cristão deve fazer a paz mesmo quando se sente vítima de quem o ofendeu e feriu injustamente. O próprio Senhor agiu desta forma. Ele espera que o discípulo o siga, cooperando assim na redenção do irmão.

Neste nosso tempo, o perdão torna-se cada vez mais uma dimensão necessária para uma autêntica renovação social e para a consolidação da paz no mundo. A Igreja, anunciando o perdão e o amor aos inimigos, está consciente de inserir no património espiritual de toda a humanidade uma maneira nova de se relacionar com os outros; sem dúvida, uma forma difícil, mas rica de esperança. Nisto ela sabe que pode contar com a ajuda do Senhor, que nunca abandona quem a Ele recorre nos momentos difíceis.

5.  “A  caridade…  não  suspeita  mal” (1 Cor 13, 5). Nesta expressão da primeira Carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo recorda que o perdão é uma das formas mais nobres da prática da caridade. O período quaresmal representa um tempo propício para aprofundar melhor o alcance desta verdade. Mediante o sacramento da reconciliação, o Pai doa-nos em Cristo o seu perdão e isto estimula-nos a viver na caridade, considerando o próximo não como um inimigo, mas como um irmão.

Oxalá este tempo de penitência e de reconciliação encoraje os crentes a pensar e a empenhar-se por uma caridade autêntica, aberta a todas as dimensões do homem. Esta atitude interior conduzi-los-á a levar os frutos do Espírito (cf. Gl 5, 22) e a oferecer com um coração novo ajuda material a quem se encontra em necessidade.

Um coração reconciliado com Deus e com o próximo é um coração generoso. Nos dias sagrados da Quaresma a “colecta” assume um significativo valor, porque não se trata de oferecer o que é supérfluo para tranquilizar a própria consciência, mas de assumir com solicitude solidária a miséria existente no mundo. Considerar o rosto dolorido e as condições de sofrimento de tantos irmãos e irmãs deve estimular-nos a partilhar pelo menos uma parte dos próprios bens com quem se encontra em dificuldade. E a oferta quaresmal torna-se ainda mais rica de valor, se quem a faz se libertou do ressentimento e da indiferença, obstáculos que afastam da comunhão com Deus e com os irmãos.

O mundo espera dos cristãos um testemunho coerente de comunhão e de solidariedade. A respeito disto são como nunca  iluminadoras  as  palavras  do apóstolo João:  “Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como estará nele o amor de Deus?” (1 Jo 3, 17).

Irmãos e Irmãs! São João Crisóstomo, ao comentar o ensinamento do Senhor no caminho para Jerusalém, recorda que Cristo não deixa os discípulos sem que conheçam as lutas e os sacrifícios que os esperam. Ele realça que renunciar ao próprio “eu” é difícil, mas não é impossível quando se pode contar com a ajuda de Deus, que nos é concedida “mediante a comunhão com a pessoa de Cristo” (PG 58, 619 s.).

Eis por que nesta Quaresma desejo convidar todos os crentes a uma fervorosa e confiante oração ao Senhor, para que conceda a cada um fazer uma renovada experiência da sua misericórdia.

Só este dom nos ajudará a aceitar e a viver de maneira cada vez mais alegre e generosa a caridade de Cristo, que “não se irrita, não suspeita mal, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade” (1 Cor 13, 5-6).

Com estes sentimentos invoco a protecção da Mãe da Misericórdia para o caminho quaresmal de toda a Comunidade dos crentes e de coração concedo a cada um a Bênção apostólica.

Vaticano, 7 de Janeiro de 2001.

IOANNES PAULUS PP. II

Fonte: © Copyright – Libreria Editrice Vaticana

Quaresma

Eu estarei convosco até ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20).

MENSAGEM DO PAPA SÃO JOÃO PAULO II PARA A QUARESMA DE 2000

Eu estarei convosco até ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20).

Irmãos e Irmãs!

1. A celebração da Quaresma, tempo de conversão e de reconciliação, reveste-se dum carácter muito particular neste ano, porque decorre no Grande Jubileu do ano 2000. De facto, o tempo quaresmal constitui o ponto culminante daquele caminho de conversão e reconciliação que o Jubileu – ano de graça do Senhor – propõe a todos os crentes, para renovarem a sua adesão a Cristo e anunciarem com maior ardor o seu mistério de salvação no novo milénio. A Quaresma ajuda os cristãos a penetrarem mais profundamente neste «mistério escondido desde tempos antigos» (Ef 3, 9): leva-os a confrontarem-se com a Palavra de Deus vivo e pede-lhes que renunciem ao egoísmo a fim de acolherem a acção salvífica do Espírito Santo. 

2. Estávamos mortos pelo pecado (cf. Ef 2, 5): com estas palavras, S. Paulo descreve a situação do homem sem Cristo. Por isso mesmo, o Filho de Deus quis unir-Se à natureza humana, resgatando-a da escravidão do pecado e da morte. 

Trata-se de uma escravidão que o homem experimenta diariamente, sentindo as suas raízes profundas no próprio coração (cf. Mt7, 11). Por vezes, assume formas dramáticas e espantosas, como sucedeu nas grandes tragédias do século XX que se abateram profundamente sobre a vida de tantas comunidades e pessoas, vítimas de inumana violência. Deportações forçadas, eliminação sistemática de povos, desprezo pelos direitos fundamentais da pessoa são as tragédias que ainda hoje, infelizmente, humilham a humanidade. Mas também na vida quotidiana, se manifestam as mais variadas formas de prevaricação, de ódio, de aniquilamento do outro, de mentira… formas essas que têm o homem por vítima e autor. A humanidade está marcada pelo pecado. A sua dramática condição traz à mente este clamor do Apóstolo dos gentios: «Não há nenhum justo, nem um sequer» (Rom 3, 10; cf. Sal 14/13, 3).

3. Perante as trevas do pecado e a impossibilidade do homem se libertar sozinho, aparece em todo o seu esplendor a obra salvífica de Cristo, «que Deus apresentou como vítima de propiciação, pelo seu próprio sangue, mediante a fé, a fim de manifestar a sua justiça» (Rom 3, 25). Cristo é o Cordeiro que tomou sobre Si o pecado do mundo (cf. Jo 1, 29). Partilhou a existência humana «até à morte e morte de cruz» (Fil 2, 8), para resgatar o homem da escravidão do mal e reintegrá-lo na sua dignidade original de filho de Deus. Eis o mistério pascal, onde renascemos! Nele, como recorda a Sequência Pascal, «morte e vida travaram um prodigioso combate». Dizem os Padres da Igreja que, em Jesus Cristo, o demónio ataca toda a humanidade e arma-lhe uma cilada com a morte, da qual, porém, se libertou pela força vitoriosa da ressurreição. No Senhor ressuscitado, quebra-se o poder da morte e, mediante a fé, é oferecida ao homem a possibilidade de acesso à comunhão com Deus. Àquele que acredita é concedida a própria vida de Deus, através da acção do Espírito Santo, enviado «aos que n’Ele crêem (…) como primícias dos seus dons» (IV Oração Eucarística). Assim, a redenção operada na cruz renova o universo e realiza a reconciliação entre Deus e o homem e dos homens entre si.

4. O Jubileu é um tempo de graça que nos convida de forma particular a abrirmo-nos à misericórdia do Pai – que, em seu Filho, Se inclinou sobre o homem – e à reconciliação, grande dom de Cristo. Por conseguinte, este ano deve tornar-se, para os cristãos e para todo o homem de boa vontade, um tempo precioso para experimentar a força renovadora do amor de Deus que perdoa e reconcilia. Deus oferece a sua misericórdia a todo aquele que a quiser acolher, ainda que distante e duvidoso. Assim, ao homem actual, cansado de mediocridade e de falsas ilusões, é-lhe dada a possibilidade de iniciar o caminho duma vida em plenitude. Neste contexto, a Quaresma do Ano Santo 2000 é, por excelência, «o tempo favorável, o dia da salvação» (2 Cor 6, 2), uma ocasião particularmente propícia para «deixar-se reconciliar com Deus» (cf. 2 Cor 5, 20).

Durante o Ano Santo, a Igreja oferece várias oportunidades de reconciliação pessoal e comunitária. Cada diocese indicou lugares especiais, onde os crentes se podem dirigir, para sentirem uma presença particular de Deus e à sua luz reconhecerem o próprio pecado, e para iniciarem, através do sacramento da Reconciliação, um novo caminho de vida. De particular significado se reveste a peregrinação à Terra Santa e a Roma, lugares privilegiados de encontro com Deus pelo seu papel singular na história da salvação. Como não se encaminhar, pelo menos espiritualmente, para a Terra que, há dois mil anos, viu a passagem do Senhor? Lá, «o Verbo encarnou» (Jo 1, 14) e «cresceu em sabedoria, em estatura e em graça» (Lc 2, 52); lá, percorreu «as cidades e as aldeias (…), proclamando a Boa Nova do Reino e curando todas as enfermidades e moléstias» (Mt 9, 35); lá, consumou a missão que o Pai Lhe tinha confiado (cf. Jo 19, 30) e derramou o Espírito Santo sobre a Igreja nascente (cf. Jo 20, 22).

Também eu tenho em mente, precisamente na Quaresma do ano 2000, ir como peregrino à terra do Senhor, às fontes da nossa fé, a fim de celebrar lá o Jubileu bimilenário da Encarnação. Convido todo o cristão para que me acompanhe com a oração quando, nas sucessivas etapas da peregrinação, invocar o perdão e a reconciliação para os filhos da Igreja e para a humanidade inteira.

5. O itinerário de conversão leva a reconciliar-se com Deus e a viver plenamente a vida nova em Cristo: vida de fé, de esperança e de caridade. Estas três virtudes, chamadas «teologais» porque se referem directamente a Deus no seu mistério, foram objecto de aprofundamento especial durante o triénio de preparação para o Grande Jubileu. Agora, a celebração do Ano Santo exige de cada cristão que viva e dê testemunho, de forma mais plena e consciente, de tais virtudes.

A graça do Jubileu impele, antes de mais nada, a renovar a fé pessoal. Esta consiste na adesão ao anúncio do mistério pascal, pelo qual o crente reconhece que lhe é concedida a salvação em Cristo morto e ressuscitado; consagra-Lhe diariamente a própria vida; aceita tudo quanto o Senhor decidir a seu respeito, na certeza de que Deus o ama. A fé é o «sim» do homem a Deus, o seu «amen».

A figura exemplar de crente, para judeus, cristãos e muçulmanos, é Abraão: confiado na promessa recebida, ele segue a voz de Deus que o chama por sendas desconhecidas. A fé ajuda a descobrir os sinais da presença amorosa de Deus na criação, nas pessoas, nos acontecimentos da história e, sobretudo, na obra e na mensagem de Cristo, impelindo o homem a olhar para além de si mesmo, para além das aparências, buscando aquela transcendência onde se manifesta o mistério do amor de Deus por cada criatura.

Com a graça do Jubileu, o Senhor convida-nos, igualmente, a reavivar a nossa esperança. De facto, em Cristo, o próprio tempo é redimido e abre-se para um horizonte de alegria sem fim e de plena comunhão com Deus. O tempo do cristão está marcado pela expectativa das núpcias eternas, antecipadas diariamente no Banquete Eucarístico. Com o olhar voltado para elas, «o Espírito e a Esposa dizem: Vem!» (Ap 22,17), alimentando a esperança que salva o tempo da pura repetição, conferindo-lhe o seu autêntico sentido. Pela virtude da esperança, o cristão atesta que, para além de qualquer mal e limitação que seja, a história traz dentro dela uma semente de bem que o Senhor fará germinar em plenitude. Por isso, ele olha para o novo milénio sem medo, enfrentando os desafios e anseios do futuro com a certeza e a confiança que nasce da fé na promessa divina.

Através do Jubileu, o Senhor pede-nos, enfim, para reacendermos a nossa caridade. O Reino, que Cristo há-de manifestar em todo o seu esplendor no fim dos tempos, está já presente nas situações onde os homens vivem segundo a vontade de Deus. A Igreja é chamada a dar testemunho da comunhão, da paz e da caridade que o caracterizam. Nesta missão, a comunidade cristã sabe que a fé sem obras está morta (cf. Tg 2, 17). Assim, por meio da caridade, o cristão torna visível o amor de Deus pelos homens, revelado em Cristo, e manifesta a sua presença na terra «até ao fim do mundo». Para o cristão, a caridade não é apenas um gesto ou um ideal, mas constitui, de algum modo, o prolongamento da presença de Cristo que Se dá a Si mesmo.

Por ocasião da Quaresma, todos – ricos ou pobres – são convidados a tornar presente o amor de Cristo, através de generosas obras de caridade. Neste ano jubilar, a nossa caridade é chamada de modo especial a manifestar o amor de Cristo aos irmãos carecidos do necessário para viver, a quantos são vítimas da fome, da violência e da injustiça. Esta é a forma de actualizar as exigências de libertação e fraternidade, já indicadas na Sagrada Escritura, e que a celebração do Ano Santo impõe. De facto, o antigo jubileu exigia libertar os escravos, perdoar as dívidas, socorrer os pobres. Hoje novas escravidões e pobrezas ainda mais dramáticas lesam multidões de pessoas, sobretudo em países do chamado Terceiro Mundo. É um grito de dor e de desespero que deve ser acolhido com atenção e disponibilidade por quantos percorrem o caminho jubilar. Como podemos pedir a graça do Jubileu, se permanecemos insensíveis às necessidades dos pobres, se não nos comprometemos a garantir, a todos, os meios necessários para viverem dignamente?

Possa este milénio que se inicia constituir um período em que finalmente seja ouvido e acolhido fraternalmente o apelo de tantos homens, nossos irmãos, que não possuem o mínimo para viver! Espero que os cristãos se tornem promotores, aos mais diversos níveis, de iniciativas concretas para assegurar uma distribuição equitativa dos bens e a promoção humana integral de cada indivíduo.

6. «Eu estarei convosco até ao fim do mundo». Estas palavras de Jesus asseguram-nos que não estamos sozinhos ao anunciar e viver o evangelho da caridade. Também nesta Quaresma do ano 2000, Ele convida-nos a voltar para o Pai, que nos espera de braços abertos, para nos transformar em sinais vivos e eficazes do seu amor misericordioso.

A Maria, Mãe de quantos sofrem e Mãe da divina Misericórdia, confiemos-Lhe as nossas intenções e propósitos. Seja Ela a estrela luminosa do nosso caminho no novo milénio.

Com tais votos, sobre todos invoco a bênção de Deus, Uno e Trino, princípio e fim de todas as coisas, para Quem se eleva, «até ao fim do mundo», este hino de bênção e de louvor: «Por Cristo, com Cristo, e em Cristo, a Vós, Deus Pai todo-poderoso na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amen».

Castel Gandolfo, 21 de Setembro de 1999.

IOANNES PAULUS PP. II

Fonte: © Copyright – Libreria Editrice Vaticana