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No domingo, creia antes de compreender

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Ele viu, e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20,1-9).

Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor | Ano A

O itinerário quaresmal encontra seu ponto culminante na manhã da Ressurreição. Depois do deserto, da luz no monte, do encontro que sacia a sede, da cura da cegueira e do enfrentamento da morte, a Santa Mãe Igreja nos coloca diante do túmulo vazio. O evangelista São João (20,1-9), não há ainda uma aparição gloriosa de Cristo, mas há sinais, ausência, vestígios. E, paradoxalmente, é nesse vazio que nasce a fé pascal.

Maria Madalena vai ao túmulo ainda escuro, o detalhe aqui apresentado provoca-nos a perceber que a ressurreição irrompe na escuridão da experiência humana. São Gregório de Nissa, bispo e um dos “Padres Capadócios” doutor da Igreja, observa que o caminho da fé frequentemente começa na obscuridade, quando o homem ainda não compreende plenamente o agir de Deus, mas se coloca em movimento.

Ao chegar, Maria vê que a pedra foi removida e sua primeira reação não é de fé, mas de inquietação, “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20, 2b). Ainda não há compreensão da Ressurreição, há apenas a percepção de que algo está fora da ordem esperada, isso porque a experiência pascal não começa com certezas, mas com um deslocamento interior.

Pedro e o outro discípulo correm ao túmulo. A corrida revela urgência, desejo e inquietação. O discípulo amado chega primeiro, mas não entra, Pedro chega depois e entra. Está aqui demostrada a dinâmica da hierarquia eclesial, o amor intui, mas a autoridade confirma. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, interpreta essa cena afirmando que João representa o amor contemplativo, enquanto Pedro simboliza a autoridade visível da Igreja e ambos são necessários para a compreensão plena do mistério.

Dentro do túmulo, encontram os panos de linho no chão e o sudário dobrado à parte, nesses detalhes descritos pelo autor sagrado, vemos que não há sinais de roubo ou desordem. A disposição dos panos indica um acontecimento que não pode ser explicado por categorias humanas comuns. A morte não foi simplesmente revertida, foi vencida de modo novo.

São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, chama atenção para esse ponto ao afirmar que se o corpo tivesse sido levado, não haveria esse cuidado com os panos. O túmulo vazio não é um enigma caótico, mas um sinal ordenado que aponta para uma realidade superior.

O Evangelho afirma então, “Ele viu e acreditou” (Jo 20, 8b). Antes mesmo de ver o Ressuscitado, já há o início da construção da fé na ressureição. A fé pascal nasce a partir de sinais que exigem interpretação, não é uma evidência imediata, mas uma adesão que envolve inteligência e graça.

Santo Ambrósio, bispo e um dos quatro grandes doutores latinos da Igreja, ensina que a Ressurreição não é compreendida apenas pelos sentidos, mas pela fé iluminada. Ver os sinais não é suficiente, é preciso interpretá-los à luz da Palavra e da ação de Deus.

O texto conclui dizendo que “de fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20,9). A Ressurreição não é um evento isolado, é o cumprimento de uma promessa. Toda a economia da salvação converge para este momento.

Santo Irineu de Lião, “Doctor Unitatis” da Igreja, afirma que Cristo, ao ressuscitar, recapitula toda a história humana e inaugura uma nova criação. A Ressurreição não é apenas a vitória individual de Cristo, é o início de uma nova ordem de existência.

O Domingo da Páscoa não celebra apenas um fato passado, celebra uma realidade presente e operante. A morte foi vencida não apenas como evento biológico, mas como poder que escraviza o homem. Em Cristo, a morte deixa de ser o ponto final e se torna passagem.

A experiência do túmulo vazio nos ensina que Deus age muitas vezes de forma que desestabiliza nossas expectativas. Esperava-se um corpo, encontra-se ausência. Esperava-se continuidade, encontra-se ruptura. Esperava-se fim, encontra-se início. A fé pascal nasce exatamente nesse ponto, quando o homem é capaz de reconhecer que Deus fez algo novo, mesmo sem ainda compreender plenamente.

Também nós, muitas vezes, nos deparamos com túmulos vazios na nossa vida, situações em que Deus não age conforme esperávamos, caminhos que parecem interrompidos, respostas que não vêm da forma prevista. A Ressurreição nos ensina que o agir de Deus não está limitado às nossas expectativas.

Neste Domingo da Páscoa, a Igreja não nos convida apenas a recordar, mas a crer. Crer que a vida venceu a morte. Crer que a última palavra não é o fracasso, nem a dor, nem o pecado. Crer que Cristo vive. E, sobretudo, crer que essa vida nova já começou.

Este é o movimento pascal. Ver os sinais, interpretar à luz da fé e aderir ao mistério. Que também nós, diante do túmulo vazio, sejamos capazes de dar esse passo. Não apenas compreender, mas crer. Porque é na fé que a Ressurreição deixa de ser um acontecimento distante e se torna o princípio de uma vida nova, aqui e agora.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.

Graças a Deus, aleluia, aleluia!