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No domingo, ouça a voz Dele

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“Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10,1-10).

4º Domingo da Páscoa | Ano A

A liturgia pascal avança e, neste domingo, a Santa Mãe Igreja nos coloca diante de uma imagem o pastor e a porta. O evangelista São João ao apresentar Cristo, não o faz apenas com uma metáfora, Ele redefine a compreensão de autoridade, pertença e vida. O discurso não é pastoral no sentido sentimental, mas ontológico, trata da relação entre Cristo e aqueles que lhe pertencem.

O ponto de partida é uma distinção, “quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante” (Jo 10,1). O texto já deixa claro logo no início de que há modos legítimos e ilegítimos de acesso ao rebanho. Não se trata apenas de comportamento moral, mas de origem e missão. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, interpreta que entrar pela porta significa agir em conformidade com Cristo, quem busca conduzir o rebanho sem referência a Ele, inevitavelmente o dispersa.

Cristo então afirma, “eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10,7b).  Ele não se apresenta como um caminho entre outros, mas como o único acesso legítimo. A porta não é apenas passagem, é critério inegociável. Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, explica que Cristo é porta enquanto mediador, por Ele se entra na vida da graça, e fora d’Ele não há acesso à salvação.

Essa afirmação tem consequências diretas, não basta falar em nome de Deus, é necessário estar configurado a Cristo. Não basta conduzir, é necessário conduzir segundo a verdade. A autoridade cristã não é autônoma é derivada do Cristo.

Em contraste, aparecem os “ladrões e assaltantes”. Não se trata apenas de figuras externas, mas de todos os que prometem vida à margem de Deus. São propostas que seduzem, mas não conduzem à verdade. São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, observa que esses “ladrões” são aqueles que exploram o rebanho em benefício próprio, transformando a relação espiritual em instrumento de poder.

A diferença que aparece na relação com as ovelhas, também revela o olhar único de Deus para conosco, o pastor verdadeiro chama cada uma pelo nome, e elas reconhecem sua voz. Não há anonimato, a relação entre Cristo e o discípulo é pessoal, concreta, marcada por reconhecimento mútuo.

São Gregório Magno, papa e “magno” doutor da Igreja, afirma que o verdadeiro pastor não conduz por imposição externa, mas por conhecimento interior, ele fala de tal modo que a verdade ressoa na consciência daqueles que pertencem a Deus.

As ovelhas não seguem um estranho porque não reconhecem sua voz e isso indica um critério espiritual de familiaridade com a verdade. Quem vive em comunhão com Cristo desenvolve uma espécie de discernimento interior, capaz de distinguir o que vem de Deus daquilo que é apenas aparência.

Cristo retoma então a afirmação, “Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,9). A salvação não é apresentada como mera preservação, mas como uma exigência a ser cumprida com a vida. Entrar e sair indica liberdade ordenada, não confinamento, a vida cristã não aprisiona, pelo contrário, ela estrutura a liberdade.

“O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10), com essas palavras está determinada a diferença entre Cristo e tudo o que se opõe a Ele, uma diferença que não é apenas doutrinal, está enraizada na existência do ser. Assim, onde há mentira, há perda de vida. Onde há verdade, há plenitude.

Santo Irineu de Lião, “Doctor Unitatis” da Igreja, sintetiza essa realidade ao afirmar que “a glória de Deus é o homem vivo”. A obra de Cristo não consiste em restringir a vida, mas em elevá-la à sua plenitude. A abundância de que o Evangelho fala não é acúmulo material, mas participação na vida divina.

O 4º Domingo da Páscoa, tradicionalmente associado ao Bom Pastor, nos obriga a uma verificação concreta, por onde estamos entrando? A quais vozes estamos dando atenção? A quem estamos seguindo?

Vivemos em um ambiente saturado de discursos, propostas e promessas. Mas nem toda voz que orienta conduz à vida e nem toda proposta que parece libertadora gera verdadeira liberdade.

A Quaresma nos conduziu à purificação e a Páscoa nos introduz na vida nova. Agora, a questão não é apenas abandonar o que é errado, mas permanecer no que é verdadeiro. Permanecer fiel a voz que chama pelo nome, para passar pela porta que conduz à vida.

Neste 4º Domingo da Páscoa, a Santa Mãe Igreja nos convida a reconhecer que a vida em abundância não é construída autonomamente, ela é recebida, e jamais será fruto de autoafirmação, mas de comunhão.

Que sejamos capazes de reconhecer a voz do Pastor. Que não nos deixemos conduzir por vozes estranhas. E que, entrando por Cristo, encontremos não apenas segurança, mas a verdadeira vida, aquela que não se esgota, porque tem sua origem em Deus.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.

Graças a Deus, aleluia, aleluia!