Sobre ser útil e deixar rastro

No passado, eu ministrava catequese com alguns amigos e entre as turmas havia uma pequena turma de Primeira Eucaristia e, como acontece com qualquer grupo de crianças, encontrávamos todo tipo de comportamento. Algumas eram mais retraídas, outras agitadas, e sempre apareciam perguntas capazes de deixar qualquer adulto desconcertado. Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas de dar catequese para crianças, nunca sabemos exatamente como elas interpretarão aquilo que ensinamos sobre Deus, a Igreja e a vida.

Entre elas havia um garoto que, no começo, nem fazia parte da catequese. Ele via a movimentação, ficava por perto, entrava, olhava e saía. Um dia resolvemos chamá-lo. Depois, algumas catequistas explicaram que ele vivia uma realidade familiar muito difícil. A mãe enfrentava seus próprios problemas e ele passava muito tempo pela rua ou na casa de algum parente. Não tinha a segurança, a rotina e os cuidados que toda criança deveria receber. Alguns suspeitavam que pudesse ser neurodivergente, mas não havia diagnóstico nem acompanhamento adequado. No ano seguinte, entrou informalmente na catequese. Era difícil lidar com ele, por vezes chegava sem os cuidados básicos de higiene e atrapalhava os demais.

Certo dia, eu conduzia um encontro quando ele chegou. Pedi que se sentasse ao meu lado. Não fiz aquilo pensando em realizar algum grande gesto de acolhida, fiz de modo natural. Mas, para ele, pareceu ter um efeito diferente. A partir dali, começou a se aproximar mais de mim. Conversávamos sobre tomar banho, frequentar a escola, porque estava matriculado, mas quase não ia, respeitar os colegas e prestar atenção durante a catequese. Em alguns momentos precisei corrigi-lo com firmeza. Nada disso porque ele fosse uma criança pior, mas porque crianças precisam de adultos que acolham, orientem e coloquem limites.

O tempo passou e, sempre que me encontrava, aquele menino falava comigo. Chamava-me de tio e parava para cumprimentar. Quando havia oportunidade, eu repetia a importância de continuar indo à igreja, participar da Santa Missa, frequentar a escola e tentar construir uma vida diferente daquela realidade difícil. Recentemente, encontrei-o na rua. Passei diante de uma oficina mecânica e lá estava ele, de botina, calça jeans e camisa, ajudando um mecânico com o motor de um carro aberto na calçada. Ele me contou, feliz, que estava trabalhando ali e começando a aprender uma profissão.

Enquanto conversávamos, o mecânico se aproximou e perguntou, “então você é o tio da catequese?”. Respondi que sim. Ele disse que o menino falava muito de mim e dos conselhos recebidos na catequese. Contou que, durante algumas conversas, ele dizia, “meu tio da catequese, me falou isso” e que sempre eram conselhos validos para transformar um menino em um homem de bem. Fiquei um pouco sem graça, sorri e respondi que estava feliz por ele ter encontrado um homem disposto a orientá-lo e a ensinar-lhe um ofício. Eles voltaram ao trabalho e eu segui o meu caminho, mas aquela conversa permaneceu comigo.

Cristo disse, “quem acolher em meu nome uma criança como esta, é a mim que acolhe” (Mt 18,5). Muitas vezes imaginamos que servir a Deus exige grandes obras ou ações reconhecidas por muita gente. Entretanto, quase sempre Deus nos entrega uma pessoa concreta, em uma situação comum, e espera que façamos o bem possível naquele momento, como nos ensina São Franscisco de Sales, “as grandes ocasiões de servir a Deus são raras. As pequenas aparecem sempre”. E o Catecismo recorda que os cristãos devem ser especialmente gratos àqueles de quem receberam o dom da fé, mencionando os pais, os pastores, os catequistas, os professores e os amigos (cf. CIC, n. 2220). Uma palavra simples, uma correção paciente ou um gesto de acolhida pode permanecer na vida de alguém por muito mais tempo do que imaginamos.

O Concílio Vaticano II ensina que crianças e adolescentes têm direito a uma educação que desenvolva harmonicamente suas capacidades físicas, morais e intelectuais, ajudando-os também a estimar os valores morais e a conhecer e amar a Deus (cf. Gravissimum Educationis, n. 1-2). O mesmo Concílio orienta os adultos a estabelecerem com os jovens um diálogo amigo, estimulando-os primeiro pelo exemplo e, depois, por conselhos prudentes e ajuda eficaz (cf. Apostolicam Actuositatem, n. 12). Às vezes, damos catequese no automático, cansados, sem a paciência necessária ou sem perceber a responsabilidade que temos diante de quem nos escuta. Eu não fiz algo extraordinário, mas estive presente quando ele precisava que algum adulto o enxergasse.

São João Bosco ensinava que “a educação é coisa do coração e só Deus é o seu dono” (Memórias Biográficas, XVI, 447). Educar não é apenas transmitir informações, mas tocar a vida com caridade, firmeza e esperança. Não basta ensinar a criança a repetir uma oração, responder a uma pergunta do catecismo ou decorar os mandamentos. É preciso ajudá-la a perceber que é amada por Deus e que sua vida possui dignidade, direção e finalidade. Para isso, o catequista precisa compreender que não é dono do coração de ninguém. Nós podemos orientar, corrigir, aconselhar e acompanhar, mas somente Deus conhece plenamente aquilo que acontece dentro de cada pessoa.

São Josemaria Escrivá escreveu no primeiro ponto de Caminho, “que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil. Deixa rasto. Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor”. Por somos chamados a ser útil e deixar rastro, não o rastro da vaidade, de quem deseja ser lembrado, elogiado ou reconhecido por aquilo que fez, mas o rastro da fé e do amor que ajuda outra pessoa a encontrar um caminho melhor. O verdadeiro rastro cristão não aponta para nós mesmos. Ele aponta para Cristo.

Esse rastro não é obra exclusivamente nossa, São Paulo ensina, “eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer” (ICor 3,6). Talvez eu tenha plantado uma pequena semente. Outras catequistas regaram, a escola poderá regar, e aquele mecânico agora também rega ao ensinar-lhe trabalho, responsabilidade e disciplina. Mas é Deus quem faz crescer. Nós não controlamos o fruto de nossas ações e, muitas vezes, sequer viveremos o suficiente para enxergá-lo. A nós cabe semear com fidelidade, confiando que a graça de Deus pode alcançar lugares que nossas palavras jamais alcançariam.

Eu me vi um pouco naquele menino porque, muitos anos atrás, também fui um adolescente aprendendo mecânica em uma oficina, acompanhado por alguém que teve paciência para ensinar. Talvez seja assim que os rastros se encontram, alguém faz o bem por nós e, depois, Deus coloca outra pessoa em nosso caminho para que entreguemos um pouco do que recebemos. Aquilo que fizeram por nós não deve terminar em nós.

Por isso, precisamos nos perguntar com sinceridade, o que estamos fazendo para sermos úteis? Que rastro estamos deixando na vida das crianças, dos jovens, dos familiares e das pessoas que Deus colocou ao nosso redor? Estamos deixando um caminho que aproxima as pessoas do bem ou apenas as marcas do nosso mau humor, da nossa impaciência e da nossa indiferença? Que o nosso rastro conduza à dignidade, ao trabalho, à responsabilidade, à fé e, acima de tudo, a Cristo.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

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