
Aqueles que me conhecem mais de perto sabem que eu nunca gostei de academia e, para falar a verdade, continuo não gostando. Acho um pouco estranho aquele ambiente onde caminhamos sem sair do lugar, levantamos coisas para colocá-las exatamente onde estavam e fazemos uma quantidade considerável de força sem construir nada além dos próprios músculos. Não digo isso para diminuir sua utilidade, até porque estou lá por orientação médica e entendo que cuidar da saúde também é uma responsabilidade. São Paulo nos lembra que nosso corpo é templo do Espírito Santo e que devemos glorificar a Deus também nele (cf. I Cor 6,19-20). Então vou, ainda que, se dependesse exclusivamente da minha vontade, provavelmente encontraria outra coisa para fazer naquele horário.
A academia, porém, é também um ambiente que apresenta alguns desafios para quem procura viver seriamente a fé. Há muita preocupação com a aparência, com o formato do próprio corpo e, inevitavelmente, com o corpo das outras pessoas. Algumas dessas preocupações são legítimas, ligadas à saúde e ao bem-estar, outras facilmente alimentam a vaidade e transformam o corpo em objeto de exposição ou de desejo. Mas não podemos escolher viver como católicos apenas nos lugares onde é fácil ser católico. Se nossa fé funciona somente dentro da igreja, diante do sacrário e cercados por pessoas que pensam como nós, então talvez ainda precisemos aprender a levá-la para o mundo.
Recentemente, eu estava na academia quando quatro mulheres conversavam em um canto. Falavam sobre roupas, sobre quais chamavam mais atenção e sobre a maneira como os homens olhavam para elas. Quando me aproximei para beber água, uma delas interrompeu a conversa, cumprimentou-me pelo nome e disse alguma coisa elogiosa sobre a maneira como eu tratava as mulheres naquele ambiente. Minha primeira surpresa foi ela saber meu nome, porque sinceramente eu nem sabia quem ela era. Agradeci e fui beber água. Quando voltava, outra perguntou onde eu havia aprendido a tratar e respeitar as mulheres daquela maneira.
Achei a pergunta curiosa porque, em princípio, parece-me natural que alguém aprenda isso em casa. Se existe uma mulher que me ensinou desde pequeno como uma mulher deve ser respeitada, foi minha mãe. Mas não foi essa a resposta que me veio naquele momento. Respondi quase automaticamente:
– É porque é pecado.
As quatro eram protestantes e imediatamente perguntaram.
– Ensina isso na sua Igreja?
Respondi que sim. Faz parte dos Mandamentos, “Não cobiçarás […] a mulher do teu próximo” (Ex 20,17). Uma delas sorriu e perguntou.
– Então, se for solteira, pode?
Foi aí que percebi o potencial caminho equivocado que ela poderia ir e a oportunidade de deixar para ela uma pequena luz do Deus do Senhor e respondi.
– O ponto é muito mais profundo, se ela não é minha esposa, não me cabe cultivá-la interiormente como objeto do meu desejo. O próprio Cristo disse, “todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5,28). O problema não começa apenas no toque ou no adultério consumado. Pode começar muito antes, na maneira como escolhemos olhar.
E aqui para você que lê eu acrescento que, perceber que alguém é bonito não é pecado. Sentir uma atração que surge espontaneamente também não significa que alguém tenha cometido pecado mortal só porque alguma coisa passou pela cabeça. O próprio Catecismo da Igreja Católica ensina que a concupiscência, embora incline ao pecado, “sem ser nenhuma falta em si mesma”, precisa ser governada pela razão e pela graça (cf. CIC, n. 2515). O combate começa quando deixamos de simplesmente perceber e passamos voluntariamente a alimentar, imaginar, desejar possuir e reduzir aquela pessoa àquilo que seu corpo pode nos oferecer.
Por isso o Catecismo tem uma expressão muito bonita ao ensinar sobre a pureza diz que ela permite “aceitar o outro como um próximo” e compreender seu corpo como templo do Espírito Santo (cf. CIC, n. 2519). Isso muda completamente o olhar. Aquela mulher diante de mim deixa de ser um corpo que me agrada e volta a ser aquilo que sempre foi, uma pessoa, criada à imagem de Deus, com uma história, uma dignidade, uma vocação e uma eternidade. A castidade não nos ensina a desprezar a beleza, ensina-nos a contemplá-la sem desejar possuí-la.
São Josemaria Escrivá dizia que “o sexo é coisa santa e nobre”, justamente porque faz parte do projeto de Deus e encontra sua expressão própria no matrimônio. Por isso, a pureza cristã não é medo do corpo nem uma espécie de guerra contra a sexualidade. É aprender a ordenar aquilo que sentimos para que sejamos capazes de amar verdadeiramente. Ele recomendava a guarda dos sentidos e do coração, a frequência aos sacramentos e a oração como meios concretos para conservar uma vida limpa.
Santo Agostinho, que conhecia muito bem esse combate, chegou a reconhecer em suas Confissões que a continência não depende apenas da força humana. Sua oração tornou-se célebre, “dá o que mandas e manda o que quiseres”. A pureza, portanto, não é troféu de quem se considera melhor do que os outros. É graça que precisa ser pedida e correspondida diariamente. O próprio Catecismo utiliza esse testemunho de Santo Agostinho ao falar do combate pela pureza (cf. CIC, n. 2520).
Depois daquela conversa, uma delas comentou que admirava como a Igreja Católica parecia possuir uma resposta firme para aquele tipo de questão, sem precisar inventar a nada na hora conforme a situação. Sorri e respondi que estávamos aceitando visitas, novos membros, novos filhos e novos irmãos, e que, quando quisesse, poderia aparecer. Ela respondeu que havia muito tempo que não entrava em uma igreja católica. Respondi que não precisava se preocupar, quando nós dois estivéssemos bem velhinhos, a Igreja ainda estaria lá. Ela sorriu, concordou, e cada um seguiu sua vida.
Fiquei pensando depois como “não cobiçar a mulher do próximo” é um exercício muito mais profundo do que simplesmente evitar o adultério. É educar os olhos, a imaginação e o coração. O Catecismo fala explicitamente da “pureza do olhar, exterior e interior” e da disciplina dos sentidos e da imaginação (CIC, n. 2520). Não importa se estamos na igreja, na academia, na praia, no trabalho ou caminhando pela rua. Não podemos controlar tudo aquilo que aparecerá diante dos nossos olhos, mas podemos aprender a controlar o segundo olhar, aquele que deliberadamente permanece, retorna e transforma uma pessoa em objeto.
E existe ainda algo que aquela conversa me recordou. Muitas vezes imaginamos que evangelizar significa vencer debates, possuir argumentos perfeitos ou fazer grandes discursos sobre a fé. Nem sempre. Às vezes, mais frequentemente do que somos capazes de perceber, alguém simplesmente observa como você se comporta quando poderia agir de outra maneira. Observa aquilo que você olha, aquilo que evita, a forma como fala e o respeito com que trata as pessoas. São Pedro recomenda aos cristãos que tenham uma conduta exemplar entre aqueles que não creem, para que, contemplando suas boas obras, glorifiquem a Deus (cf. I Pe 2,12).
Isso porque não é a força dos nossos argumentos que converterá uma alma. Podemos explicar, testemunhar, convidar e apresentar aquilo que a Santa Mãe Igreja ensina, mas o restante é obra da graça. Como ensinava São Paulo, “eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fazia crescer” (I Cor 3,6).
Talvez seja esse um bom exercício para qualquer católico, entrar nos ambientes comuns da vida e permitir que as pessoas percebam, sem nenhuma necessidade de anúncio, que algumas coisas fazemos e outras deixamos de fazer simplesmente porque amamos a Deus e desejamos obedecer à sua Santa Igreja. Pois no fim das contas, até o modo como olhamos pode ser uma pequena forma de evangelização.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

Você precisa fazer login para comentar.