Sobre a generosidade

“Por que Elon Musk não doa toda a sua fortuna?”. Essa foi a pergunta com a qual começava um vídeo que me enviaram recentemente no Instagram. Antes mesmo de assistir até o fim, pensei em uma resposta muito simples, porque ele não quer. Encerrada a conversa. 

Evidentemente, eu não sei quanto ele doa, para quem doa, quais compromissos possui ou o que se passa em sua consciência, e nem esse é o ponto desta reflexão. O que me chamou atenção foi outra coisa, como nos tornamos especialistas em decidir aquilo que os outros deveriam fazer com aquilo que possuem.

Esse tipo de questionamento aparece o tempo todo. Ninguém deveria possuir tanto dinheiro, bilionários não deveriam existir, quem tem muito deveria dar mais aos pobres. Não pretendo entrar aqui na discussão sobre a origem da riqueza, os sistemas econômicos ou os limites da propriedade privada. A própria Santa Mãe Igreja reconhece o direito à propriedade, mas também ensina que os bens criados por Deus possuem uma destinação universal. O Catecismo da Igreja Católica afirma que quem possui legitimamente um bem deve considerá-lo não apenas como seu, mas também de modo que possa beneficiar os outros, e chama seu proprietário de “administrador da Providência” (cf. CIC, n. 2404). Portanto, possuir não nos dispensa da caridade, ao contrário, aumenta nossa responsabilidade diante de Deus.

Mas quero voltar ao básico, porque muitas vezes é exatamente nele que nos perdemos. A vida moderna está cheia de inveja e cobiça que conseguem, inclusive, vestir roupas de caridade. E aqui precisamos fazer uma distinção, preocupar-se verdadeiramente com os pobres não é inveja, denunciar injustiças também não é inveja, a Santa Mãe Igreja sempre fez as duas coisas. O problema começa quando a nossa preocupação com os pobres existe somente quando podemos distribuir os bens dos outros. Quando somos extremamente generosos com o dinheiro que não é nosso e extremamente cuidadosos quando a caridade precisa sair do nosso bolso.

O Catecismo define a inveja como a tristeza diante do bem alheio acompanhada do desejo desordenado de possuí-lo (cf. CIC, n. 2539). Santo Agostinho a chamava de “pecado diabólico por excelência”. É uma definição que merece ser examinada com calma, porque existe uma diferença enorme entre olhar para quem possui muito e perguntar se ele está cumprindo suas obrigações de justiça e olhar para quem possui mais do que nós com ressentimento simplesmente porque gostaríamos que ele não possuísse. A primeira pergunta pode nascer da justiça, a segunda pode nascer da inveja. Só Deus conhece perfeitamente o coração, mas nós precisamos examinar o nosso.

E talvez seja justamente aí que o ensinamento de Cristo se torne incômodo, “por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão e não percebes a trave que está no teu?” (cf. Mt 7,3-5). Antes de contabilizar a caridade do bilionário, precisamos abrir a contabilidade da nossa própria vida. Não para ignorarmos as obrigações sociais daqueles que possuem muito, mas porque, no juízo, provavelmente não seremos interrogados sobre aquilo que Elon Musk ou qualquer outro super rico fez com o próprio dinheiro. Seremos interrogados sobre aquilo que nós fizemos com aquilo que Deus colocou em nossas mãos.

Quem possui bilhões responderá diante de Deus pelos bilhões. Mas e você, o que está fazendo com os seus centavos? O que está fazendo com o seu tempo? Com sua força física? Com sua inteligência? Com sua profissão? Com aquele conhecimento que poderia ensinar gratuitamente a alguém? Com aquela tarde que poderia dedicar a um idoso? Com aquele alimento que poderia dividir? Com aquela pessoa da sua família que precisa muito mais da sua presença do que do seu dinheiro?

Às vezes falamos da caridade como se ela fosse privilégio dos ricos, mas Cristo desmonta essa desculpa diante do cofre do Templo. Muitos ricos depositavam grandes quantias, mas uma pobre viúva colocou apenas duas pequenas moedas. Jesus chamou os discípulos e explicou que ela havia oferecido mais do que todos, porque os outros deram do que lhes sobrava, enquanto ela ofereceu, em sua pobreza, aquilo que possuía (cf. Mc 12,41-44). A generosidade cristã nunca foi medida apenas pelo tamanho da quantia, Deus olha também para o coração de quem entrega.

São Paulo escreve aos coríntios e afirma, “Deus ama quem dá com alegria” (IICor 9,7). Existe uma diferença profunda entre dar porque fomos constrangidos, dar porque queremos parecer bons e dar porque reconhecemos no outro um irmão. A verdadeira caridade não nasce do ressentimento contra quem possui mais, mas do amor por quem necessita. Ela não pergunta primeiro quanto o outro deveria dar. Ela pergunta, o que eu posso oferecer?

Isso não significa aliviar a consciência dos ricos, muito pelo contrário, São João Crisóstomo é duríssimo ao falar sobre aqueles que possuem bens e ignoram os necessitados. O Catecismo cita seu ensinamento de que negar aos pobres a participação em nossos bens é privá-los daquilo de que necessitam (cf. CIC, n. 2446). A mesma Igreja que protege a propriedade privada ensina que o apego egoísta às riquezas é incompatível com a vida cristã, pois a propriedade possui direitos, mas também possui deveres. Quanto mais recebemos, maior é a responsabilidade de fazer frutificar aquilo que Deus nos confiou.

O problema é que costumamos aplicar essa verdade com enorme facilidade aos outros. Para aquele que possui cem milhões, imediatamente sabemos quanto deveria doar. Para quem recebe vinte mil, sabemos quanto poderia ajudar. Para quem tem uma casa grande, sabemos quantas pessoas poderia acolher. Mas quando chegamos ao nosso salário, ao nosso patrimônio, ao nosso tempo e às nossas comodidades, surgem imediatamente dezenas de justificativas. Então a exigência moral muda de tamanho conforme se aproxima do nosso bolso.

Santa Rosa de Lima dizia que, quando servimos aos pobres e aos doentes, servimos ao próprio Jesus. O Catecismo utiliza justamente esse ensinamento ao falar do amor preferencial da Igreja pelos pobres (cf. CIC, n. 2449). E Cristo não deixa muita margem para interpretações quando diz, “todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). Não existe verdadeira vida cristã sem alguma forma concreta de generosidade.

Por isso, talvez precisemos parar de perguntar por alguns minutos por que determinada pessoa rica não doa mais e fazer uma pergunta muito mais desconfortável, por que eu não dou mais?

Onde está o depósito da minha caridade? Está ao lado do depósito da minha fé ou escondido junto das minhas desculpas? Aquilo que recebi de Deus termina em mim ou alcança alguém? Porque não precisamos possuir bilhões para sermos avarentos, assim como não precisamos possuir milhões para sermos generosos.

A generosidade começa quando paramos de oferecer a Deus aquilo que pertence aos outros e começamos a colocar diante Dele aquilo que é nosso. Dinheiro, tempo, inteligência, trabalho, presença, paciência, cuidado e amor. Para que cada um responda pelo que recebeu. E que, antes de perguntarmos o que o outro fará com seus bilhões, tenhamos coragem de perguntar o que estamos fazendo com os nossos centavos.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

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