
“Con calma
Yo quiero ver cómo ella lo menea
Mueve ese poom-poom, girl
Tiene adrenalina, en medio ‘e la pista
Vente, hazme lo que sea
I like your poom-poom, girl (¡hey!)”.
Calma, o nosso site não foi invadido e eu também não resolvi transformar esta coluna em uma página de música latina. Acontece que, às vezes, ter um olhar um pouco mais positivo e tranquilo sobre a vida não significa ser simplesmente um sonhador, ignorar os problemas ou fingir que as dificuldades não existem. Para nós, católicos, ter calma deveria significar compreender que tudo neste mundo é passageiro e que, diante da eternidade, muitas das coisas que hoje parecem gigantescas voltarão ao tamanho que realmente possuem. Isso não quer dizer abandonar responsabilidades, contas, trabalho, família ou problemas esperando que Deus resolva tudo sozinho. Significa apenas lembrar a ordem correta das coisas, primeiro a eternidade, depois todo o restante.
Eu estava voltando do trabalho, é uma caminhada de aproximadamente vinte minutos e muita gente que trabalha comigo, ou simplesmente me conhece, insiste que eu deveria comprar um carro ou uma moto para não precisar fazer esse trajeto andando. Sinceramente, nunca enxerguei isso como um grande problema. Para alguém que passa boa parte do dia dentro de um prédio, entre sala, computador, e-mails, documentos, reuniões e processos, aqueles vinte minutos são também uma oportunidade de ver o mundo acontecendo. Pessoas indo almoçar, outras voltando ao trabalho, lojas abrindo, trabalhadores carregando coisas, gente resolvendo seus próprios problemas. Às vezes passamos tanto tempo presos dentro das nossas pequenas caixas que esquecemos que existe um mundo inteiro acontecendo do lado de fora.
Naquele dia, porém, havia um detalhe, era por volta de meio-dia e meia, fazia cerca de 36 graus e a sensação térmica parecia ainda maior. Para completar, meu celular estava sem sinal porque aparentemente minha operadora havia decidido que aquele não era um bom momento para funcionar. Eu seguia caminhando, com os fones nos ouvidos, escutando algumas músicas que estavam disponíveis off-line no aparelho, quando um carro parou ao meu lado.
Uma mulher baixou o vidro e disse:
– Por favor, entra aqui.
Achei aquela abordagem um pouco curiosa. Estranha, para falar a verdade. Mas, depois de uma breve análise da situação eu percebi que provavelmente não estavam tentando me sequestrar, aceitei a carona.
Durante aquele curto trajeto, a mãe dela que estava dentro do carro me fez uma pergunta muito específica:
– Qual é o seu segredo?
E a filha completou:
– Qual é o seu problema?
Confesso que não entendi nenhuma das duas perguntas. Pedi que explicassem melhor e, aos poucos, compreendi o que estava acontecendo. Elas estavam dentro do carro discutindo. Tinham problemas familiares, discordavam sobre uma série de coisas e nenhuma das duas estava particularmente feliz ou tranquila naquele momento. Quando passaram por mim, reconheceram-me da igreja. Provavelmente já nos encontramos algumas vezes por lá, embora eu sinceramente não lembrasse muito bem delas. O que chamou a atenção das duas foi uma coisa muito mais simples, enquanto elas estavam dentro do carro, no ar-condicionado, discutindo sobre seus problemas, eu estava caminhando ao sol, ouvindo música e aparentemente bastante tranquilo.
Sorri e respondi, fazendo referência a música que tocava quando elas me abordaram:
– O segredo é ter calma.
A partir daí conversamos um pouco. Não detalharei as dificuldades daquela família porque não me cabe expor a história delas, mas tentei dar alguns conselhos e, no final, disse aquilo que me parece ser o conselho mais católico que eu tinha disponível, “lembrem-se de que tudo nesta vida passa. Nosso objetivo último continua sendo a eternidade”.
Nosso Senhor disse, “não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas próprias preocupações. A cada dia basta o seu mal” (cf. Mt 6,34). Jesus não estava ensinando irresponsabilidade, nem estava dizendo para deixarmos de trabalhar, planejar ou cuidar daquilo que depende de nós. Estava nos ensinando a não carregar hoje também o peso de amanhã, como se pudéssemos controlar tudo aquilo que ainda nem aconteceu. Há problemas que precisam ser resolvidos hoje, outros só existirão amanhã. Sofrer antecipadamente pelos dois não torna ninguém mais responsável.
Grande parte da nossa “moderna” falta de paz vem daí. Transformamos cada dia no dia mais importante da nossa vida, cada problema no maior problema que já enfrentamos e cada tarefa numa urgência absoluta. Tudo precisa ser resolvido agora, tudo precisa acontecer do nosso jeito e qualquer mudança de planos parece capaz de desmontar o mundo inteiro. Então vamos perdendo a paciência com nossos pais, filhos, esposos, amigos e colegas por coisas que, daqui a alguns meses, talvez sequer consigamos lembrar.
Santa Teresa dʼÁvila compreendeu profundamente essa ordem das coisas quando escreveu, “nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, Deus não muda”. E termina sua conhecida oração recordando, “quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta”. Não significa que nada nos fará sofrer. Significa que nenhuma dessas coisas possui a última palavra, tudo passa, mas Deus permanece.
A calma cristã também não significa ausência de tribulação, Santo Agostinho diz que “a vida do cristão é um caminho entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus”. O problema continuará existindo, a doença continuará sendo dolorosa, a conta precisará ser paga, a relação familiar talvez precise de uma conversa difícil e o trabalho continuará esperando no dia seguinte. A diferença é que não enfrentamos essas coisas como quem acredita que tudo depende exclusivamente de nossas próprias forças.
O próprio Cristo, às vésperas da Paixão, sabendo perfeitamente o que aconteceria nas horas seguintes, disse aos Apóstolos, “deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração nem se atemorize” (cf. Jo 14,27). Jesus não promete essa paz quando todos os problemas estiverem resolvidos. Ele a oferece justamente quando a Cruz está chegando. A paz cristã, portanto, não nasce de uma vida sem problemas, mas da certeza de que nenhum problema é maior do que Deus.
Quando chegamos à minha casa, aquelas duas mulheres já estavam aparentemente mais tranquilas, elas me deixaram na porta e seguiram o caminho delas. Talvez depois tenham voltado a discutir, talvez tenham conseguido resolver aquilo que as incomodava. Não sei. Também não sei se alguma coisa que falei permanecerá. Isso pertence a Deus.
Mas fiquei pensando como, às vezes, sem perceber, podemos servir de pequeno lembrete para alguém. Não porque sejamos modelos de serenidade, santidade ou equilíbrio (certamente eu não sou), mas porque, naquele instante, Deus pode utilizar uma coisa tão pequena quanto alguém caminhando ao sol ouvindo música para iniciar uma conversa que precisava acontecer.
Precisamos olhar para nossa família lembrando que temos o compromisso de ajudá-la a chegar ao Céu. Para nossos amigos, sabendo que devemos ser testemunhos do Evangelho. Para nosso trabalho, entendendo que ele auxilia na nossa santificação. Para nossas dificuldades, sabendo que elas não são maiores do que o nosso Deus. E para todas as coisas, sempre devemos atribuir sua devida importância, sem exagerar e sem negligenciar.
Assim lembramos que nem tudo é o fim do mundo. Na verdade, quase nada é. E, quando parecer que é, talvez seja hora de recordar aquilo que tocava nos meus fones naquele momento: Con calma.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

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