“Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,21-35).
24º Domingo do Tempo Comum | Ano A

A pergunta de Pedro parece generosa, perdoar sete vezes a mesma pessoa já seria, para muitos de nós, um exercício difícil. Entretanto, Jesus rompe a lógica da contagem, “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22), aqui Cristo não está estabelecendo quatrocentas e noventa oportunidades para, na seguinte, autorizar o ressentimento. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, comentando essa passagem, ensina justamente que o número indica a ausência de um limite para o perdão. Se Deus tivesse colocado uma medida exata para a misericórdia que oferece a nós, poderíamos também estabelecer uma medida para aquela que oferecemos aos outros. Mas quem consegue calcular quantas vezes já precisou ser perdoado pelo Senhor?
Talvez o perdão se torne tão difícil porque guardamos com muita precisão a contabilidade das feridas. Lembramos o que foi feito, quantas vezes aconteceu e até a forma como alguém pediu desculpas. Algumas dores são profundas e não desaparecem simplesmente porque decidimos perdoar. Cristo não exige que chamemos o mal de bem, que neguemos a gravidade de uma ofensa ou que devolvamos imediatamente uma confiança que foi destruída. Perdoar significa renunciar ao desejo de fazer da dívida do outro uma prisão permanente, entregando a Deus o julgamento que não nos pertence e impedindo que a ofensa continue governando nosso coração.
Essa diferença entre as duas dívidas apresentadas na parábola nos obriga a olhar para nós mesmos. Quando alguém nos fere, aquilo que sofremos pode ser verdadeiro e grave e o Evangelho não despreza nossa dor. A comparação começa quando colocamos essa dívida diante da misericórdia que recebemos de Deus. São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, observa que lembrar os próprios pecados torna o homem mais indulgente com seu semelhante. Quem conserva viva a memória da misericórdia recebida encontra mais dificuldade para assumir diante do irmão a posição de um credor implacável.
Há um detalhe da parábola que merece maior atenção. Os outros empregados testemunham o que aconteceu e ficam profundamente entristecidos. Eles não eram os devedores, mas a injustiça praticada contra um dos seus não lhes foi indiferente. Então procuram o rei e contam aquilo que viram. Existe nessa atitude a imagem da vida cristã, quando encontramos uma situação que já não conseguimos resolver, podemos levá-la ao Senhor. Aqueles servos não fazem justiça pelas próprias mãos, tampouco respondem à violência com nova violência, eles apresentam ao rei a dor do irmão.
Talvez devêssemos fazer isso com maior frequência, quando conhecemos uma família ferida pela falta de perdão, alguém preso ao ressentimento ou uma relação que parece incapaz de encontrar reconciliação, existe um momento em que nossas palavras já não conseguem alcançar os corações. Ainda podemos interceder, pwodemos levar ao Rei aquilo que vimos e pedir que sua graça entre onde nossa capacidade humana já não consegue entrar. A intercessão nasce quando a dor do outro deixa de ser um assunto distante e passa a encontrar lugar em nossa oração.
Há também uma advertência nessa cena. Os demais servos ficam tristes com a falta de misericórdia e nós também precisamos ficar, precisemos perguntar se nossas atitudes também entristecem aqueles que compartilham conosco a fé. Podemos rezar, aproximar-nos dos sacramentos e pedir misericórdia enquanto conservamos alguém condenado dentro do coração.
Quando o rei descobre o que aconteceu, chama o servo e lhe diz, “Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (Mt 18,32-33). Aqui chamo atenção para o “como”, o homem deveria ter recebido a misericórdia do rei de tal maneira que ela modificasse seu comportamento, no entanto ele foi perdoado, mas não aprendeu o perdão, recebeu a compaixão sem permitir que ela transformasse seu coração.
Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, ensina que a misericórdia, entre as virtudes voltadas para o próximo, ocupa um lugar eminente porque busca socorrer a miséria alheia. Ele recorda também que agir com misericórdia nos torna semelhantes a Deus em suas obras e é precisamente isso que o rei esperava do servo. A graça recebida deveria produzir alguma semelhança com aquele que a concedeu. Deus não nos perdoa para que permaneçamos exatamente iguais, carregando contra os outros a dureza da qual pedimos para ser libertados.
A conclusão de Jesus é severa, “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão” (Mt 18,325). São João Crisóstomo chama atenção para essas últimas palavras. Não basta um perdão pronunciado apenas pelos lábios enquanto alimentamos interiormente o desejo de vingança.
Perdoar de coração não significa deixar de sentir dor imediatamente, pois algumas feridas precisarão de tempo, distância prudente e cura. O coração que perdoa pode ainda sofrer quando recorda, sua diferença está na decisão de não alimentar voluntariamente o ódio, de não desejar o mal e de entregar a Deus aquilo que não consegue reparar sozinho. Muitas vezes teremos de repetir essa decisão, como uma forma concreta do “setenta vezes sete”, perdoar novamente dentro de nós cada vez que a lembrança da mesma ferida tentar reconstruir a antiga dívida.
Pois precisamos recordar que na oração do Pai-Nosso, pedimos, “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Todos os dias colocamos diante de Deus uma medida. Pedimos que sua misericórdia encontre em nós um coração que também aprendeu a ser misericordioso. São João Crisóstomo chega a dizer que, nessa oração, o Senhor nos faz recordar diariamente a obrigação do perdão. Não porque nosso perdão compre o perdão de Deus, mas porque seria contraditório suplicar uma misericórdia que decidimos negar aos nossos irmãos.
Neste domingo, não precisamos perguntar quantas vezes já perdoamos alguém, mas é imprescindível recordar quantas vezes fomos perdoados. Quando recuperamos a memória de nossa própria dívida, começamos a olhar de outra maneira para as cem moedas que ainda seguramos contra o outro. O Pai espera que a misericórdia recebida não termine em nós, espera que ela atravesse nossa vida e alcance aqueles que também nos devem alguma coisa.
Setenta vezes sete significa abandonar a calculadora diante do irmão porque Deus não permanece fazendo contas quando nos ajoelhamos diante dele. Que saibamos também levar ao Rei as dores que não conseguimos resolver, intercedendo por aqueles que ainda estão presos às próprias dívidas. E que, quando chegar o momento de prestarmos contas, o Pai encontre em nosso coração algum reflexo da misericórdia que tantas vezes lhe pedimos.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

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