Sobre ouvir para aprender

Por trabalhar em uma universidade, passo boa parte da semana cercado por pessoas com alto grau de instrução. Graduados, especialistas, mestres e doutores, cada um deles com suas opiniões, pesquisas, teorias e aquilo que convencionamos chamar de ciência. Evidentemente existe muito valor nisso, afinal dediquei boa parte da minha própria vida ao estudo. Mas também é verdade que o ambiente universitário, como qualquer outro, pode nos fazer acreditar que sabemos mais sobre a vida simplesmente porque lemos mais sobre ela. Às vezes o excesso de teoria nos distancia da realidade objetiva e, em alguns casos, o próprio ego nos impede de aprender com quem aparentemente teria pouco a nos ensinar.

Não por acaso São Bento começa sua Regra com uma única palavra, “Escuta”. Antes de falar, ensinar, corrigir ou mostrar quanto sabemos, precisamos aprender a ouvir.

As últimas duas semanas foram extremamente puxadas no trabalho, parecia que eu vivia apenas para trabalhar e, por causa de uma colação de grau, saí na sexta-feira para cumprir aquele básico da apresentação social masculina, cortar o cabelo. Depois do corte, caminhei uns vinte metros e parei em um pequeno restaurante para almoçar. Estava sentado em uma daquelas mesas de madeira na calçada quando um morador de rua se aproximou.

Ele pediu dinheiro. Automaticamente respondi que não tinha. E realmente não tinha, primeiro porque quase nunca ando com dinheiro e, segundo, porque raramente sobra algum.

Então ele perguntou:

– Você pode me dar alguma coisa para comer?

Olhei para ele e perguntei:

– Mas é para comer mesmo?

Ele respondeu:

– Sim, para comer de verdade.

Então indiquei o restaurante:

– Vai lá dentro e pede um prato.

Ele ficou feliz, mas ainda desconfiado.

– Sério? De rocha mesmo?

– Sério. Vai lá.

A funcionária, imaginando que ele estivesse incomodando algum cliente, fez um gesto dizendo que não. Inclinei-me um pouco na cadeira e sinalizei que estava tudo bem e que eu pagaria. Prepararam um prato feito. Quando trouxeram, porém, veio em um prato comum. Ele esperando um pratinho de isopor descartável, olhou para a comida, depois para mim, e perguntou:

– E onde eu vou comer isso?

Respondi:

– Senta-se aqui. Cliente é cliente.

Outra vez:

– Sério mesmo?

– Sério. Senta-se aí.

E ele se sentou.

Enquanto terminávamos de comer, conversamos. Contou um pouco da vida, de como sobrevivia, dos lugares por onde havia passado, das pessoas que encontrou e das escolhas que fez. Em dez minutos de conversa aprendi coisas sobre a vida que nenhuma das reuniões complicadas das duas semanas anteriores conseguiria ensinar daquele modo.

Não porque conhecimento acadêmico simplesmente seja inútil, mas porque há conhecimentos que vêm dos livros e outros que somente aparecem quando temos humildade suficiente para ouvir o próximo.

Por isso que São Tiago aconselha, “todo homem seja pronto para ouvir, lento para falar” (Tg 1,19) e o nosso problema é fazer exatamente o contrário, porque estamos sempre prontos para falar, explicar, ensinar, comentar e julgar. Mas nem sempre estamos dispostos a sentar diante de alguém que aparentemente não possui nada para nos oferecer e simplesmente escutar.

Quando terminei, levantei-me, agradeci pela conversa e pela companhia. Disse que ele poderia ficar à vontade para terminar a refeição, paguei a conta e fui embora.

Enquanto caminhava para casa, fiquei pensando não no fato de ter pagado um almoço, porque isso seria transformar um gesto simples em algo muito maior do que realmente foi, mas em como foi natural naquele momento dividir a mesa.

Havia outras pessoas no restaurante e algumas ficaram claramente desconfortáveis. O homem estava sujo, suas roupas estavam desgastadas e havia nele o cheiro próprio de quem provavelmente não tinha onde tomar banho havia algum tempo.

Mas então pensei em mim mesmo, espiritualmente, quantas vezes também não chego assim diante de Deus?

Santa Teresa d’Ávila, no Castelo Interior, descreve de maneira muito forte a alma em pecado mortal. Ela fala de uma alma mergulhada em profunda escuridão e utiliza a imagem de águas negras e corrompidas, incapazes de produzir bons frutos. Não porque a alma deixe de possuir dignidade, mas porque o pecado nos afasta da luz de Deus. E, ainda assim, Ele nos recebe.

Na parábola do filho pródigo, o filho retorna depois de desperdiçar tudo. Volta humilhado, sujo da estrada e sem nada para oferecer. Mas o pai não espera que ele primeiro se torne apresentável. Corre ao seu encontro, abraça-o, beija-o, manda trazer a melhor roupa, coloca um anel em seu dedo e sandálias nos seus pés (cf. Lc 15,20-24).

Por isso, diante daquele homem, era impossível não recordar também as palavras de Cristo, “tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35), e pensar no que Ele nos diz depois, “todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40).

São Pedro Crisólogo dizia que “a mão do pobre é o tesouro de Cristo, porque Cristo recebe tudo o que o pobre recebe”. Talvez seja por isso que a caridade cristã nunca possa se limitar a entregar alguma coisa de longe. Quando possível, ela também precisa reconhecer a pessoa que está diante de nós.

Naquele dia, eu paguei um almoço e recebi uma conversa, ofereci uma cadeira e recebi uma aula.

É isso que precisamos aprender e exercitar como católicos, agir de tal maneira que algumas respostas já estejam incorporadas em nós. Não precisar fazer um grande cálculo para decidir se devemos alimentar quem tem fome, acolher quem precisa ou ouvir quem ninguém deseja ouvir.

Que a fé vá se tornando tão parte de nós que, diante de determinadas situações que simplesmente sejamos como católicos. Para que nunca sejamos tão instruídos a ponto de acreditar que não temos mais nada a aprender com quem cruza o nosso caminho.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

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