
Quero falar diretamente com os católicos. Conosco, que fomos batizados, crismados, que confessamos, participamos da Santa Missa e comungamos. Com aqueles que carregam um crucifixo no peito, um escapulário, uma medalha de Nossa Senhora, um terço na mão ou preso à roupa. A pergunta que me faço é bastante simples, como é a nossa vida de católicos justamente nos lugares onde ninguém exige que sejamos católicos?
Recentemente recebi doze vezes o mesmo meme. Era uma brincadeira dizendo que orientador de TCC é como um verdadeiro pai: um pai ausente. Para minha alegria, recebi exatamente o mesmo meme de doze orientandos e ex-orientandos meus. Alguns ainda estão desenvolvendo seus trabalhos, outros já se formaram, mas todos enviaram fazendo referência às experiências de colegas que tiveram orientadores pouco presentes e, em tom de brincadeira, chamavam-me de “pai presente”.

Aquilo me chamou atenção não simplesmente porque era uma avaliação positiva do meu trabalho. Evidentemente é bom perceber que aquilo que fazemos é reconhecido, mas porque o trabalho também precisa ser santo.
Não podemos desejar ser santos apenas dentro da igreja, quando estamos em uma pastoral, conduzindo uma catequese, participando de uma procissão ou diante do Santíssimo Sacramento. A santidade precisa nos acompanhar justamente quando ninguém está olhando para nós como filhos da Santa Mãe Igreja. No trabalho, na universidade, no comércio, dentro de casa, no trânsito e nos pequenos compromissos que aparentemente nada possuem de religiosos.
São Paulo escreve, “tudo o que fizerdes, fazei-o de coração, como para o Senhor e não para os homens” (c.f. Cl 3,23), é dessa maneira que um católico deveria compreender o próprio trabalho. Se aquilo que faço também pode ser oferecido a Deus, então fazer malfeito por preguiça, tratar com indiferença quem depende de mim, atrasar aquilo que prometi sem necessidade ou entregar qualquer coisa simplesmente porque “está bom assim” deixa de ser apenas uma questão profissional e torna-se também uma questão espiritual.
São Josemaria Escrivá resumiu essa espiritualidade em uma expressão muito conhecida “santificar o trabalho, santificar-se no trabalho, santificar os outros através do trabalho”. Isso significa que não precisamos abandonar nossas profissões para procurar algum lugar extraordinário onde possamos servir a Deus. Para a maioria de nós, Deus já colocou o lugar da santificação diante da nossa mesa, do nosso computador, da nossa oficina ou da nossa rotina diária.
Não por acaso que Santo Inácio de Loyola buscava “encontrar Deus em todas as coisas”. Não somente nas grandes experiências espirituais, mas no cotidiano, nas relações, nas escolhas e no serviço. O papa Bento XVI recordou justamente essa característica da espiritualidade inaciana de encontrar Deus em todas as coisas e amá-lo em todas as criaturas.
Então precisamos nos perguntar, estamos encontrando Deus no nosso trabalho?
Não falo simplesmente de colocar uma imagem de santo sobre a mesa ou falar de religião durante o expediente. Isso pode ser bom quando existe espaço adequado, mas existe um testemunho anterior a qualquer palavra, trabalhar corretamente.
Se sou professor, preparar bem uma aula também é testemunho. Se sou médico, atender com dignidade aquele paciente é testemunho. Se sou funcionário público, cuidar corretamente daquilo que pertence ao povo é testemunho. Se sou empresário, pagar com justiça também é testemunho.
Se Nosso Senhor Jesus Cristo disse, “tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (c.f. Mt 25,40). Talvez precisemos lembrar disso quando começamos a tratar as pessoas apenas como processos, números, clientes, alunos, subordinados ou problemas que precisamos resolver. No outro existe uma pessoa criada por Deus e aquilo que fazemos por ela também revela alguma coisa sobre nossa relação com Ele.
Por isso, de nada adianta participar de todas as atividades da paróquia se no trabalho ninguém suporta nossa presença. De pouco serve carregar um terço visível se somos conhecidos pela desonestidade. Não existe coerência em receber a Eucaristia no domingo e, durante a semana, tratar mal aqueles que dependem de nós.
Não digo isso para menosprezar devoções externas, o contrário disso, o escapulário, o terço, as medalhas, as camisas de festejos e os sinais externos de nossa fé também anunciam algo. Mas justamente por anunciarem quem somos, aumentam nossa responsabilidade de viver de maneira coerente com aquilo que mostramos.
Santo Antônio já nos ensinou que, “as ações falam mais alto que as palavras; que as palavras ensinem e as ações falem”, e por isso nos adverte que podemos estar cheios de palavras e vazios de obras.
Possivelmente as pessoas no seu trabalho não se importem com qual é a sua religião e ficam felizes até quando você não comenta sobre ela, talvez nunca apareça o momento oportuno para explicar a doutrina, defender um dogma ou falar de algum santo. Mas todos conseguem perceber se você é honesto, responsável, paciente, justo, competente e disposto a ajudar. Mas agindo assim, é possível que alguém descubra alguma coisa sobre Cristo simplesmente porque encontrou um católico que fazia bem aquilo que deveria fazer.
E quando agimos assim, obedecemos a uma rodem clara e direta, “sede santos, porque Eu sou santo” (IPd 1,16), sem rodeios e sem justificativas, a Sagrada Escritura não faz ressalvas dizendo, sejam santos na Santa Missa ou sejam santos quando estiverem entre católicos.
Por isso antes de nos preocuparmos com quantas atividades fazemos na igreja, precisamos nos perguntar, quanto da Santa Igreja conseguimos levar para aquilo que fazemos todos os dias?
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

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