“Daí pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,15-21).
29º Domingo do Tempo Comum | Ano A

Os fariseus aproximam-se de Jesus com uma pergunta que não nasce do desejo de aprender, eles querem colocá-lo numa armadilha. Se disser que o imposto a César deve ser pago, poderão acusá-lo diante daqueles que rejeitavam a dominação romana. Se disser o contrário, poderão denunciá-lo ao poder imperial. Cristo conhece a intenção daqueles homens e pede uma moeda. Eles apresentam o denário e a partir daí vem a pergunta, “De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” (Mt 22,20). A resposta é simples de César. E Jesus conclui, “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21b).
Costumamos recordar essa passagem para falar da relação entre fé e obrigações civis, e essa leitura é correta. O cristão vive no mundo e possui deveres diante da sociedade. Contudo, a resposta de Jesus vai além da moeda, se aquilo que traz a imagem de César deve ser devolvido a César, o que devemos devolver a Deus? A Escritura já havia respondido no início da criação, “façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (c.f. Gn 1,26). A moeda trazia a marca do imperador, nós carregamos a marca do Criador.
Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, percebeu com clareza essa relação e ensinou, “como César procura sua imagem em tua moeda, Deus procura sua imagem em ti”. Cristo não está pedindo apenas uma parte do que possuímos, como se Deus pudesse receber sua parcela depois que distribuímos o restante da vida entre trabalho, família, projetos e interesses pessoais. Aquilo que pertence a Deus somos nós mesmos, antes de possuir qualquer coisa, já pertencemos àquele que nos criou.
O pecado começa quando esquecemos essa pertença e passamos a tratar a vida como propriedade absoluta e imaginamos que ninguém pode dizer como devemos utilizá-la. O corpo torna-se algo sobre o qual reivindicamos domínio sem limites, o tempo é organizado sem perguntar se existe espaço para Deus e os talentos recebidos são utilizados apenas segundo aquilo que produz vantagem. Continuamos carregando a imagem do Criador, mas tentamos viver como se fôssemos donos de nós mesmos.
Reconhecer-se propriedade de Deus não diminui a liberdade, mas coloca nossa liberdade no lugar onde ela pode encontrar sentido. O problema começa quando alguma realidade criada tenta ocupar o lugar d’Aquele cuja imagem trazemos. Dinheiro, poder, prazer ou aprovação passam de instrumentos para senhores, e então começamos a entregar às criaturas aquilo que somente Deus poderia receber. Podemos até continuar falando de Deus, mas nossa vida já está organizada em torno de outras pertenças.
O Papa Francisco, meditando sobre esse Evangelho, resumiu essa verdade de modo direto, “antes de tudo, tu pertences a Deus”. Não pertencemos primeiramente ao trabalho que realizamos, à posição que ocupamos ou à opinião que os outros construíram sobre nós. Também não pertencemos ao pecado que cometemos. A imagem pode ser ferida, mas continua apontando para aquele que a imprimiu. Por isso a conversão é possível, Deus chama de volta aquilo que é seu e nos ensina novamente a viver conforme a dignidade recebida.
Essa pertença também muda a maneira como olhamos para os outros, porque se todo ser humano traz a imagem de Deus, ninguém pode ser tratado como objeto de conveniência ou descartado quando deixa de ser útil. Não somos proprietários absolutos nem de nós mesmos, muito menos da vida de quem está ao nosso lado. Pais não possuem os filhos, esposos não possuem um ao outro e nenhuma autoridade humana pode reivindicar para si aquilo que pertence primeiro ao Criador.
Devolver a Deus o que é de Deus significa permitir que essa pertença alcance nossas escolhas. A oração deixa de ser apenas um pedido e se torna reconhecimento, a Santa Missa deixa de ser uma obrigação isolada e se torna o lugar onde oferecemos ao Senhor a vida que dele recebemos. Até nossa luta contra o pecado assume outro sentido, porque já não combatemos apenas um comportamento inadequado, lutamos para que a imagem de Deus apareça com maior clareza em nós.
Santo Agostinho observa ainda que lamentamos quando perdemos uma moeda porque nela está a imagem de César, mas nem sempre lamentamos quando ferimos em nós a imagem de Deus. Aprendemos a proteger aquilo que pode ser perdido e frequentemente descuidamos daquilo que deverá permanecer para a eternidade. Preocupamo-nos com patrimônio, reputação e segurança, enquanto a alma pode ir se acostumando ao pecado sem provocar a mesma inquietação.
Neste domingo, Cristo nos mostra uma moeda e nos obriga a olhar para uma marca muito maior. César pode exigir aquilo que legitimamente lhe pertence, pois no mundo também terá suas responsabilidades e compromissos. Mas nenhum deles poderá receber aquilo que é devido somente a Deus. Nossa existência traz sua imagem e, por isso, pertence a Ele. Que saibamos devolver ao Senhor aquilo que nunca deixou verdadeiramente de ser seu, nossa inteligência, nossa vontade, nossos afetos e toda a vida que recebemos de suas mãos.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

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