“Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20.19-23).
Domingo de Pentecostes | Solenidade | Ano A

Neste domingo a Santa Mãe Igreja nos conduz pela Solenidade de Pentecostes, revelando que a Igreja não nasce de uma estratégia humana, mas do sopro de Deus. Os discípulos estavam reunidos, com as portas fechadas, dominados pelo medo. Tinham visto a violência da cruz, conheciam a hostilidade de parte dos judeus e carregavam no coração a fragilidade própria de quem ainda não compreendia plenamente a vitória do Ressuscitado. É nesse ambiente de temor, clausura e incerteza que Cristo se apresenta no meio deles e diz, “a paz esteja convosco” (Jo 20.19b).
Jesus não entra no cenáculo para acusar os discípulos de sua fuga, nem para recordar a covardia da noite da Paixão. Ele entra para restaurar, por isso paz que oferece não é simples tranquilidade psicológica, nem ausência exterior de conflitos. É a paz que brota da reconciliação entre Deus e os homens, conquistada pelo sangue derramado na cruz. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, ensina que a verdadeira paz é “a tranquilidade da ordem”, isto é, a harmonia de todas as coisas colocadas segundo Deus. Quando Cristo diz “a paz esteja convosco”, Ele recoloca os discípulos na ordem da graça.
O texto sagrado destaca que Jesus mostrou-lhes as mãos e o lado (cf. Jo 20.20). O Ressuscitado conserva as marcas da Paixão, não as esconde, porque elas são agora sinais gloriosos de seu amor. As chagas que antes pareciam testemunhar a derrota tornam-se prova da vitória. O lado aberto, do qual jorraram sangue e água, permanece como fonte da vida sacramental da Igreja. São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, recorda que Cristo mostra as chagas para confirmar aos discípulos que aquele que estava diante deles era o mesmo que fora crucificado. A Ressurreição não apaga a cruz; ela revela o seu sentido.
Ao verem o Senhor, os discípulos se alegraram, porque a alegria cristã nasce da presença de Cristo. Enquanto permaneciam fechados no medo, os discípulos estavam presos a si mesmos, quando veem o Senhor, reencontram a esperança. Assim também acontece com a Santa Igreja e com cada cristão. Quando Cristo deixa de ocupar o centro, cresce o medo, a confusão e o fechamento. Quando Ele se coloca novamente no meio, nasce a alegria que o mundo não pode fabricar nem destruir.
Jesus repete, “a paz esteja convosco”. A repetição não é casual. Primeiro, a paz restaura os discípulos; depois, a paz os envia. Por isso o Senhor acrescenta, “como o Pai me enviou, também eu vos envio” (cf. Jo 20.21). A missão da Santa Mãe Igreja nasce da missão do Filho, Cristo foi enviado pelo Pai para revelar a misericórdia, vencer o pecado e conduzir os homens à comunhão com Deus. Agora, os discípulos são enviados para prolongar sacramentalmente essa presença no mundo.
São Gregório Magno, papa e “magno” doutor da Igreja, observa que o envio dos apóstolos revela a continuidade entre a obra de Cristo e a missão da Santa Igreja. A Santa Igreja não anuncia uma doutrina própria, nem age em nome de interesses humanos. Ela é enviada por Cristo e só permanece fiel quando conserva essa consciência de que não pertence a si mesma. Toda evangelização autêntica nasce da obediência ao Senhor que envia.
Em seguida, Jesus sopra sobre os discípulos e diz, “recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22b). O gesto remete ao princípio da criação, quando Deus soprou a vida no homem. Agora, no cenáculo, acontece uma nova criação, o homem ferido pelo pecado é recriado pela graça. O Espírito Santo é dado à Santa Igreja como princípio de vida, unidade e santificação, sem o Espírito, a Igreja seria apenas uma instituição humana, com o Espírito, ela se torna Corpo vivo de Cristo na história.
Santo Atanásio de Alexandria, doutor da Igreja e “pai da ortodoxia”, ensina que o Filho de Deus se fez homem para que os homens pudessem participar da vida divina. Essa participação se realiza pela ação do Espírito Santo, que não apenas consola exteriormente, mas transforma interiormente. Pentecostes não é somente a memória de um acontecimento passado, é a manifestação permanente de que Deus deseja habitar no coração dos homens e conduzi-los à santidade.
O sopro de Cristo também revela que a missão da Santa Igreja não pode ser sustentada apenas por talentos, métodos ou discursos. Antes de enviar os discípulos ao mundo, Jesus lhes dá o Espírito. Isso significa que a fecundidade da missão depende da graça. Pode haver organização, eloquência e esforço humano, mas sem o Espírito Santo tudo permanece estéril. Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, afirma que o Espírito Santo é o amor procedente do Pai e do Filho, e é por esse amor que os homens são movidos interiormente para Deus. A evangelização verdadeira começa quando o amor divino move aquilo que a inteligência compreende e a vontade assume.
Por fim, Cristo confia aos apóstolos o poder de perdoar os pecados, “a quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20.23). Pentecostes está profundamente ligado à misericórdia, o Espírito Santo é dado para que a Santa Igreja anuncie a reconciliação e exerça o ministério do perdão. A vitória de Cristo sobre o pecado torna-se acessível aos homens pela vida sacramental da Santa Igreja.
São Cirilo de Alexandria doutor “Selo dos Padres” da Igreja, vê nesse sopro de Cristo a comunicação de uma autoridade espiritual concedida aos apóstolos, não por mérito próprio, mas por participação na missão do Ressuscitado. A Santa Igreja perdoa porque Cristo perdoa nela, o sacerdote absolve não como dono da graça, mas como instrumento daquele que venceu o pecado e abriu novamente ao homem o caminho da comunhão com Deus.
Pentecostes, portanto, não é apenas a festa do fogo, das línguas e da missão visível narrada nos Atos dos Apóstolos. São João nos apresenta também a festa da paz, do sopro e do perdão. Cristo entra onde há medo, coloca-se no meio dos seus, mostra as chagas, comunica a paz, concede o Espírito e envia a Santa Igreja ao mundo. A comunidade amedrontada torna-se comunidade enviada, os homens fechados em si mesmos tornam-se testemunhas da misericórdia.
A Solenidade de Pentecostes nos recorda que a Santa Mãe Igreja não vive de suas próprias forças, mas da força do Espírito Santo que recebeu de Cristo. Quando se deixa conduzir por esse Espírito, ela anuncia com coragem, perdoa com autoridade, sofre com esperança e permanece fiel mesmo diante das portas fechadas da história. O mesmo Senhor que entrou no cenáculo continua entrando nas feridas da humanidade, dizendo à sua Santa Igreja “a paz esteja convosco” (Jo 20.19b). E, depois de dar a paz, continua a enviá-la, para que, no mundo marcado pelo medo e pelo pecado, ela seja sinal vivo da presença misericordiosa de Deus.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.




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